A eleição do ódio

por Sérgio Trindade foi publicado em 04.out.26

O eleitor brasileiro estará daqui a instantes diante da urna eletrônica escolhendo os seus representantes num pleito em que, mais uma vez, ocorre uma coisa curiosa, só que desta vez de forma potencializada: quase todo mundo sabe contra quem vai votar e muitos não sabem muito bem a favor de quê. É um drama. Melancólico. E que assim corre: o brasileiro chega à urna com a alma carregada de certezas e o bolso cheio de dúvidas. De um lado, os lulistas; do outro, os bolsonaristas. No meio, aquela imensa faixa de brasileiros que gostaria apenas de viver, trabalhar, pagar menos impostos, poder andar nas ruas em paz, encontrar um médico quando adoecer e não precisar transformar o almoço de domingo em congresso ideológico.

No Brasil de hoje as pessoas discutem como quem briga em família. E briga em família é uma coisa particularmente brasileira: ninguém se lembra mais de como começou a discussão, mas todos sabem quem é o canalha.

As pesquisas desta reta final mostram a dimensão do fenômeno. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem com índices de rejeição muito próximos (em torno de 45%), e o cenário de segundo turno permanece tecnicamente empatado. Não é pouca coisa. Significa que uma parcela enorme do eleitorado não está necessariamente apaixonada pelo candidato que pretende escolher e sim pela ideia de impedir que o outro vença. Isso me lembra Nelson Rodrigues, embora não seja preciso convocá-lo para explicar o óbvio: o brasileiro não precisa de muita razão para transformar uma eleição em tragédia grega. Basta um inimigo.

O lulista olha para o bolsonarista e vê a ameaça da barbárie. O bolsonarista olha para o lulista e enxerga o espectro do comunismo. Cada lado possui seu apocalipse particular, e ambos acordam diariamente convencidos de que o adversário está a poucas horas de destruir a pátria, uma equação cuja resultado é uma curiosa inversão da política. Primeiro escolhe-se o inimigo para, em seguida, buscar uma justificativa.

O programa de governo, que deveria ser o começo da conversa, é só uma decoração eleitoral. Existem propostas registradas oficialmente no Tribunal Superior Eleitoral, tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro. Mas a disputa pública é frequentemente dominada por identidade, memória, medo, ressentimento e rejeição, como se a eleição tivesse deixado de ser o lugar para perguntar: “Que Brasil você quer?”, para perguntar: “Quem você odeia mais?”, o que nos leva à parte mais melancólica, a saber, o ódio político tem uma vantagem extraordinária sobre a esperança, por um motivo simples: ele é muito mais fácil de mobilizar. Para prometer um futuro é preciso explicar. Para fabricar um inimigo basta apontar o dedo.

Imagem feita com auxílio de IA

O lulista não precisa convencer ninguém de que Lula é o melhor presidente possível. Basta dizer que Flávio Bolsonaro é uma catástrofe. O bolsonarista não precisa demonstrar que seu candidato resolverá os problemas nacionais. Basta recordar tudo aquilo que ele considera intolerável no PT. E assim os dois campos podem sair vencedores sem jamais terem convencido os eleitores de qualquer coisa relacionada ao governo que farão.

Eis o retrato mais triste da política brasileira de 2026: não estamos diante de duas multidões apaixonadas por dois grandes projetos nacionais e sim de de duas multidões que aprenderam a transformar a aversão ao outro em identidade.

É o saldo desta campanha eleitoral nefasta e nefanda.

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