O país da realidade atrasada
Assisti anteontem (terça-feira), à noite, alguns trechos do debate entre os senadoráveis por São Paulo e fiquei boquiaberto com uma intervenção de Marina Silva (já votei nela, para Presidente da República, por duas vezes, 2014 e 2018), indignada porque Guilherme Derrite fez uma pergunta que Simone Tebet não soube responder. Marina chamou Derrite de homem tóxico. Sinto-me meio Derrite quanto tenho de me deparar com um pelotão de pedagogas e/ou de burocratas da educação (escreverei sobre isso por esses dias) me acusando de fazer perguntas que os alunos não sabem responder.
Antes de prosseguir, uma observação: Marina (e as pedagogas e os burocratas da educação) não merecem resposta alguma. Se resposta houver, que seja o silêncio misericordioso.
A política parece, em alguns momentos, uma sala fechada, com as janelas abertas apenas para deixar entrar o vento da propaganda. Lá dentro, tudo permanece no lugar: os móveis, os discursos, os números, as promessas. Só o ar muda. E, quando muda demais, alguém costuma dizer que a culpa é do tempo. Em período eleitoral, meus três ou quatro leitores, a realidade adquire o estranho e curioso hábito de chegar atrasada. Primeiro vem o discurso. Em seguida, o anúncio. Logo depois, a explicação. Por fim, bem mais tarde, aparece aquilo que estava acontecendo enquanto todos falavam de outra coisa.

Imagem feita com auxílio de IA
Vou me ater às questões econômicas.
A economia é uma senhora pouco interessada em campanhas eleitorais e não costuma respeitar o roteiro dos marqueteiros. Se a produção diminui, ela diminui. Se o emprego encolhe, alguém percebe. Se os preços sobem, não há programa de televisão capaz de convencê-los a descer. Nesses momentos há uma tentativa de fazer da própria dificuldade uma questão de linguagem. A campanha busca falar do futuro como quem procura um lugar para esconder o presente. Os adversários são apresentados como ameaça ao que ainda não havia acontecido, enquanto os números começam a mostrar que aquilo que se temia para amanhã já dá sinais de existir hoje.
Uma das delicadezas da política é anunciar o desastre futuro quando o presente já está batendo à porta, aos tropeços. Mas há coisa ainda mais estranha e curiosa: a campanha considera uma grande vitória escapar de perguntas difíceis. Parece uma pequena alteração no sentido da palavra vitória. Antigamente, talvez fosse preciso responder. Agora basta não ser alcançado pela pergunta e a questão permanece no ar, como uma bola que jogador algum quis cabecear.
É possível que exista alguma sabedoria nisso. Perguntas difíceis são inconvenientes porque obrigam a pensar, e pensar, em certas épocas, pode ser uma atividade eleitoralmente arriscada. Uma resposta pode comprometer. O silêncio, não. O silêncio pode ser explicado depois. E assim se vai construindo uma espécie de país verbal, onde tudo parece funcionar melhor do que funciona. Há números favoráveis, virtudes abundantes, realizações para todos os lados. O problema é que, quando se abre a janela, o país lá fora parece outro – muito diferente daquele que é verbalizado.
A maior dificuldade da propaganda política é que ela pode modificar a paisagem durante alguns minutos, mas não consegue modificar o quintal. O trabalhador continua pagando a conta do supermercado, o empresário continua olhando para os números, o desempregado continua procurando trabalho, o trabalhador continua esperando que o salário chegue ao fim do mês sem precisar de explicações econômicas, os cidadãos continuam sendo assaltados na rua… e mentira política alguma, mesmo repetida inúmeras vezes, consegue mudar o mundo real. A mentira pode até correr o risco de adquirir uma estranha forma de sinceridade, mas já não se sabe se alguém está enganando os outros ou apenas tentando convencer a si mesmo. E esse é um momento delicado, porque um governo que perde a capacidade de distinguir a realidade do discurso pode continuar falando tranquilamente enquanto o país inteiro começa a fazer perguntas – algumas incômodas. Governar não é produzir uma versão agradável da realidade, mas enfrentar a realidade quando ela deixa de ser agradável.
Há uma coisa bonita e terrível nos números: eles não têm imaginação. Não sabem fazer campanha e não sabem sorrir para a câmera, quase sempre são antipáticos e quando chegam, silenciosamente, dizem que a produção caiu, que o crescimento não veio, que a conta aumentou. Em outras palavras: os números avisam a realidade. É possível, em discursos, negá-la. Mas um dia, embora às vezes demore, ela acaba batendo à porta e não costuma aceitar propaganda como pagamento.
Alguém pode tentar explicar – e talvez seja essa a pequena esperança de qualquer país – que, terminado o barulho das palavras, reste alguma disposição para ouvir aquilo que os números vinham dizendo baixinho.