O choque de universos gramaticais (Do autoritarismo) – 1
O debate (na verdade, a briga) recente envolvendo Erika Hilton e Ratinho expõe um problema recorrente nas democracias contemporâneas, especialmente no Brasil, que, ressalto, tem passado ao largo dos regimes efetivamente democrático: a distância entre códigos produzidos em ambientes militantes ou acadêmicos e a linguagem utilizada no espaço público de massa. Esse fenômeno não se reduz a um conflito pessoal ou a um episódio isolado. Ele revela um choque de gramáticas políticas, culturais e cognitivas.
Como o tema é polêmico, corrosivo mesmo, vou dividi-lo em duas partes.
Segue a primeira.
A análise de situações como a acima mencionada exige distinguir três planos: o plano conceitual, o plano institucional e o plano comunicacional.
No plano conceitual, o debate gira em torno da relação entre identidade subjetiva e classificação biológica. Parte do pensamento contemporâneo sustenta que a identidade de gênero é definida pela autodeclaração do indivíduo, posição desenvolvida dentro de áreas das ciências humanas influenciadas por autores como Judith Butler, cuja obra propõe compreender o gênero como construção social e performativa. É uma perspectiva que ganhou espaço em movimentos políticos e em políticas públicas. Em muitos ambientes institucionais, a autodeclaração passou a ser tratada como elemento central na definição de identidade. A formulação não é, entretanto, consensual em todos os campos do conhecimento. Na biologia e em parte da medicina, a classificação de sexo continua baseada em critérios cromossômicos, anatômicos e reprodutivos. O contraste entre esses dois modos de descrição da realidade, um de natureza social e outro de natureza biológica, constitui o núcleo da disputa conceitual.
A controvérsia observada no episódio mencionado reproduz esse conflito. A deputada opera dentro da linguagem política que reconhece a identidade de gênero autodeclarada como categoria normativa. O comunicador atua em um registro discursivo que privilegia a distinção biológica tradicional. O resultado, claro, é um conflito de interpretações sobre o que está sendo discutido.
Esse tipo de divergência não é incomum na história do pensamento. O sociólogo Peter Berger descreveu processos semelhantes ao analisar como instituições sociais constroem realidades simbólicas que passam a orientar o comportamento coletivo. Segundo Berger, toda ordem social depende de mecanismos de legitimação que transformam determinadas interpretações em padrões reconhecidos e quando esses padrões permanecem restritos a determinados círculos, surge o que se pode chamar de consenso interno. Dentro desses ambientes, certos pressupostos deixam de ser discutidos e passam a funcionar como premissas.
O problema aparece, meus três ou quatro leitores, quando esse consenso é transportado para espaços nos quais os pressupostos não são compartilhados. Aí, surge a reação de setores que operam com categorias diferentes. Essa reação não ocorre apenas por discordância ideológica. Muitas vezes decorre de simples ausência de familiaridade com o vocabulário utilizado.
A teoria da comunicação pública oferece instrumentos para compreender esse processo, como demonstrou Jürgen Habermas ao argumentar que o debate democrático depende da existência de um espaço comum de linguagem. Quando os interlocutores utilizam sistemas conceituais distintos, a comunicação se torna instável, como é possível constatar no episódio analisado. A instabilidade aparece de forma explícita. A linguagem utilizada pelo comunicador não reconhece os protocolos discursivos presentes em setores do debate identitário. A reação institucional surge como tentativa de enquadrar essa linguagem em normas jurídicas.
Esse deslocamento do conflito para o campo jurídico constitui o segundo plano da análise: o plano institucional.
A denúncia de transfobia representa uma estratégia de regulação do discurso público por meio do sistema judicial. Esse mecanismo tem sido adotado como forma de enfrentar discriminação. Ao mesmo tempo, ele levanta questões sobre os limites entre crítica, linguagem ofensiva e liberdade de expressão.
Do ponto de vista sociológico, a judicialização de conflitos discursivos produz efeitos ambivalentes. Por um lado, estabelece parâmetros de proteção para grupos historicamente marginalizados. Por outro, pode gerar resistência em setores que percebem essas medidas como formas de censura, fenômeno analisado por pesquisadores da psicologia social, da sociologia, da antropologia, etc. O caminho parece potencializar os conflitos. A reação observada em redes sociais e em programas de televisão segue esse padrão. Em vez de produzir convergência interpretativa, o episódio reforça divisões existentes.
O terceiro plano da análise é o plano comunicacional.
A televisão aberta e as redes sociais operam com dinâmicas próprias. Esses ambientes privilegiam mensagens curtas, frases de impacto e linguagem direta. Nesse contexto, conceitos complexos são frequentemente simplificados. Quando categorias produzidas em ambientes acadêmicos entram nesse circuito, ocorrem adaptações. Termos técnicos passam a ser utilizados em disputas retóricas. O significado original tende a sofrer alterações. Esse processo pode ser observado na circulação de conceitos como transfobia, racismo estrutural ou identidade de gênero. No campo acadêmico, essas expressões possuem definições específicas. No debate cotidiano, elas são frequentemente empregadas como instrumentos de disputa política. A consequência desse deslocamento é o risco de desgaste semântico, pois quando um termo passa a ser utilizado em conflitos frequentes, ele pode perder precisão conceitual, fenômeno descrito por linguistas como processo de banalização semântica. Ao final, temos um paradoxo. Expressões criadas para descrever fenômenos específicos acabam sendo interpretadas por parte do público como categorias vagas ou retóricas. Esse efeito contribui para ampliar a distância entre diferentes segmentos do debate público.
A situação observada no episódio entre a deputada e o apresentador ilustra esse mecanismo. Para setores que adotam a linguagem do ativismo identitário, a fala do comunicador representa uma negação de identidade. Para outros segmentos do público, a reação institucional aparece como tentativa de impor um vocabulário específico ao conjunto da sociedade. Esse desencontro produz uma forma de incompreensão recíproca, com cada lado interpretando o episódio a partir de premissas diferentes. Como essas premissas raramente são discutidas explicitamente, o debate se desloca para o campo da acusação.

Imagem feita com auxílio de IA
A experiência histórica mostra que conflitos desse tipo não são resolvidos apenas por meio de sanções ou condenações públicas. Eles dependem de processos de tradução conceitual – que tornem inteligíveis os pressupostos que estruturam determinado argumento. Sem esse esforço, o debate tende a permanecer fragmentado. A política democrática exige justamente esse tipo de mediação. Ela pressupõe a coexistência de visões distintas sobre a realidade social. Quando a comunicação entre essas visões se rompe, surgem episódios como o analisado. Eles não representam apenas divergências individuais. Funcionam como sintomas de transformações culturais mais amplas.
O caso envolvendo Erika Hilton e Ratinho, portanto, não deve ser interpretado apenas como um conflito entre duas figuras públicas. Ele expressa um problema estrutural da esfera pública contemporânea: a dificuldade de estabelecer um vocabulário compartilhado em uma sociedade marcada por múltiplas referências culturais e intelectuais. Enquanto a lacuna persistir, episódios semelhantes continuarão a ocorrer. O nosso desafio consiste em transformar confrontos episódicos em oportunidades de esclarecimento conceitual. Sem esse esforço, o debate público tende a oscilar entre indignação e incompreensão.