Atropelados
Ah, meus três ou quatro leitores, o que se viu ontem não foi um clássico, foi um enterro de quinta categoria!
Argentina e Brasil, outrora uma epopeia homérica, era nos últimos tempos um papo de comadres. Sim, comadres!
Onde estavam os homens de outrora? Os que entravam em campo não para jogar, mas para trucidar e degolar. Os que, como Romário – oh, divino baixinho! – cuspiam fogo, mas, no fim, entregavam o milagre do gol, a redenção da camisa amarela, amada e temida mundo afora.
Raphinha, coitado, quis vestir a máscara do herói trágico. Berrou aos quatro ventos: “Porrada neles! Sem dúvida! Porrada neles! No campo e fora do campo se tiver que ser!”. Ameaçou devorar os argentinos, e o que fez? Sumiu! Desintegrou-se como um espectro ao raiar do sol! Suas palavras, que deveriam ser tochas a incendiar o campo, viraram cinzas na hora em que pisou o gramado do Monumental de Núñez, estádio do River Plate, em Buenos Aires.
A imprensa, essa malta de sepultadores de almas, já o condenara antes do jogo e agora, consumado o desastre, samba sob o túmulo do atleta do Barcelona, no qual a inscrição diz, em letras garrafais: “Aqui jaz um falastrão e covarde”.
Mas digo mais: ele, o meia atacante do Barcelona, é só um sintoma da morte do espírito que moveu, por décadas, o selecionado nacional.
Ontem, a Argentina não jogou. Passeou em campo e, quando quis, executou o nosso time. E o Brasil, onde estava? Ah, o Brasil… Foi um desfile de zumbis, uma refilmagem de A volta dos mortos-vivos.
Cada passe errado, uma facada nas costas da tradição. Cada passe errado, uma cusparada na memória de Didi, cada drible troncho, um deboche com a memória de Garrincha!
E o treinador? Um coveiro tático, que enterrou qualquer lampejo de genialidade sob um esquema tão capenga quanto muleta de deficiente físico.
Quatro a um, meus parcos leitores, e foi pouco! Quatro golpes no peito da nação! Até os fantasmas do Maracanazzo de 1950 se cobriram de véu, envergonhados, pois naquele dia, ao menos, houve drama, houve paixão, houve lágrimas. Já ontem…, ontem foi a crônica de uma morte anunciada: um Brasil sem raça, sem dente, sem sangue, sem brio e sem alma.
Romário, a quem Raphinha deu entrevista posando de durão, em seus tempos de fúria cínica, provocava, sim, provocava, mas depois entregava a joia rara do gol, o êxtase que lavava toda insolência e levava a massa à loucura. Raphinha, ao contrário, foi caricatura malfeita de herói de capa e espada. Prometeu fogo e entregou um fósforo molhado.
E assim caminha a seleção: uma trupe de atores medíocres, encenando uma farsa em que o único destino é a desonra, uma farândola de medíocres dirigida por um medíocre travestido de treinador.
O que resta, senão chorar? Chorar pelo Brasil que já foi pátria de reis e de gênios de chuteiras, como um dia vaticinou Nélson Rodrigues, e hoje é refém de meros e comuns.
Chorar pelo dia em que um 4×1 não é tragédia, mas piada. E, acima de tudo, chorar por saber que, enquanto houver treinadores que confundem tática com mera distribuição do time em campo e jogadores que temem mais a crítica que o rival, seguiremos nesse velório interminável – no qual a única vela acesa é a da nosso próprio enterro e de nossa própria humilhação.
Há um consolo, perdemos só de quatro. Poderia ser de sete. De novo.