A mosaica Ponta Negra vermelha de vergonha se abre
Caríssimo Sérgio Trindade, venho acompanhado aqui do sertão os dramas desse país desgraçado e li, nas redes sociais, que aquela praia bonita de Natal continua ameaçada.

Ponta Negra (foto de José Aldenir – AgoraRN)
Dizem que a fé move montanhas. Na praia de Ponta Negra, a fé parece que moveu foi o mar. E não foi pouco. A prefeitura, num surto de engenharia transcendental, resolveu brincar de Moisés, e o resultado, segundo a crônica popular, foi mais convincente que o original: abriu-se caminho no mar, não no Mar Vermelho, mas ali, entre um quiosque combalido e outro, sob o olhar atônito do Morro do Careca.

Moisés liderando os hebreus na fuga do cativeiro egípcio [Imagem feita com IA (extraída da Internet)]
A pergunta que ecoa, entre uma piada e outra, é simples como um coco verde: ficou bom ou ficou ruim? Ora, os seus três ou quatro leitores sabem que, se fosse bom, não haveria tantos memes depreciativos e populares. O brasileiro pode até perdoar corrupção, mas não perdoa obra feia. A feiura pública é um escândalo democrático.
Os defensores do serviço – sempre há os defensores, essa fauna curiosa – dizem que é preciso tempo, que a natureza vai se ajustar, que o projeto é moderno, europeu, quase escandinavo. Fico imaginando um sueco chegando em Ponta Negra, olhando aquele cenário quase amazônico, e perguntando onde está o gelo. Porque aquilo não é praia, é um ensaio geral do apocalipse com dinheiro municipal e federal. Enquanto isso, os críticos não economizam. Dizem que a intervenção transformou a orla num híbrido de deserto com canteiro de obras abandonado. Que caminhar ali exige fé, preparo físico e, de preferência, um testamento em dia. Há quem jure que viu um camelo pedindo informação.
No meio do furdunço, a prefeitura posa para fotos. Sempre há fotos. Autoridades com capacete branco, sorriso técnico e aquele olhar bovino, que mistura orgulho com leve desorientação. É o retrato clássico do Brasil: ninguém entende muito bem o que foi feito, mas todo mundo garante que foi necessário.
É certo que Ponta Negra virou um fenômeno cultural. Continua sendo um ponto turístico e, mais do que isso, tornou-se um estado de espírito. Um convite à reflexão: até que ponto o poder público pode intervir sem transformar o simples em grotesco? Até que ponto a boa intenção, quando mal executada, vira comédia involuntária?
E os memes, ah, os memes… esses são a crônica instantânea do povo. Quando dizem que Moisés atravessou ali, não estão apenas fazendo graça. Estão emitindo um parecer técnico, popular e implacável. É o tribunal popular, instituição mais eficiente que muito órgão oficial, mostrando que o que se vê é o velho drama brasileiro, aquela distância abissal entre o projeto e o resultado. No papel, uma maravilha. Na prática, um espetáculo digno de ser exposto pelo magistral Nelson Rodrigues, com direito a exageros, tragédias e personagens que acreditam piamente na própria ilusão. E, claro, narrado com o deboche elegante de um Sérgio Porto, que já teria chamado tudo isso de FEBEAPÁ praieiro.

Imagem feita com auxílio de IA
Se ficou bom ou ruim? Caríssimos três ou quatro leitores de Sérgio Trindade, quando a realidade vira piada, é porque deu errado. E quando a piada é melhor que a obra, é porque a obra virou piada.
Ponta Negra, hoje, é uma praia e uma alegoria, uma metáfora em forma de areia. E, como toda boa metáfora brasileira, arranca risos. Amargos, mas ainda assim risos.
Texto de Astério de Natuba