Brasil, o grande curral
Antigamente, a política entrava no convívio público no gogó, no sopro inflamado das cornetas da UDN e sua banda de música, na lábia das raposas do PSD ou na postura mercurial trabalhismo brizolista reunindo a massa nos comícios de praça. Hoje, a paixão não habita mais a voz humana. Ela pisca em telas retangulares de cinco polegadas, iluminando rostos pálidos e cabisbaixos alinhados nos bancos.
Nunca fui de pôr adesivo em roupa ou em carro, de receber santinho ou de colar cartaz de político em minha casa. A maior transgressão nesta área foi, em 1990, receber dez litros de combustível da pré-campanha de José Agripino para participar de uma carreata para a qual não fui. Uma pessoa que me foi próxima passou uns dez ou mais anos me maldizendo por isso. Tentei justificar uma, duas vezes. Da terceira em diante, calei-me, porque não devemos perder tempo com quem tem alguns sentidos treinados para sentir apenas o que deseja.
O Brasil já foi curral de coronéis tradicionais, aqueles que tinham na terra a principal fonte de poder. E já foi curral de coronéis midiáticos, aqueles que tinham nos meios de comunicação fonte e instrumento de poder.
Hoje o Brasil é curral de gente que lida esperta e eficientemente com os mecanismos da comunicação digital. Daí vêm os exércitos de Nikolas e de André Janones. Conduzidos pelos dois (e por outros mais) um exército de zumbis digitais cumprindo ordens, sem franzir o cenho. É gado de Janones, é o gado de Nikolas.
Observo, cá do meu cantinho e não posso deixar de sentir aquele azedo na boca que os clássicos chamavam de indignação. O Brasil, um vasto e bagunçado império de ilusões republicanas, virou um imenso curral digital. Trocou-se o coronelismo de xique-xique e do voto cabrestado de Campos Sales e companhia da República Velha por uma versão muito mais reluzente e assustadora: o coronelismo dos algoritmos.
De um lado da trincheira invisível, surge o gado reluzente e bem-penteado de Nikolas Ferreira, deputado federal campeão de votos em Minas Gerais e general da tropa digital da campanha de Flávio Bolsonaro, que consegue transformar uma pregação política em corte de trinta segundos. Do outro lado da arena, marcha com a mesma disciplina cega o exército comandado por André Janones, baluarte da comunicação digital do presidente Lula, candidato à reeleição. Cabe a Janones manter a militância de Lula em perpétuo transe heroico.
Os dois são os novos mestres do rebanho, os encarregados de pôr capim e sorgo no curral de seus respectivos gados.

Imagem feita com auxílio de IA
O que impressiona no tique-taque desse espetáculo triste não é a astúcia dos condutores, mas a docilidade irrepreensível dos conduzidos. Marcham os exércitos digitais vestindo roupas, engolindo ordens de engajamento, compartilhando ultrajes fabricados, repetindo bordões pré-mastigados como autômatos de um folhetim de ficção científica barato. Sem franzir o cenho. É o gado de Janones contra o gado de Nikolas, pelejando uma guerra de sombras na qual ninguém pensa, mas todos curtem, comentam e compartilham.
Na televisão, no rádio ou nas páginas dos jornais, locais onde outrora Floriano Peixoto, Campos Sales, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique e o Lula do Antigo Testamento mediam o pulso da nação, o debate virou uma formalidade ultrapassada. Dizem que o próprio Lula já não perde o seu precioso tempo preparando-se para sabatinas e entrevistas da imprensa tradicional. Para quê gastar saliva e raciocínio se o jogo decisivo não busca mais a persuasão pela ideia, mas o efeito manada deflagrado no feed? Ainda é importante atiçar a militância de rua, mas mais importantes ainda é atiçar as matilhas virtuais para que rosnem no momento exato.
Olho para algumas das pessoas com quem convivi e outras com as quais convivo e constato que elas não olham para a paisagem e para o mundo real, não olham para quem entra no bar ou no restaurante. Todas ou quase todas mantém os polegares ou indicadores deslizando freneticamente pela tela, alimentando a própria raiva com a ração diária que seu pregador digital lhe atirou. Lembro-me dos velhos cabos eleitorais que trocavam votos por um par de sapatos ou um saco de farinha ou milheiro de tijolos ou alguns sacos de cimento. Havia ali, ao menos, uma necessidade concreta, uma miséria palpável. A miséria de hoje é d’alma: troca-se a capacidade de raciocinar pelo pertencimento a uma tribo de zumbis reluzentes.
Não vou recorrer a qualquer teoria liberal para fazer a crítica, porque o que há neste teatro – diriam Adorno e Horkheimer, dois do papas da Escola de Frankfurt – é a apoteose da indústria cultural, porquanto a técnica não libertar a consciência e ainda garantir a liquidação da própria capacidade de julgar. O sujeito que se deixa dominar dobrando a coluna vertebral imagina-se um agente político ativo porque clica, compartilha e vocifera nos comentários, sem perceber que é apenas o produto final de uma engrenagem que vende o seu próprio afeto em formato de métrica. É a reificação absoluta do espírito; a razão instrumental converte a indignação humana em ração processada para os algoritmos. Segundo os filósofos, a indústria cultural “corrobora a submissão dos homens aos poderes sociais… A individuação cede lugar à reificação: o indivíduo transforma-se em uma mônada pronta para o consumo, que reage mecanicamente a estímulos previamente planejados. (…) O preço de mercado da dignidade humana cai vertiginosamente. Sob o capitalismo avançado, a própria essência do homem se reifica. As pessoas passam a se enxergar mutuamente e a si mesmas apenas através do valor de troca, como peças de uma engrenagem que as supera.” Seguindo com os dois pés na Escola de Frankfurt, vou me socorrer com o companheiro Marcuse: “As pessoas se reconhecem em suas mercadorias; encontram sua alma em seu automóvel, no aparelho de alta fidelidade, na casa em níveis, no equipamento de cozinha. O próprio mecanismo que une o indivíduo à sua sociedade mudou, e o controle social está enraizado nas novas necessidades que produziu.” O que se observa no fenômeno da midiatização em rede da política é a produção do homem unidimensional perfeito, aquele cuja capacidade crítica foi anestesiada pela ilusão de pertencimento a uma causa que não é dele, mas de quem detém as chaves do aplicativo. O militante convertido em gado digital obedece e, mais do que obedecer, celebra a própria servidão voluntária, acreditando firmemente que o ato mecânico de tocar uma tela iluminada equivale ao exercício sagrado da liberdade.
A República brasileira sempre foi pródiga em produzir ilusões e salvadores da pátria, desde a espada de Deodoro até as promessas de progresso feitas por Lula, passando pela vassoura de Jânio Quadros e o combate aos marajás decretado por Fernando Collor. Mas nunca fomos tão eficientemente arregimentados. O país transformou-se em um imenso pátio de manobra onde a inteligência foi exilada e o fanatismo virou virtude cívica.
O sinal sonoro avisa a chegada do aviso. Todos se ajustam e sentam o dedo para replicar o que não sabem o que é. A multidão aluada desembarca em qualquer estação sem erguer os olhos da luz dos telefones.
Paulo Freire, aquele homem de aparência profética e incensado nos bancos das universidades, muito citado e pouco lido, enxergaria em tudo isso a negação drástica do que nos faz humanos. Sim, meus três ou quatro leitores, o patrono da educação brasileira, essa que segue formando gente que não sabe ler, escrever e fazer contas, diria que não há no que está sendo feito práxis ou diálogo e sim educação bancária levada ao paroxismo digital, dado que os novos coronéis depositam a raiva em mentes passivas, e o sujeito, privado de sua própria voz, converte-se em mero espectador da própria história. Essas pessoas deixam de ser seres da práxis, capazes de transformar o mundo pela palavra consciente, para se tornar joguete de uma consciência ingênua e fanatizada, conferindo a outros o direito de pensar por ela. Repetindo: isso é Paulo Freire. Aquele mesmo.
Para suportar o espetáculo dessa pátria convertida em pasto de robôs e iluminados digitais, só mesmo o velamento dos próprios pensamentos, já que a realidade, ao contrário das redes sociais, ainda insiste em cobrar a sua conta.