O grande Circo das Togas Vacilantes
O Brasil tem visto, quase que ao vivo, um misto de drama, tragédia e comédia envolvendo banqueiro, deputados e senadores, procuradores, juízes, político-cafetão, empresário-cafetão…, e as únicas decentes na história toda: prostitutas.
Que as cortinas sejam inteiramente abertas e que o espetáculo supremo do nosso teatro de quinta categoria, o Surubananil, seja apresentado em toda a sua dimensão.
A produção, meus três ou quatro leitores, é financiada pelo banqueiro (ou ex-banqueiro?) Daniel Vorcaro. É o homem dos bastidores, o banqueiro-artífice, aquele arquiteto das finanças obscuras que move os bonecos de corda no proscênio nacional. Ele entra na parada não para financiar a arte, mas para patrocinar a autofagia republicana, Vorcaro sabe que, no Brasil, o capitalista de laços não busca a beleza, tampouco a arte pela arte. Por cá, busca-se o foro privilegiado e recibos e notas promissórias da impunidade.
Na cadeira de diretor, uma atração do mundo político e empresarial: Fefê Jerimum, um gênio da mise-en-scène grotesca. Fefê rege a orquestra com a batuta de uma jabuticaba murcha. É ele quem ordena a seleção das moças da difícil fácil para as festinhas da turma, é ele quem manda cortar a cena quando a verdade ameaça dar as caras, é ele quem exige o zoom dramático na cara dos réus sorridentes, é ele quem exige que as carpideiras da ordem constitucional chorem de paletó e gravata. Fefê não dirige um filme ou uma peça teatral. Fefê dirige um velório institucional com direito a pipoca, guaraná, algodão-doce e luzes de neon.
E o elenco? Ah, meu Deus, o elenco tem grandes atrações: o senador Batoré e o ministro Glande. São eles que puxam o cordão dos bufões em paletós bem cortados.
Batoré é uma figura trágica e abjeta, o brucutu que também sabe arquitetar conluios, é aquele sujeito que entrou no elenco para fazer dancinhas safadas, atirar tomates na plateia e vestir o paletó como se fosse uma capa de super-herói de hospício. Ele brada, ele rosna, ele baba e ele ameaça prender o bilheteiro da sessão porque o ar-condicionado está muito frio. É a personificação do ridículo solene, o homem que se julga um semideus de mármore, mas não passa de um gesso rachado por onde vaza o tédio nacional.
Ao seu lado está Glande, o tipo escorregadio, o sedutor de bastidor, a presença inflada e pomposa que desfila pelos tapetes vermelhos da comédia jurídica. a personificação da vaidade que engorda. Ele fala difícil para esconder que não diz nada, sorri para as câmeras de canal fechado e cochicha no ouvido do produtor enquanto a casa cai.
Em volta dessa dupla de ouro, orbita o “grande elenco”, formado por uma cornucópia de figurantes de luxo: senadores pusilânimes de terno de casimira, advogados de gravata borboleta que cobram honorários em peso de ouro para defender a virtude de meretrizes sem honra e palavra e bacharéis de boca aberta babando de admiração diante do palco ou da tela em branco.

Imagem feita com auxílio de IA
Surubananil é um filme, mas acima disso é o retrato definitivo da nossa estraçalhada República. É a orgia dos conceitos, a bacanal das normas, a festa em que todos se abraçam enquanto o país assiste da fila do gargalo, pagando o ingresso mais caro do mundo para ver a própria ruína projetada em alta definição, confirmando aquilo que Nelson Rodrigues dizia: “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem e depois pede autógrafo ao espelho”.
Grande parte plateia finge indignação, mas no fundo aplaude a trama, Parece ser sonho e muita gente um papelzinho de figurante nessa grande chanchada.
Não tenham dúvidas, meus três ou quatro leitores: o público pode ir para casa, mas a sessão, lamentavelmente, não tem hora para acabar.