O peso das asas
Acordo cedo todos os domingos, antes das 6 da matina, e neste não foi diferente. Trepado no nono andar, olho pela janela e vejo a cidade acordar devagar. Diviso uma mulher que varre a calçada em uma casa próxima e próximo a ele um passarinho que insiste em alguma migalha. Mais distante, uma senhora parece regar as plantas como se o Brasil ainda tivesse conserto.
É dia de eleição e para muita gente o Brasil vai no caminho certo. Uns e outros seguem um dos dois candidatos presidenciais, mas muito mais gente escolhe não os escolher.
Bate um estalo e penso: o poder em Brasília, a esta hora, talvez também já esteja acordado, fazendo contas. Provavelmente o poder nem durma e fique todo o tempo contando despesas, distribuindo cargos e inventando nomes para coisas que funcionariam muito bem sem nome algum. A educação, dizia um velho amigo de mesa de bar, devia ser como o voo de um passarinho: uma coisa simples, que exige asas, não uma repartição de aerodinâmica.
Penso nos Institutos Federais (IFs) espalhados pelo Brasil., pois lá sou professor porque me incomoda a dificuldade que colegas de instituição têm em perceber que as mudanças que ocorrem no mundo são velocíssimas e irão nos abalroar. Ficar parado ou reclamando de governo A ou B não resolve nada.
A ideia que anima a expansão dos IFs é, em tese, bonita: levar o conhecimento, a formação profissional e alguma esperança a lugares onde o futuro, às vezes, chega atrasado. Há professores, alunos, laboratórios, bibliotecas, oficinas… E há gente que acorda cedo, pega ônibus, atravessa a cidade ou até parte do estado e passa um turno (ou dois) tentando aprender alguma coisa que lhe permita viver melhor. Tudo isso é muito sério – e bonito. O que não consigo compreender é por qual motivo, em torno de uma atividade tão direta, constrói-se uma arquitetura burocrática tão extensa, tão complexa e tão intrincada. Até compreendo, mas…
O Estado tem vocação desmedida para complicar o que nasceu simples. Cria uma diretoria para resolver um problema, uma assessoria para acompanhar a diretoria, uma coordenação para articular as duas e um gabinete para garantir que ninguém trabalhe sem a devida supervisão. É tanta gente cuidando do funcionamento da máquina que sobra pouco tempo para perguntar o que ela faz e para onde está indo. O dinheiro, um troço que deveria comprar livros, equipamentos e materiais de laboratório, vai sendo consumido pela manutenção do edifício administrativo-burocrático, o qual, como certos animais, parece alimentar-se de si mesmo.
Não é possível ignorar que uma instituição pública precisa de organização, planejamento, administração e controle. Seria tolice sem tamanho imaginar uma rede nacional de ensino funcionando à base de improvisos e boas intenções. Há uma diferença, porém, entre organizar o trabalho e fazer do trabalho um pretexto para organizar cargos. A burocracia começa como instrumento e, quando percebemos, já se tornou finalidade. O formulário passa a ser mais importante que o resultado; a reunião, mais importante que a aula; o relatório, mais importante que o estudante que deveria justificar tudo aquilo. O professor, que atua para a atividade-fim, é engolido pela burocracia e se transforma, aos poucos, num agente burocrático encarregado de preencher formulários, planilhas, etc.
Uma empresa privada, submetida à obrigação de fechar as contas, costuma aprender depressa algumas lições que o orçamento público quase nunca ensina. Procura reduzir despesas, encurtar procedimentos e distinguir o necessário do dispensável. Ela não é uma instituição virtuosa por natureza, nem o lucro costuma ser um santo de altar, no entanto a necessidade de pagar as contas impõe perguntas incômodas: precisamos mesmo disso? Este setor produz algum resultado? Não seria possível fazer melhor com menos? Na administração pública, tais perguntas soam ofensivas, como se a simples existência de uma despesa constituísse prova de sua utilidade. E aí, meus três ou quatro leitores, o aluno da rede federal espera e espera… o laboratório funcionar, o equipamento chegar, o atendimento ser realizado, a internet não cair, o ar-condicionado não pifar, o mofo ser retirado das paredes das salas de aula. Talvez nem saiba que, em algum prédio distante, há uma sala acarpetada onde alguém acompanha um processo destinado a garantir que outro alguém acompanhe o processo anterior. Não tem culpa, afinal o aluno veio estudar e não decifrar o organograma da instituição na qual estuda.

Imagem feita com auxílio de IA
Seria bom que os responsáveis por gerir a educação se lembrassem disso de vez em quando.
Certamente existem cargos comissionados necessários, pessoas competentes e funções que exigem confiança e responsabilidade. Entretanto, faz parte das atribuições dos gestores examinar, sem cerimônia, as estruturas que dirigem – e reformá-las, se necessário. Um cargo não se justifica porque existe, assim como uma cadeira vazia não se torna indispensável pelo simples fato de ocupar espaço. A administração precisa demonstrar o que faz e entrega, quanto custa e se o mesmo trabalho poderia ser feito com menos gente, menos despesa, menos desperdício e menos solenidade.
Não sou nada na fila do pão da briosa rede federal de educação tecnológica, mas ouso dizer que é urgente avaliar os resultados dos projetos, reduzir a burocracia que não acrescenta valor ao ensino e rever, com coragem, os cargos comissionados desnecessários. Não se trata de fazer economia por economia, mas de devolver ao dinheiro público sua finalidade mais nobre. Ou nos antecipamos e fazemos isso, ou alguém de fora chegará com um pacote pronto para implementar.
O dia avança e devo me preparar para apertar a tecla dos meus candidatos preferidos. Olho uma vez mais pela janela e vejo que o passarinho continua catando coisas no chão. Dá dois pulos… e voa. Não precisou de reunião, de comissão, de parecer ou de autorização superior.
Provavelmente a educação não seja tão simples quanto o voo de um pássaro, mas desconfio de que também não precise de tanto peso. Afinal, para ensinar alguém a voar, convém começar por aliviar as asas.