O Projeto Político Pedagógico com todos os “P” grandes, segundo Eunápio Ganimedes
Edmundo Samson era professor universitário há mais de trinta e cinco anos. Ingressara, por meio de concurso público, no magistério superior no Instituto de Estudos Superiores de Rio das Mortes (IESRM), onde passara quase dez anos. Em seguida foi aprovado, também em concurso público, na Universidade Provincial de Rio das Mortes (UPRM), onde, além da docência, exercera várias funções administrativas e em centros de pesquisa, quase todas vinculadas ao Departamento de Química, onde era lotado.
Quase não suportava mais o ambiente de trabalho, mas, apaixonado pela docência, seguia lecionando resolutamente. Amigo de Eunápio Ganimedes, a quem conheceu na UPRM, dividia com ele a preocupação com o crescimento das pautas de costumes na universidade, tomada por grupelhos, entre professores e alunos, sequiosos por empurrar goela abaixo de todos (ou todes, como diziam alguns desses grupelhos) suas visões de mundo.
– Tudo, hoje, aqui é para privilegiar maconheiro, puta e viado – dizia com raiva, olhando tristemente para o pátio do Centro de Estudos de Química, Física e Engenharias (CEQFE).
Estudioso de assuntos relacionados ao petróleo, Edmundo Samson tinha uma multidão de bolsistas e professores vinculados aos mais diversos projetos que coordenava. Já com tempo de serviço para requerer a aposentadoria, Ed Sam, como os amigos mais próximos o chamavam, notava a azáfama que tomava, há seis meses conta da UPRM. A comunidade acadêmica corria alucinadamente para concluir o Projeto Político Pedagógico (PPP), o qual estava sob a coordenação do professor Hercílio Galdino Petrarca, farol intelectual da instituição.
Naquela terça-feira, 13 de julho de 2022, Ed Sam viu quando chegou ao gabinete do reitor um ofício do Ministério da Educação (ME). O ME era incisivo: a instituição tinha um ano, a contar daquela data, para finalizar o famigerado PPP, lambido e relambido há três anos. Hercílio Galdino não demonstrava competência para organizar e finalizar os trabalhos. No dia seguinte, a UPRM amanheceu com uma notícia capaz de provocar uma crise institucional de proporções apocalípticas: um artigo científico publicado na mais prestigiosa revista acadêmica daquele outrora vetusto templo do saber havia descoberto que a semente de canabis, aquele pequeno desenho marrom construído por um adolescente diante de uma tela de celular podia ser utilizado como marcador simbólico de consumo de cocaína, de festa e de homossexualidade masculina nas redes sociais. Ninguém sabia exatamente o que fazer com a informação, mas os intelectuais militantes e engajados nos movimentos sociais viram ali uma coisinha, um negocinho, uma possibilidadedizinha, e arregaçaram as mangas das camisas.
Mais preocupada em distribuir benesses e favores para os seus apaniguados e pouco atento ao que ocorria no mundo real da comunidade acadêmica que deveria dirigir, o reitor foi alertado por algumas pessoas sobre os acontecimentos. Chamou os pró-reitores e diretores de centros e a coisinha, o negocinho, a possibilidadezinha ganhou velocidade, porque em seguida os diretores de centros chamaram os chefes de departamento, estes chamaram os coordenadores de curso, que chamaram os pedagogos e os pedagogos deram a senha:
– Deve ser montada uma comissão para discutir o assunto – disseram em uníssono.
Ao final da reunião, a proposta estava na mesa do reitor, que sem pestanejar criou a comissão, a qual recebeu o pomposo nome de Comissão de Sistematização dos Trabalhos Superiores (CSTS), ocupando o prédio da Bitola, então reduto da parcela conservadora da comunidade acadêmica da UPRM, e, no mesmo dia 14, a CSTS chamou uma reunião e a reunião chamou o caos e o caos deu as cartas dali em diante. Aquele dia ficou conhecido como a Queda da Bitola, início da revolução dos costumes na vanguardista província de Rio das Mortes.
O presidente da Comissão iniciou os trabalhos com um discurso que todos julgaram memorável.
– Precisamos compreender a dimensão currículo-pedagógica disso – disse empertigando-se, enquanto cofiava a barba longa e sebosa.
Ninguém perguntou o que significava “dimensão currículo-pedagógica”, porque todos sabiam que, numa instituição referenciada socialmente como aquela, determinadas expressões não precisam significar coisa alguma. Basta que tenham hífen e sejam ditas com ar solene em reuniões frequentadas por seres críticos e bem-pensantes.
O artigo que desencadeara o corre-corre explicava que a semente de maconha não era apenas uma sementezinha de maconha. Era signo, linguagem, território, disputa, corpo, desejo, algoritmo, censura, educação e, provavelmente, alguma coisa que ainda não tinha sido inventada porque faltava um Congresso Científico. Estava aí a possibilidadezinha. Um professor de Física, Eunápio Ganimedes, leu o resumo e ficou inicialmente em silêncio. Inquieto, levantou-se e pediu a palavra.
– Mas isso é mesmo uma semente de maconha? – perguntou com um sorriso irônico o professor Eunápio Ganimedes.
– É, sim. Por quê? – perguntou vociferando Arcádia Ernandez, professora colombiana radicada no Brasil há quase duas décadas, enquanto alisava os cabelos das axilas.
Eunápio Ganimedes era a concessão feita pela maioria da Comissão aos conservadores da universidade. Era detestado por quase toda a comunidade progressista da instituição por suas ideias independentes, porque “a independência é um risco”, diziam os virtuosos progressistas de qualquer um que ousasse ultrapassar os limites do pretenso bom-mocismo democrático propalado pelos gestores e pelos agraciados pelos gestores. Mas era melhor tê-lo na Comissão e depois poderem dizer que a Comissão garantia a presença dos conservadores a não ter um único conservador e ser apontada como antidemocrática. Foi um erro dos membros da CSTS integrar Eunápio aos seu quadros, afinal Eunápio não era flor que se cheira.
– Então eu posso falar sobre ela? – quis saber a Besta, como Eunápio era conhecido entre alguns dos seus colegas por ser um dissidente ideológico empedernido.
– Só se for numa perspectiva interdisciplinar – falou, inchando como sapo cururu a chefe da Coordenação da Multi, Inter e Transdisciplinaridade (CMIT)
– Então não posso – Eunápio fechou o artigo, que trouxe impresso, e encerrou o assunto.
– Não, não, fale. Antes de dizer qualquer coisa, quero deixar claro que Eunápio é um bom e sábio amigo, que merece todas as considerações. É importante, numa democracia, que todos possam registrar as suas posições – insistiu Amâncio Cuenca, famoso por suas falas piegas.
Na sala ao lado, um grupo de alunos descobriu o assunto e imediatamente abriu uma comissão espontânea de investigação. O primeiro aluno, com um tique nervoso, sustentava que a semente significava energia. O segundo, com o olhar bovino, dizia que significava droga. O terceiro, vestido de pierrô, afirmava que significava festa. O quarto disse, arrotando conhecimento acadêmico, que dependia do contexto, porque tudo é relativo. Aí entrou na sala um quinto aluno e gritou:
– A semente não pode ser simplesmente uma semente?
A sala mergulhou num silêncio constrangedor. A hipótese era revolucionária demais, mas ainda assim foi levada, no dia seguinte, com as outras quatro, à CSTS.
Um professor de Filosofia levantou-se.
– Devemos ter cuidado com visões assim. Essa última interpretação pode ser essencialista.
A partir daí, ninguém mais entendeu coisa alguma e, para aprofundar o debate, a universidade decidiu organizar um seminário para discutir o fenômeno, o qual recebeu um título provisório de vinte e oito palavras, três subtítulos, dois conceitos franceses e uma referência a Foucault. No cartaz, um aluno escreveu numa cartolina: Sim à maconha, à cocaína, à anarquia e ao sexo livre de amarras. Um outro, anarquista, pôs numa outra os dizeres Pó, Putaria e Pederastia. O aplauso foi quase unânime. Aquilo seria um soco no estômago.

Imagem feita com auxílio de IA
Em menos de meia hora, a fila para o seminário dobrava o corredor. Foi um sucesso.
– Finalmente um evento acessível ao grande público – comemorou o reitor, dando vazão a uma sucessão de gritos de ordem e jargões pretensamente progressistas.
Alguns membros da Comissão entraram em pânico.
– Essa proposta parece bem adequada – resmungou ironicamente Eunápio, com um sorriso no canto da boca.
– Por quê? – quis saber o presidente da CSTS.
– É vulgar demais. Tem tudo a ver com o que nós estamos fazendo com a universidade – gritou enfurecido Eunápio, levantando-se e derrubando a cadeira.
– Mas os termos estão, de certa forma, no artigo – apontou o orador meloso e piegas.
– Sim, sim, mas no artigo está em linguagem científica – gritou a colombiana de suvaco peludo.
– Primeiro, presto minhas homenagens sinceras à colega Arcádia, mas eu quero saber qual é a diferença? – insistiu Amâncio Cuenca.
Ninguém respondeu, porque a diferença, naquele momento, parecia ser apenas a quantidade de palavras entre uma obscenidade e uma citação de Deleuze.
Na hora do seminário, apareceu gente de todo lado. Professor de Matemática, técnico-administrativo, alunos das mais diversas Engenharias, o pessoal das humanidades, gente que nunca tinha entrado no auditório central da universidade, gente que entrou porque ouviu falar de “pó”, gente que veio porque ouviu falar de “putaria”, gente que gostou do tema “pederastia” e gente que confundiu “pederastia” com “pediatria”.
O conferencista, trazido a peso de outo de uma das mais renomadas universidades do país e pago com recursos do Instituto de Amparo à Pesquisa Apropriada e Inapropriada de Rio das Mortes (IAPAIRM), começou:
– O emoji-semente constitui uma semiose polissêmica atravessada pelas práticas sociais contemporâneas…
Na terceira frase, alguém gritou:
– Fala português, desgraça!
Houve aplausos.
O homem respirou fundo.
– A sementezinha pode querer dizer várias coisas.
Novo aplauso.
– Agora melhorou – disse uma senhora no fundo.
Foi então que um professor de Biologia pediu a palavra.
– Eu só gostaria de lembrar que uma semente é uma vida em potência.
Um professor de Filosofia aplaudiu, enquanto era observado pelo auditório inteiro.
– E daí?
– Daí que, dependendo da tensão, da resistência e da corrente, podemos calcular muita coisa – atalhou o professor Eunápio se metendo na discussão.
Um aluno levantou o braço.
– Inclusive o consumo de cocaína?
Eunápio olhou para o teto e gritou:
– Eu vou embora.
E foi.
A comissão, contudo, decidiu que a intervenção do aluno havia sido “pedagogicamente significativa” e registrou tudo em ata, que dizia ter sido o encontro promovido para gerar “reflexão crítica sobre as interfaces entre currículo, cultura digital, práticas sociais, corporeidades dissidentes e processos de significação”.
Quase ninguém entendeu, mas todos – a exceção de Eunápio, então ausente – assinaram o documento.
Na saída, Clemêncio Timóteo, professor de História encontrou o reitor no estacionamento e perguntou:
– E então?
– Foi ótimo – respondeu, com riso aparvalhado, o reitor.
– Será que deu para aprendermos alguma coisa?
O reitor, vá lá, pensou e falou baixinho.
– Não sei – disse olhou para o cartaz ainda pendurado na parede: Pó, putaria e pederastia.
Depois olhou para o prédio, para os corredores, para os laboratórios, para os alunos, para os professores e para aquela infinidade de documentos pedagógicos que prometiam transformar o mundo a cada semestre, e saiu andou lentamente em direção ao carro, vibrando como vibram os vibradores quanto estão pilhados, se é que me entendem.
No outro extremo do estacionamento, os professores Ed Samson e Eunápio Ganimedes conversavam descontraidamente.
– Uma coisa é certa – disse Eunápio rindo o riso dos sátiros.
– O quê? O que pode sair de bom disso? – ponderou intrigado Ed Samson.
– Finalmente temos um PPP raiz e que reflete o que nós somos: Pó, Putaria e Pederastia.
Enquanto dirigia o seu mais novo carro elétrico, o reitor pensava: “A UPRM demonstra ser vanguarda. É necessário produzir mais projetos e propostas semelhantes”.