Inocento

por Sérgio Trindade foi publicado em 01.mar.26

Trabalho num puteiro onde todos – cafetão, garçons, leões-de-chácara, putas – portam-se como vestais. É um ambiente moralmente elevado. Se existisse um sindicato das boas maneiras, nossa casa ganhava o selo de qualidade ISO-Virgindade.

A clientela é formada por gente de bem e de bens. Funcionários públicos, profissionais liberais, comerciantes, industriais, operários. E, para dar diversidade ao ambiente, ladrões, traficantes e corruptos. Mas todos educados. Aqui, antes de qualquer negociata, diz-se “por favor” e “muito obrigado”.

Ladrões e traficantes fazem negócios discretos. Corruptos fazem “acertos”. Nunca ouvi a palavra “propina” naquele salão. O máximo que se admite é “contribuição moralmente flexível”.

Imagem feita com auxílio de IA

A proprietária é dona Arminna Anjus, nascida na vizinha Baípara, oitava dos doze filhos de dona Tedera de Araújo Grosso Anjus, mulata bisneta de escravos da cidade de Pinacam, e do francês Giscard d’Anjou, que aportou em Bâniana decidido a levar cultura cinematográfica ao interior e acabou levando apenas um projetor quebrado e uma dívida moral. Fundou a primeira sala de cinema de Pinacam, onde o filme sempre começava atrasado, mas o discurso inaugural era pontual.

Dona Arminna herdou do pai o amor pelo espetáculo e da mãe o pragmatismo. Diz ela:

– Meu pai projetava ilusões. Eu apenas administro as minhas.

Foi ali que conheci os gêmeos Boldrão Salah e Gemdrão Passala.

Nascidos e criados numa família tradicional, dessas em que os filhos pediam bênção até para espirrar, cresceram sob rígidas normas: “Não mexa no que é alheio”, “Respeite os mais velhos”, “Dê bom dia”. A família, segundo eles, era de origem egípcia e cristã. Uma combinação rara, mas convincente quando dita com firmeza.

A morte precoce da mãe desorganizou o sistema solar doméstico. Criados pela avó, que tinha um terço numa mão e uma colher de pau na outra, cresceram jogando bola (mal), brincando de polícia e ladrão (profético) e esconde-esconde (treino).

Eram bivitelinos: Boldrão, muito branco; Gemdrão, muito preto. Pareciam uma tese sociológica ambulante. Marxista, com tese e antítese. Na cor. Não nos modos.

Boldrão era estudioso, aplicado, de fala chiada, como se tivesse uma chaleira eterna na garganta. Baixo, atarracado e com uma cabeça tão grande que parecia pensar também pelos outros. Gemdrão era preguiçoso e orgulhoso disso.

– Estudar pra quê? – dizia Gemdrão. – O mundo já está pronto.

– Pronto pra ser melhorado – corrigia Boldrão, já ensaiando seu primeiro discurso de defesa.

Com o tempo, ambos aderiram à Lei de Gérson como filosofia de vida. Davam cano em colegas, aplicavam pequenos golpes e mantinham a consciência intacta.

– Eu não sou criminoso – dizia Boldrão. – Nunca matei ninguém.

– Nem eu – confirmava Gemdrão. – E olha que já tive vontade.

Boldrão aplicava golpes com cordialidade. Abraçava as vítimas depois de lesá-las.

– Você é como um ladrão afetivo – disse-lhe certa vez uma moça que perdeu o celular.

– Eu não roubei. Apenas antecipei a posse – respondeu ele, filosófico.

As sirenes da polícia o atordoavam, mas não intimidavam.

– Se me pegarem com a boca na botija, digo que é mal-entendido. O Brasil vive de mal-entendidos.

Gemdrão preferia a franqueza cínica.

– Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho negocia.

Boldrão veio trabalhar no lupanar de dona Arminna por indicação política. Um vereador precisava de alguém “de confiança duvidosa”. Ele se encaixava.

Aqui, Boldrão floresceu. Aprendeu a arte da pequena vantagem institucionalizada. Tornou-se íntimo dos barnabés que abriam portinholas burocráticas.

– Não é corrupção – explicava ele no balcão, enquanto um secretário municipal negociava no reservado. — É lubrificação social.

– Você fala bonito e macio – comentou uma das meninas.

– Eu poderia ter sido advogado.

– Preferiu ser cliente fixo do destino?

– O destino dá fiado.

Gemdrão aparecia de vez em quando. Sentava-se no bar, observava o movimento e filosofava:

– Esse lugar é um retrato do país. Todo mundo vende alguma coisa.

– E você vende o quê? – perguntei.

– Eu? Eu vendo explicações.

Certa noite, Boldrão, ligeiramente embriagado, abriu o coração:

– Só tenho um arrependimento. Não sou o que meu pai gostaria que eu fosse.

– E o que ele queria? – perguntou dona Arminna, servindo-lhe um conhaque.

– Que eu fosse honesto.

Houve um silêncio respeitoso, como se alguém tivesse citado Platão num bingo.

– E por que não foi? – insistiu ela.

– Porque honestidade não dá cashback.

Gemdrão interveio:

– Nosso pai foi passado pra trás a vida inteira por mocinhas interesseiras.

– Talvez ele fosse apenas romântico – arrisquei.

– Romantismo é o primeiro estágio do prejuízo – decretou Gemdrão.

Boldrão às vezes chorava falando do pai, mas gargalhava lembrando dos trouxas que enganara.

– Sou um merda – dizia, num raro momento de lucidez. – Hoje sou manobrado pela minha mulher e sempre fui refém das minhas escolhas.

– Você não é refém – corrigiu Gemdrão. – É sócio majoritário.

No lupanar, Boldrão tornou-se uma espécie de consultor moral invertido. Políticos pediam conselhos.

– Se eu fizer isso, dá problema? – perguntou um deputado.

– Só se descobrirem – respondeu Boldrão. – E, mesmo assim, depende da narrativa.

– E a ética?

– Está em manutenção.

Dona Arminna observava tudo com serenidade administrativa.

– Aqui ninguém é inocente – dizia. – No máximo, inocento.

“Inocento” era o termo oficial da casa. Designava aquele que comete pequenos pecados e os chama de virtudes adaptativas.

Boldrão adorou a palavra.

– Sou inocento, então.

– Não exagere – retrucou Gemdrão. – Você é profissional.

Com o tempo, Boldrão virou soldado raso com fumaças de capitão. Recebia uns caraminguás para facilitar encontros, acelerar alvarás, aproximar empresários de secretários.

– Sou ponte – dizia.

– Ponte cobra pedágio – lembrava Gemdrão.

Numa madrugada calma, enquanto um traficante discutia logística com um contador e uma professora aposentada citava Camus no quarto três, perguntei a Boldrão:

– Você acredita em redenção?

Ele pensou. A chaleira interna pareceu chiar mais alto.

– Acredito em promoção – respondeu. – Redenção não paga condomínio.

Gemdrão levantou o copo:

– Brindemos ao progresso moral.

– Do país? — perguntei.

– Não. Nosso.

Dona Arminna fechava o caixa quando concluiu:

– Meus filhos, a diferença entre o santo e o pecador é que o santo não foi pego.

Boldrão sorriu, abraçando um cliente recém-lesado.

– Eu não sou ladrão – murmurou para mim. – Sou apenas mal compreendido.

Lá fora, uma sirene distante ecoou. Ele não se mexeu.

– Está ouvindo? — perguntei.

– Estou. Mas deve ser para outro inocento.

E voltou ao salão, distribuindo apertos de mão como quem distribui absolvições.

No fundo, talvez acreditasse na própria versão. Ou talvez apenas tivesse aprendido a projetar ilusões como o avô francês, só que sem cinema. Aqui, a tela é a consciência, e o filme nunca acaba.

E assim seguimos: vestais do vício, sacerdotes do ajuste fino, inocentos profissionais.

Ou, como diz Gemdrão, com a serenidade de quem nunca pretendeu ser melhor:

– O importante é não parecer pior.

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