O adversário que vem a calhar
Venho pensando sobre o assunto há uns meses e hoje pela manhã, conversando com alguns colegas, a ideia foi sendo melhor delineada. Sentei e escrevi numa penada só.
Pequeno, com 10 para 11 de idade, fui a um comício com meu pai na praça Gentil Ferreira e, na volta para casa, papai ia me falando sobre os políticos do velho MDB, aquele que cabia num Fusca, e, já bem perto de casa (morávamos na subida da avenida Rio Branco), ele sapecou:
– A política é uma atividade curiosa e a política brasileira é ainda mais curiosa. Às vezes um homem trabalha para ganhar uma eleição e, no fundo, sabe que outra eleição lhe interessa mais. É o caso do MDB de hoje (o ano era 1978): o candidato é Radir Pereira, mas parte do partido faz campanha para Jessé Freire.
Nunca esqueci a lição e, ali, tive a noção abdicar de uma vitória hoje, apoiando um adversário ou não trabalhando para um aliado, não é necessariamente uma traição. É mais simples e mais complicado do que isso. O político olha para a esquina seguinte, enquanto o eleitor olha para a urna. Um quer ganhar o domingo; o outro já está pensando na quarta-feira.
Juscelino Kubitschek, que chegou à Presidência com aquele sorriso que parecia ter sido desenhado para tranquilizar fotografias de inauguração, tinha esse jeito de olhar para a esquina seguinte. Médico de formação, político de vocação e mineiro de método, fizera carreira pelas mãos de Benedito Valadares, um daqueles personagens que a República produziu com extraordinária competência e pouca necessidade de explicação. Mais tarde, JK seria transformado pela memória nacional no homem que abriu estradas, levantou Brasília, trouxe multinacionais e fez o Brasil acreditar que cinquenta anos podiam caber em cinco.
Havia – e JK nunca disse – o Brasil que crescia e havia o Brasil que pagava a conta.
Antes mesmo de chegar ao Palácio Catete, sede do governo federal, Juscelino devia parte de sua ascensão à engenharia política de Getúlio Vargas. Em 1954, quando a sucessão presidencial começava a tomar forma no meio da crise que terminaria tragicamente com o suicídio de Vargas, o governador de Minas Gerais foi sendo empurrado para o centro da cena nacional, trazendo até o Maranhão para a cena.
O paraibano Assis Chateaubriand, dono de um império das comunicações, queria uma cadeira no Senado. Não havia vaga. Vitorino Freire, oligarca e dono do Maranhão antes de José Sarney aparecer no cenário estadual, resolveu o problema à maneira daquele tempo, fazendo com que uma renúncia abrisse espaço para uma nova eleição. Tancredo Neves foi enviado por Vargas para conversar com o governador Eugênio Barros. JK também foi ao Maranhão e ofereceu-lhe o Ministério da Agricultura. Chateaubriand conseguiu a cadeira. Posteriormente, conseguiu também a embaixada em Londres.
A República era moderna. As práticas, nem sempre.
Pois bem, JK chegou ao Catete, e começou a construir a imagem de homem do futuro. Brasília seria a grande metáfora. Uma cidade levantada no cerrado, longe da antiga capital, como se o país pudesse mudar de destino simplesmente mudando de endereço. A promessa feita quase de improviso a um eleitor no interior de Goiás, virou obra monumental. As máquinas trabalharam dia e noite. As empreiteiras também.
Desenvolvimento era palavras de ordem. Cresceram o país, a dívida, a inflação e a corrupção. A conta ia se tornando salgada.
A política econômica de JK produziu crescimento acelerado, mas também deixou problemas que pesariam na sucessão de 1960. A política fiscal, a expansão monetária e o financiamento do programa desenvolvimentista alimentaram pressões inflacionárias. Havia um peso crescente dos déficits e do financiamento monetário sobre a inflação. E então apareceu Jânio Quadros, uma figura estranha até para a política brasileira, que nunca foi exatamente um concurso de normalidade. Vinha com a vassoura, o olho e a fala tortos, o teatro moralista e uma capacidade extraordinária de parecer diferente de todos os outros, justamente enquanto fazia política como todos os outros. Do outro lado estava o marechal Henrique Lott, candidato do PSD de JK, com João Goulart na vice.
Aqui começa a parte mais interessante, intrigante e instigante da história.
A leitura tradicional é que JK queria fazer seu sucessor. Faz sentido. Todo presidente quer. Um presidente que acaba de deixar o poder quer, se possível, colocar um homem de sua confiança na cadeira que acabou de abandonar. Mas Juscelino tinha uma razão adicional para olhar a eleição de 1960 com certo desinteresse pelo resultado imediato. Ele não estava pensando apenas em 1960 e sim em 1965.
Antes mesmo de sair do Palácio do Planalto (JK assumir o governo no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, e saiu do governo no Palácio do Planalto, em Brasília), JK já tinha os olhos postos na eleição seguinte. A Constituição não permitia sua reeleição imediata, e o caminho natural era sobreviver politicamente até 1965. Para isso, precisava de uma tribuna, de uma presença nacional e – também e principalmente – de um adversário que lhe entregasse o governo coma popularidade destroçada, apontado como um mau governante, para que ele, JK, pudesse reaparecer como o homem capaz de levar de novo o Brasil ao otimismo extático. Cláudio Bojunga e outros biógrafos apontam que JK acreditava que uma vitória da UDN permitiria ao novo governo assumir o desgaste econômico e político, abrindo-lhe espaço para retornar em 1965 como candidato da “salvação nacional”.
É uma dessas ironias que a história deixa cair sobre a mesa. Lott, o candidato do PSD, partido de JK, poderia ganhar, mas Jânio, o candidato da oposicionista UDN, poderia ser melhor para JK, embora não necessariamente melhor para o Brasil. Porque Lott era, de certo modo, a continuação. Era o homem de sua casa, fora o ministro da Guerra que garantira a posse de JK em 1955 e agora concorria pelo seu partido. Se vencesse, receberia a herança e teria de defender o passado para governar o futuro. Se conseguisse administrar bem o país, deixaria pouco espaço para o retorno triunfal de Juscelino. Jânio era diferente, porque viria de fora e poderia receber a conta.
A inflação, a dívida, o desequilíbrio das contas, as acusações de corrupção, o desgaste administrativo, etc, tudo aquilo que acompanhara os últimos anos do governo JK poderia ser apresentado ao país como herança do presidente anterior. Jânio não teria o conforto de administrar apenas o presente. Teria de administrar o passado de JK e foi o que parcialmente ocorreu.
Ao tomar posse, Jânio criticou duramente o governo anterior e atribuiu a JK responsabilidades pela inflação, pela dívida externa e por problemas administrativos. O irônico era que o homem que deveria governar contra a herança de JK acabou governando tão pouco que mal teve tempo de desfazer as malas. Renunciou em agosto de 1961 e vice João Goulart, que também fora vice de JK, assumiu, confirmando que a história, às vezes escrita por um sujeito que gosta de complicar o argumento depois que o leitor já o entendeu, mudara novamente de direção.
JK foi eleito senador por Goiás em 1961 e continuava politicamente vivo. O plano de 1965 permanecia de pé e sua estratégia política estava ligada à expectativa de voltar ao Planalto. Mas… no meio do caminho houve um golpe de Estado, JK teve os direitos políticos cassados, a eleição de 1965 seria cancelada. De nada lhe valeram os movimentos para tentar acomodar-se à nova ordem. Votou em Castelo Branco na eleição indireta de 1964, acreditando que a eleição presidencial prevista para 1965 seria preservada. Não foi. O regime prorrogou-se. Ironia: JK apoiou o golpe que lhe ceifou os direitos políticos e o exilou.
A história brasileira tem esse hábito desagradável de estragar os planos dos homens que julgam tê-la compreendido. JK, o homem que imaginara voltar pela porta da frente terminou saindo pela porta dos fundos. E talvez seja essa a parte mais instrutiva da história: na política, é preciso imaginar quem deve perder hoje e, acima de tudo, saber o que o vencedor fará amanhã.
Há uma lógica parecida rondando a eleição brasileira de 2026, embora evidentemente não se possa transportar uma época para outra como quem troca apenas os nomes dos personagens.
Tarcísio de Freitas fala hoje em futuro presidencial sem cravar 2030. Já disse “talvez” quando perguntado se disputaria a Presidência algum dia e, em outras ocasiões, deixou o assunto entregue ao tempo. A imprensa vem registrando 2030 como horizonte possível de seu projeto político. Michelle Bolsonaro também aparece no debate sobre a sucessão do campo bolsonarista. Flávio Bolsonato, entretanto, tornou-se o candidato escolhido para 2026. E aqui entra a hipótese: se Flávio vencer, terá uma coisa que todo presidente eleito recebe de presente e de castigo: o direito de governar. E governar é diferente de prometer. Som, porque o presidente eleito recebe o país como ele está, não como gostaria que estivesse. Recebe déficit, juros, despesas obrigatórias, demandas sociais, Congresso, governadores, sindicatos, empresários, servidores, prefeitos, aposentados, mercados e eleitores. Depois de alguns meses, descobre que a palavra “ajuste” significa que alguém ficará descontente.
Se Flávio Bolsonaro vencer em 2026 e disputar a reeleição em 2030, o espaço para outros nomes da direita seria necessariamente atravessado por sua presença. Tarcísio e Michelle teriam de conviver, em 2030, com um presidente do mesmo campo político buscando permanecer no cargo. Se Lula vencer, a situação seria outra, porque Lula teria de governar até 2030 e administrar os problemas econômicos que já estão sobre a mesa, além daqueles que surgissem no caminho. Para quem estivesse na oposição, haveria o velho benefício político da distância: criticar o governo, apontar seus erros, prometer correção e esperar a próxima eleição.
Basta observar o calendário, sem a necessidade de imaginar uma conspiração.
Tarcísio já deixou aberta a possibilidade de uma candidatura presidencial futura. Flávio, por sua vez, declarou recentemente que considera Tarcísio um dos grandes nomes da direita para 2030. E o próprio Flávio defende o fim da reeleição presidencial, proposta que Tarcísio apoiou. Portanto, existe uma equação política objetiva: se não houver reeleição, o vencedor de 2026 não ocuparia necessariamente a pista presidencial de 2030. Se houver reeleição, o presidente teria uma vantagem institucional e política evidente: já estaria no cargo.
Quanto a Michelle, a mesma lógica pode ser pensada. Ela também estaria diante de um campo político no qual a vitória de um nome pode fechar espaços que uma derrota poderia manter abertos.

Imagem feita com auxílio de IA
É a velha política da esquina. Às vezes, ganhar a eleição de hoje significa perder a eleição que você realmente gostaria de disputar amanhã. JK talvez tenha entendido isso cedo demais. O homem que aparecia nas fotografias sorrindo enquanto Brasília subia podia enxergar, por trás da campanha de Lott, uma pergunta muito menos romântica: quem pagará a conta do meu governo? Se Lott ganhasse, a conta ficaria dentro de casa. Se Jânio ganhasse, a conta poderia ser apresentada ao adversário. A história, entretanto, não obedeceu inteiramente ao cálculo de ninguém. Jânio renunciou, Jango assumiu, veio a crise, veio 1964, veio a cassação e a eleição de 1965 desapareceu como desaparecem certas promessas políticas: não por falta de anúncio, mas por excesso de realidade.
Em 2026, a matemática é outra, muito embora a política continua gostando das mesmas sutilezas.
Para um candidato que pensa em 2030, a vitória de um aliado pode significar quatro anos de governo, responsabilidade e necessidade de defender o próprio legado. A vitória de um adversário pode significar quatro anos de oposição, crítica e espera. Não é regra, é possibilidade. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
JK tinha uma eleição marcada no futuro e um adversário que poderia carregar o peso de seu passado. Tarcísio e Michelle, se realmente estiverem olhando para 2030, também terão de considerar o que cada resultado de 2026 produziria para o campo político ao qual pertencem. Já o eleitor… Bem, ele não vota ainda em 2030. Vota agora, e é justamente aí que mora a graça – e talvez a tristeza – da política: enquanto o eleitor escolhe quem vai governar o país, alguns políticos já estão olhando para a eleição seguinte.
O eleitor escolhe um presidente. O político, às vezes, escolhe também o adversário. E há ocasiões em que o melhor adversário é aquele que ganha.