Os homens que fecharam a torneira e viraram vilões

por Sérgio Trindade foi publicado em 23.jan.26

Há poucos personagens condenados, no Brasil, ao purgatório eterno da impopularidade, Manoel Ferraz de Campos Sales é um deles. O brasileiro médio não o perdoa. E não o perdoa por uma razão simples, quase obscena: Campos Sales fez contas. Pior: mandou fazê-las. Num país em que a virtude máxima do governante sempre foi a prodigalidade (gastar, distribuir, prometer, perdoar dívidas e inaugurar obras com placa), Campos Sales cometeu o pecado capital da austeridade. E austeridade, no Brasil, é vista como sadismo tecnocrático.

Ao assumir a Presidência em 1898, Campos Sales herdou um país em avançado estado cadavérico financeiro. A República recém-nascida cambaleava sob os escombros do Encilhamento, aquela orgia monetária devastadora dos anos iniciais do novo regime e analisada com rigor por Celso Furtado, em Formação econômica do Brasil, como a primeira grande experiência inflacionária moderna do país. A moeda desvalorizada, a dívida externa impagável, a credibilidade internacional inexistente. O Brasil, nas palavras de Caio Prado Júnior, em História Econômica do Brasil, era uma economia primária-exportadora sem disciplina fiscal e sem Estado funcional.

Campos Sales percebeu algo que seus críticos jamais entenderiam – nem ontem, nem hoje: não se governa país quebrado com retórica inflamável. Antes mesmo de tomar posse, atravessou o Atlântico para negociar com os credores ingleses, liderados pela Casa Rothschild. Não foi turismo diplomático e, sim, cirurgia sem anestesia. Nascia o Funding Loan de 1898, um acordo que, como bem descreve Boris Fausto, na sua História do Brasil, deu ao país o oxigênio necessário para não morrer asfixiado pela dívida externa.

O Funding Loan suspendeu o pagamento de juros por 13 anos, congelou a amortização do principal por duas décadas e ainda consolidou dívidas antigas num novo empréstimo de 10 milhões de libras. Em troca, exigiu garantias duríssimas: as rendas da Alfândega do Rio de Janeiro e da Estrada de Ferro Central do Brasil. Foi um pacto faustiano? Talvez. Mas era isso ou a bancarrota absoluta e, aí, a moralidade das contas precedeu a moralidade do discurso.

A execução desse programa caiu sobre os ombros de um homem ainda mais odiado que o Presidente Campos Salves: Joaquim Murtinho, Ministro da Fazenda. Se Campos Sales era impopular, Murtinho era execrado. E com justiça, do ponto de vista do sentimentalismo nacional.

Murtinho praticou o que Joseph Schumpeter chamaria, décadas depois, de “destruição criadora”, em Capitalismo, Socialismo e Democracia, embora aqui fosse apenas destruição, sem glamour. Seu credo era o metalismo: moeda forte, inflação zero, Estado magro.

Murtinho mandou queimar papel-moeda. Literalmente. Incinerou notas como quem queima ilusões. Cortou gastos públicos, suspendeu obras, enxugou o funcionalismo e elevou impostos. Recusou-se a salvar indústrias ineficientes e cafeicultores endividados. Não acreditava em proteção estatal a incompetentes. Nesse ponto, estava mais próximo do David Ricardo de Princípios de Economia Política e Tributação do que de qualquer ideólogo tropical.

O povo reagiu como sempre reage quando a fantasia acaba: com ódio. Campos Sales virou “Campos Selos”. Murtinho virou carrasco. A imprensa da época pintou-os, como mostram os levantamentos de José Murilo de Carvalho, em Bestializados, como algozes do povo. Mas nenhum crítico sério jamais conseguiu demonstrar que o remédio era errado, muito embora fosse bastante amargo.

Campos Sales sabia, porém, que não bastava arrumar a economia. Era preciso blindar a política. Daí nasceu a famigerada Política dos Governadores, pacto oligárquico tantas vezes descrito com desprezo moralista, mas raramente com análise fria. O Presidente apoiava as oligarquias estaduais; em troca, os governadores garantiam um Congresso dócil. A Comissão de Verificação de Poderes “degolava” opositores eleitos sob a alegação verdadeira ou não de fraude.

Hipocrisia? Claro. Mas alguém acredita seriamente que a República Velha (ou a República Nova ou a Nova República) seria um jardim suíço de pureza democrática? Como lembra Raymundo Faoro, n’Os Donos do Poder, o Estado brasileiro sempre foi patrimonial, e a política sempre foi negociação de poder, não catecismo. Campos Sales apenas institucionalizou o que já existia, e o fez para garantir estabilidade suficiente para passar reformas impopulares.

O resultado foi uma economia saneada, uma moeda estabilizada e um país pronto para que Rodrigues Alves fizesse obras, reformas urbanas e deixasse marca. Eis a lógica cruel da história: os arrumadores nunca são amados; os inauguradores, sim.

Décadas depois, Oswaldo Aranha resumiria esse padrão como o “pêndulo Campos Sales–Rodrigues Alves”: dois anos de sacrifício, dois anos de gasto. É o retrato falado da política brasileira até hoje.

Não por acaso, a história rima. Em 1964, o Brasil novamente estava em ruína financeira. Inflação perto de 100% ao ano, déficit público descontrolado, descrédito internacional. O diagnóstico lembrava, palavra por palavra, o de 1898. E a resposta foi semelhante. Sob a blindagem política de Castello Branco, surgiu a dupla Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões – os Murtinhos do século XX.

Roberto Campos, leitor de Keynes, Hayek e Schumpeter, mas avesso ao populismo, acreditava na necessidade de fundamentos sólidos antes do crescimento, como bem descreveu em suas memórias (A Lanterna na Popa). Bulhões, técnico meticuloso, compartilhava a obsessão pela estabilidade monetária. Juntos, arquitetaram o Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), descrito com por Maria da Conceição Tavares, em Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro, como um programa ortodoxo de estabilização com reformas estruturais.

Criaram o Banco Central, o FGTS, o BNH. Implementaram o arrocho salarial, transferindo renda do trabalho para a capitalização do Estado e das empresas. Aqui está a diferença crucial em relação a Murtinho: enquanto o Ministro de Campos Sales simplesmente ignorava a questão social, Campos e Bulhões a enfrentaram, mas pela via repressiva. A técnica substituiu a indiferença; o resultado social, porém, foi igualmente cruel.

Nenhum desses planos sobreviveria a uma democracia ruidosa. Campos Sales precisou da Política dos Governadores. Castello Branco precisou do AI-1 e do AI-2. A lição é desconfortável, mas inescapável: ajustes profundos exigem blindagem política, não necessariamente ditatoriais. O resto é romantismo universitário.

Imagem feita com auxílio de IA

Ambos os períodos foram saneadores. Campos Sales preparou o terreno para Rodrigues Alves. Castello Branco preparou o terreno para o milagre econômico, que, aberto por Delfim Netto, terminou em inflação e endividamento, como era previsível. A história brasileira é um eterno retorno nietzschiano, só que sem a grandeza trágica, apenas com a repetição da irresponsabilidade.

Campos Sales saiu vaiado. Roberto Campos virou Bob Fields. Ambos foram odiados. Ambos estavam certos em algo essencial: não há prosperidade sem disciplina. O Brasil, porém, prefere o conforto da mentira populista à dor da verdade contábil, porque somos um país que odeia o sujeito que fecha a torneira, mas ama o que inaugura a fonte, ainda que a água venha de empréstimo. Campos Sales/Murtinho, Castello Branco/Roberto Campos e Bulhões cometeram o maior pecado nacional: tentaram salvar o Brasil de si mesmo. Por isso, jamais foram perdoados.

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