A declaração de voto de quem só manda no próprio voto

por Sérgio Trindade foi publicado em 23.out.26

Desde que terminou o primeiro turno das eleições deste ano, venho provocando bolsonaristas e, sobretudo, lulistas. Quando algum deles se aproxima com aquela disposição missionária e messiânica de quem acredita ter recebido a incumbência divina de salvar meu voto, digo que não me encha o saco, não me provoque, trate-me bem, chaleire-me. Há os que riem, porque conhecem meu gosto pela troça, e há os que se irritam, como se eu tivesse cometido uma heresia. Aos primeiros, minhas loas; aos segundos, meu silêncio misericordioso. A vida já tem sofrimento demais, e não me parece razoável acrescentar-lhes a obrigação de convencer um eleitor empedernido a apertar determinado número numa urna eletrônica.

Imagem feita com auxílio de IA

Ontem, 22 de outubro (quinta-feira), posei pela segunda vez para uma fotografia ao lado de Hugo Manso, figura histórica do Partido dos Trabalhadores. Gosto de Hugo. É um sujeito leve, descontraído, bom colega, desses que não parecem carregar nos ombros o peso de todas as contradições do mundo. Pouco depois, conversei com o professor Jonas Lemos, diretor-geral do campus Natal Central do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), assunto ao qual voltarei. Jonas também é boa pessoa, educado, cordato e, na minha opinião, um dos poucos gestores no IFRN que ainda entendem o serviço público como serviço público. À noite, fui ao condomínio onde morei e passei duas horas, das 20 às 22, conversando com Flávio, Júlio, Jefferson e outros amigos. Hugo e Jonas votarão em Lula e Cadu; Flávio, Júlio e Jefferson votarão em Flávio Bolsonaro. E daí? Não deixei de gostar de nenhum deles por causa disso, nem pretendo fazê-lo.

Hoje cedo, uma ex-aluna do IFRN, atualmente competente médica e eleitora de Lula, viu a fotografia em que Hugo tentava me convencer a votar em Lula e em Cadu, enquanto eu ria na sala dos professores do campus Natal Central. Comentou: “E você só rindo da tentativa…”. Respondi que Hugo é um bom colega e que sempre repito a mesma coisa: não sou inimigo de quem pensa diferente de mim; afasto-me apenas de gente intolerante e desleal. Talvez seja pouco, nos dias de hoje, pedir tão somente que as pessoas não confundam divergência com inimizade. Mas há épocas em que até o óbvio precisa ser dito e defendido.

Voltemos à conversa com Jonas. Contei-lhe por que me afastei definitivamente do PT, partido em que votei sem ressalvas de 1988 a 2002 e com algumas reservas entre 2006 e 2012. Em 2013, anunciei que não votaria mais na legenda. Foi o bastante para que alguns colegas do IFRN começassem a me apontar o dedo. Entre 2014 e 2018, eu era coxinha; em 2018, já havia sido promovido a fascista. Em 2020, “descobriram”, por investigação profunda de um pesquisador de escol, que eu seria um dos artífices ocultos de um golpe institucional. Tudo isso partia de gente ligada às antigas e às novas camarilhas dirigentes da instituição. Se aqueles que, para explicar suas pequenas disputas – invoco um teórico da patota –, são capazes de atropelar, aberta ou discretamente, quem consideram um corpo estranho, imagine-se o que fazem os donos do macropoder. Uns e outros costumam arrotar virtude, uma curiosa especialidade. Não observam que quanto mais proclamam a própria superioridade moral, mais estrago causam à vida alheia.

Não sou virtuoso. Talvez eu seja um canalha. Um cafajeste, mesmo. Por isso, evito apertar a tecla 13. Como não acredito em salvadores da pátria, também evito a 22. Espero, certamente de forma ingênua, que apareça um homem sem virtudes desmedidas, sem poderes sobrenaturais e sem a pretensão de encarnar sozinho o destino nacional, alguém capaz de conduzir humanamente o Brasil sobre os escombros deixados por populistas irrefreáveis e irresponsáveis. A esperança, como certas plantas sertanejas, insiste em nascer mesmo quando o chão e o clima parecem ter desistido de colaborar. Por ora, prefiro não entregar meu voto a quem exige que eu o acompanhe sob ameaça de me transformar em inimigo.

Foi essa a mensagem que transmiti a Jonas: não voto em quem aponta o dedo para dissidentes e adversários e os chama de fascistas e de nazistas. É uma prática antiga do PT, como a história demonstra, embora a memória partidária tenha o hábito de guardar certas coisas numa gaveta cm fundo falso e jogar a chave fora. Em outubro de 2014, em Recife, Lula subiu ao palanque ao lado de Dilma Rousseff e comparou dirigentes tucanos e Aécio Neves aos nazistas e a Herodes. Segundo noticiaram O Globo (https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/noticia/2014/10/entidade-judaica-critica-declaracao-em-que-lula-compara-psdb-nazistas.html) e outros veículos de comunicação (Folha de São Paulo e Estadão), afirmou que petistas e nordestinos eram agredidos pela oposição “como os nazistas agrediam no tempo da Segunda Guerra Mundial”. A campanha chegava ao fim, a disputa era feroz e, aparentemente, não bastava vencer o adversário, era preciso alojá-lo também entre os monstros da história.

A frase não caiu do céu. Em outubro de 2006, Tarso Genro, então ministro de Lula, respondera a críticas de Fernando Henrique Cardoso dizendo que, de técnicas nazistas e fascistas, os tucanos é que entendiam. Em novembro de 2009 (https://m.folha.uol.com.br/poder/2009/11/649311-psdb-reage-a-comparacao-feita-por-lula-sobre-hitler.shtml), Lula voltou a recorrer a comparações envolvendo Adolf Hitler ao criticar iniciativas de lideranças do PSDB, provocando reações, entre elas a do senador Álvaro Dias (https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2009/11/09/alvaro-dias-critica-lula-por-comparar-tucanos-aos-nazistas). Os tucanos, por sua vez, também acusaram o PT e seus marqueteiros de utilizar métodos de propaganda associados a regimes autoritários. A troca de acusações mostra que a tentação de transformar o adversário em inimigo da humanidade não pertence a uma única legenda. O que muda é o lado do palanque de onde parte a condenação e o ouvido que se dispõe a escutá-la.

Para quem acredita (ou não lembra) que a disputa entre petistas e tucanos não era exatamente civilizada, segue uma newsletter do Diretório do PT em 2010 (extraí a informação do perfil de Soninha Francine no X (Twitter):

“A candidatura Serra assumiu de vez e irreversivelmente a feição de uma direita anacrônica, reacionária e intolerante. Cada vez mais, atrai o que há de pior na política nacional: fundamentalistas religiosos, membros da TFP e da Opus Dei e até mesmo nos ataques do submundo da internet indivíduos que pertenceram à juventude nazista e aos órgãos de repressão da ditadura. Virou uma espécie de Tea Party tupiniquim, uma UDN paulista, que julga ser sua missão salvar o país daqueles que vêm mudando a injusta ordem política e social do Brasil. É uma candidatura que exala o ressentimento de uma velha elite que vê alarmada a ascensão de novas forças sociais, que perdeu o poder e tenta reconquistá-lo a qualquer custo. A candidatura Serra é a candidatura do ódio.

Não adianta apelar para a biografia da juventude do candidato. Uma candidatura é uma construção coletiva. O que interessa é o quê e quem ela representa. E a candidatura Serra representa os interesses dos setores mais conservadores e reacionários do espectro político brasileiro, bem como de parcelas antigas da classe média que não absorveram bem a ascensão de milhões de pobres ao mercado de consumo e à cidadania. (…)”

Existem palavras que deveriam ser usadas com o cuidado que se tem ao tocar uma ferida. Nazismo e fascismo não são simples xingamentos, mas conceitos históricos ligados a regimes, ideologias e práticas de perseguição que produziram tragédias imensas. Na propaganda eleitoral, entretanto, a história costuma ser dispensada de se explicar. O adversário intolerante vira nazista; o conservador vira fascista; o discordante passa a ameaçar a civilização. A palavra deixa de esclarecer e passa a ferir e quando ele passa a servir para tudo, ela já não serve muito bem para coisa alguma.

Não devemos fechar os olhos ao autoritarismo. Governantes e partidos precisam ser julgados por seus atos, suas propostas, seu respeito às instituições e às liberdades públicas. Uma denúncia não é falsa apenas porque vem de um adversário, assim como não se torna verdadeira porque agrada ao nosso grupo. O problema começa quando o rótulo substitui a investigação e a condenação moral dispensa o exame dos fatos. A democracia precisa de oposição firme, crítica severa e vigilância permanente e precisa, também, de palavras que conservem seu significado. A memória seletiva, porém, tem prestado bons serviços à política. Cada partido arruma o passado como quem prepara a casa para uma visita: põe os melhores retratos na parede, esconde as fotografias inconvenientes e, se alguém pergunta por elas, finge não saber do que se trata. Mas há jornais, arquivos parlamentares e registros públicos. Recordar que dirigentes petistas compararam tucanos a nazistas não absolve o PSDB, não minimiza eventuais acusações contra a direita e tampouco torna equivalentes todas as condutas políticas. Significa apenas reconhecer que ninguém possui o monopólio da virtude democrática.

Partidos que dizem defender a democracia recorrem, em momentos de disputa, a uma linguagem que transforma adversários em inimigos irreconciliáveis. Quando o nazismo vira instrumento banal de campanha, a tragédia histórica perde precisão na boca dos vivos, e os mortos acabam convocados para um comício do qual jamais poderiam ter participado. Os slogans ficam, os aplausos passam e a intolerância continua morando entre nós, e nos maltratando e dividindo. Quando isso ocorre numa instituição educacional, então, é o fim. Por isso, continuo dizendo aos que me procuram para salvar meu voto: não me encham o saco, não me provoquem, tratem-me bem, chaleirem-me. Não é uma teoria política, muito menos um programa de governo e sim uma singela proposta de convivência, talvez insuficiente para salvar o Brasil, mas bastante útil para preservar uma amizade ou uma convivência harmônica.

Quero continuar conversando com Hugo, Jonas, Flávio, Júlio e Jefferson, ainda que cada um escolha um número diferente na urna, porque prefiro amigos e colegas que votem contra mim a correligionários que me odeiem por pensar diferente.

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