Brasil: o velho teatro, a república em liquidação e a fantasmagoria política
Acabou a eleição e agora começa um espetáculo fantasmagórico, o qual demonstra que o Brasil é um país novo vem envelhece mal, sem muita dignidade, tal e qual a sua capital, uma cidade novíssima e que, ao que parece, resolveu envelhecer como certos políticos: acumulando rugas, dívidas, malfeitos e explicações. A poeira que baixa sobre a Esplanada dos Ministérios já não tem aquele ar de modernidade que os arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer imaginaram. Tem cheiro de repartição antiga, promessa vencida, negociatas ou, no mínimo, negócios mal explicados. Nos corredores de mármore, os personagens continuam representando seus papéis, embora grande parte do público desconfie de que a peça está em cartaz há tempo demais e de que ninguém se lembrou de trocar o elenco.
O governo, por exemplo, parece ter descoberto uma curiosa modalidade de contabilidade: aquela em que a despesa é uma realidade, mas a receita é uma questão de fé. O cofre público não se deixa convencer por discursos, entrevistas ou pronunciamentos presidenciais. É inconveniente e exige números, e os números, sujeitos sem nenhuma educação política, insistem em não colaborar com o otimismo oficial.
A armadilha fiscal foi sendo montada pelo próprio governo, peça por peça, como quem constrói uma ratoeira e depois se espanta ao encontrar o rato dentro dela. Os gastos crescem, as contas apertam e a máquina pública vai sendo repartida em nacos para satisfazer os apetites de uma governabilidade que, no Brasil, costuma custar mais caro do que o próprio governo. Pedaços a oferecer surgem do nada. Há sempre um cargo a entregar, uma emenda a liberar e um aliado a convencer. Governar tornou-se uma espécie de feira permanente, na qual a mercadoria mais disputada é a sobrevivência política.
Bem, meus três ou quatro leitores, o mercado não fecha aos domingos, e a conta chega todos os dias.
Do outro lado da praça, o Supremo Tribunal Federal também anda às voltas com seus próprios embaraços e seus apetites insaciáveis. Por anos, seus ministros puderam contar com uma autoridade que dispensava maiores apresentações. Pronunciava-se a palavra Supremo e muita gente se levantava respeitosamente. Hoje, a instituição se vê obrigada a conviver com controvérsias sucessivas, questionamentos sobre seus limites, corrupção empurrada para debaixo do tapete e uma discussão pública que já não se restringe aos círculos jurídicos. O que antes era assunto de constitucionalistas agora frequenta mesas de bar, redes sociais, grupos de WhatsApp e de Telegram e conversas de elevador. Não é propriamente uma promoção institucional.
O Congresso, aquela casa de dois palitos, um prédio no meio e duas bacias nas laterais, conserva aquela habilidade secular de transformar qualquer crise em oportunidade de negociação e de negociatas. Seus integrantes conhecem como poucos a arte de descobrir vantagens particulares em meio às dificuldades nacionais. Quando Executivo e Legislativo se encontram, quase sempre há alguma coisa a distribuir. O interesse público, coitado, fica esperando do lado de fora, sem senha e sem atendimento preferencial.
É assim que funciona a República brasileira, democrática e demagógica, espremida entre um governo que precisa fazer contas, um Congresso que precisa fazer acordos e acordões e uma STF que precisa lidar com o desgaste de sua própria autoridade. Não falta gente importante em Brasília. Falta, isso sim, quem consiga explicar por que tanta gente importante não consegue resolver os problemas mais comezinhos do país.
A esquerda tupiniquim não parece viver seus melhores dias. Continua agarrada a um patrimônio político construído em outras circunstâncias, como proprietário de um imóvel antigo que insiste em cobrar aluguel de uma cidade que já mudou de endereço. As glórias passadas ainda rendem discursos, fotografias, festejos e comemorações, mas o presente tem a desagradável mania de cobrar resultados. O passado pode ser um excelente cabo eleitoral, mas não paga a conta de luz, não melhora a produtividade e não resolve os problemas de quem espera atendimento num hospital. A oposição direitista, porém, não descobriu ainda que gritar não é o mesmo que governar. Uma parte dela permanece ocupada com fantasmas eleitorais, denúncias de fraudes imaginárias e a velha disposição para transformar qualquer discordância em conspiração. Outra parte procura descobrir como se livrar da dependência de um personagem que, mesmo ausente, continua ocupando espaço demais na sala. Entre o berro e a saudade, falta encontrar uma linguagem capaz de conversar com o país real. E o país real, não custa lembrar, não mora na Esplanada dos Ministérios, e nem mesmo em Brasília
Enquanto os políticos disputam o protagonismo nas redes sociais e os ministros administram suas controvérsias, há gente trabalhando, produzindo, empreendendo e tentando construir alguma coisa longe dos holofotes. No interior produtivo, nos novos centros urbanos e nos polos tecnológicos, uma parcela da sociedade parece menos interessada nas grandes encenações ideológicas. Quer eficiência, responsabilidade, produtividade e serviços públicos que funcionem. Não está necessariamente à procura de salvadores da pátria. Talvez queira apenas representantes que não confundam fiscalização com sabotagem, oposição com gritaria, governabilidade com distribuição de benesses.
É uma expectativa razoável, embora Brasília costume tratar expectativas razoáveis como inconveniências administrativas.
O Brasil atravessa um período de desgaste que não cabe na disputa entre lulistas e bolsonaristas e nem se resolve com a substituição de um personagem por outro. O problema é mais antigo e mais profundo: instituições que precisam recuperar a confiança, governos que precisam aprender a conviver com limites e uma representação política que parece ter esquecido a diferença entre servir ao público e servir-se dele. Logo, a questão não é apenas resolver quem ocupará o próximo palanque, quem vencerá a próxima eleição ou qual grupo conseguirá distribuir melhor os cargos públicos, mas saber se aparecerá alguém disposto a falar menos em salvação nacional e mais em responsabilidade, menos em inimigos e mais em soluções.

Imagem feita com auxílio de IA
Por ora, Brasília continua representando e o governo faz de conta que as contas estão sob controle, o Congresso faz de conta que negocia em nome da governabilidade, os tribunais tentam administrar suas controvérsias e a oposição procura um discurso que não dependa exclusivamente da indignação. Enquanto isso, a plateia começa a olhar o relógio e aguardo o deprimente espetáculo acabar. Entretanto, há uma notícia bem desagradável para os artistas do poder: quando o público perde a paciência, nem sempre espera o último ato para abandonar o teatro. Ele pode simplesmente sair pela porta dos fundos e deixar os atores falando sozinhos, diante de um cenário que, de tão gasto, parece prestes a desabar. Já tem cada vez mais gente fazendo isso.