O Tótem, a Víbora e o Banquete das Rãs
O homem que vestia terno desalinhado e hoje anda no prumo e tem voz de lixa subirá uma vez mais os degraus do Palácio do Planalto. Subirá como quem volta para casa depois de um longo e tempestuoso exílio, olhando a Praça dos Três Poderes com aquele ar devorador de quem se considera imortal. Tornou-se o único brasileiro eleito quatro vezes Presidente da República pelo voto direto. O retirante nordestino que liderou greves, ergueu uma máquina partidária, conheceu, por duas vezes, o pó da cela e chegou ao ápice do poder é, goste-se ou não, uma força vigorosa da história deste país. E reside exatamente aí o seu maior perigo: a tentação de se julgar um Tótem, uma divindade de gesso e bronze, intocável, posto num altar acima das tempestades terrenas, do qual se exige adoração e ao qual não cabem questionamentos.
Ocorre que a política brasileira não é templo de adoração. É um açougue, e no açougue de Brasília, a carne do Tótem já começa a ser fatiada antes mesmo do banquete abrir. Sim, meus três ou quatro leitores, o senhor da voz rouca venceu, é verdade, mas venceu num sobressalto. Não porque o país tenha se ajoelhado em transe diante da mitologia que se ergueu no seu partido, venceu por seus mérito e, também, porque o fantasma do seu opositor causava ainda mais calafrios em metade substancial do eleitorado. Um contingente substancial de brasileiros votou nele tapando o nariz, movido não pelo amor à estrela vermelha, mas pela mais pura e simples ojeriza à alternativa – não foi diferente com parcela significativa daqueles que optaram pelo 22 na urna.
Foi a vitória do desgosto contra o pavor.
Se o novo ocupante do Planalto pensa que recebeu uma procuração para o delírio solipsista, o desengano virá a galope.
Observei, nos últimos dez meses, com muita atenção em torno dos espaços que frequentei, varei todo o Rio Grande do Norte por cinco vezes fazendo pesquisa de opinião e duas vezes fazendo pesquisa de campo para um trabalho acadêmico, fui três vezes a Pernambuco e uma a Paraíba e o vi foi um cenário meio caótico disfarçado sob o brilho dos candelabros. Vi o mesmo em Minas Gerais, no início do ano. O país está partido ao meio, como uma tábua rachada ao golpe de um machado cego. A outra metade, a que perdeu, não está disposta a conceder um minuto sequer de trégua, o Congresso Nacional que se ergue à sua frente não é um auditório dócil de militantes, mas uma arena hostil (creio que parte da direita será cooptada pelo governo, mas haverá parcela grande e aguerrida do Congresso que se manterá como oposicionista).
Para ter a ilusão de que governa, o velho líder terá que negociar e, talvez, entregar as chaves do cofre à turma do Centrão. Será, do primeiro ao último dia, um refém com faixa transversal ao peito. Terá de erguer as mãos aos céus se conseguir ao menos terminar os quatro anos sem que tentem lhe puxar o tapete.
Enquanto isso, nos porões da economia, o caruncho trabalha em silêncio. A conta dos gastos sem freios chegará e não haverá mágica retórica que tape o rombo. O déficit fiscal ameaçará devorar as finanças, a inflação espreitará nas prateleiras dos supermercados com suas garras afiadas e os juros continuarão subindo como um torniquete no pescoço do produtor. O câmbio oscilará ao sabor dos humores dos mercados e a atividade econômica dará sinais claros de fadiga, caminhando a passos lentos rumo à desaceleração. Para conter essa sangria, o remédio será amargo, e amargura é a última coisa que um povo esgotado quer engolir.
Os soberanos de Brasília têm o gosto de gastar sem que houvesse amanhã. O atual e o seu partido olham no espelho e enxergam a saga heroica do retirante vitorioso, mas o espelho da realidade não tem piedade dos deuses, exceto aqueles que são feitos de matéria firme. O cenário que o espera não tem nada de apoteose. Carrega a cara dura e cinzenta das contas a pagar, dos prazos vencidos e da negociação, às vezes, sórdida nos bastidores. Não escrevo sórdida para menoscabar a atividade política, mas para dizer que nela a moral que vale é outra.

Imagem feta com auxílio de IA
A despeito dos sonhos de glória e das miragens confessionais, o contorno do novo mandato de Lula será desenhado com a tinta crua dos fatos. O Brasil sairá dessa empreitada lanhado, ferido nas suas certezas e arranhado em suas finanças, mas sobreviverá, por um motivo relativamente simples: sempre sobreviveu aos seus salvadores.
Para mim a questão hoje é a seguinte: quanto do Tótem restará de pé quando o vento frio e cortante da realidade soprar forte?
Não ouso responder por dois motivos: 1) O Brasil é um país muito complexo e, como disse certa vez Tom Jobim, não é para amadores; 2) A política é, como expôs Tancredo Neves ou Magalhães Pinto (já li e ouvi a frase atribuída a ambos), como as nuvens – você olha num momento e elas estão de um jeito, você olha depois e elas estão de outro jeito.