Quando a História mandou o Rei voltar

por Sérgio Trindade foi publicado em 23.ago.26

A história do rei D. Sebastião não termina quando ele morre. Ela (re)começa justamente aí.

No dia 4 de agosto de 1578, nas terras secas de Alcácer-Quibir, no Marrocos, aconteceu uma dessas tardes em que a História parece perder a paciência com os homens. O rei português D. Sebastião tinha 24 anos e levava para a África uma ideia maior do que seu exército: queria restaurar, com espada e cruz, alguma coisa que talvez só existisse na imaginação.

Alçado ao trono aos três anos, depois que as mortes prematuras foram dizimando a família real portuguesa, cresceu sob a vigilância do cardeal D. Henrique, seu tio, e dos jesuítas, num tempo em que a religião não era apenas uma crença particular, mas também uma maneira de explicar o mundo. O rapaz acreditava que Deus lhe reservara uma missão. E quase sempre quando um homem acredita que tem Deus ao seu lado, às vezes deixa de escutar os homens.

Seus conselheiros o advertiram. Seu tio, Filipe II da Espanha, também. Havia problemas de dinheiro, de logística, de homens, de tudo aquilo que costuma separar uma guerra sonhada de uma guerra possível. Mas D. Sebastião queria ir, queria ser herói de uma cruzada tardia, queria combater os mouros e talvez, sem saber, queria entrar para a História. E entrou, só que pela porta errada.

À frente de um exército de dezessete mil homens, liderou uma batalha que foi um desastre. Morreram milhares de portugueses, morreram os dois pretendentes ao trono marroquino e desapareceu o próprio rei. Portugal perdeu um exército, uma geração de nobres, uma fortuna e, pouco depois, a própria independência já que em 1580, sem herdeiro direto, a Coroa portuguesa passou aos Habsburgo espanhóis.

Mas havia uma coisa que Portugal não conseguiu perder: a esperança, porque não encontraram com absoluta certeza o corpo do rei e talvez porque um povo humilhado precise, às vezes, acreditar que a derrota não foi definitiva. Mais, porque talvez seja mais fácil esperar um homem do que aceitar uma realidade. E ali, começou então a nascer o mito.

D. Sebastião não teria morrido. Estaria escondido e um dia voltaria, montado em um cavalo branco, numa manhã de nevoeiro, para libertar Portugal e devolver-lhe a grandeza. Era o Rei Encoberto, o Desejado.

Imagem feita com auxílio de IA

A História, que costuma ser cruel, tornou-se então generosa com a imaginação. As antigas trovas de Bandarra ganharam nova vida e apareceram homens que diziam ser o rei desaparecido. Houve o Rei de Penamacor, o Pai de Ericeira, o Pasteleiro de Madrigal, entre outros. Alguns encontraram seguidores; todos encontraram, no fim, a prisão, o julgamento e a morte.

É curioso que o povo pudesse acreditar naqueles impostores. Mas talvez não acreditasse exatamente neles e, sim, na necessidade de que eles fossem verdadeiros. O nascente sebastianismo era menos uma crença em D. Sebastião e mais uma recusa em aceitar que o rei desaparecido tivesse terminado. Era a esperança contra o fato.

Portugal recuperou sua independência em 1640, quando os Bragança subiram ao trono, mas o rei não voltou. Mesmo assim, atravessou o oceano e no Brasil, onde a pobreza, o abandono e a solidão dos sertões criaram outras formas de esperar por um salvador, a velha lenda encontrou terreno fértil. Pedra Bonita, Serra do Rodeador e, mais tarde, Canudos, guardariam ecos dessa antiga esperança portuguesa. E está justamente aí o lado mais triste da história de D. Sebastião: a fama do rapaz só foi possível depois que ele desapareceu. A sua morte em Alcácer-Quibir alçou-o a mito, e o mito continuou andando.

Ainda hoje há qualquer coisa de profundamente humana nessa história. Quando a realidade se torna insuportável, inventamos uma porta por onde ela possa sair. Às vezes essa porta é a religião. Às vezes é a política. Às vezes é um homem. Para Portugal, foi um rei, ficando combinado que ele voltaria numa manhã de nevoeiro.

Talvez não fosse preciso mais que isso: um pouco de névoa, um cavalo branco e a esperança de que a História, por uma vez, fosse piedosa com os vencidos.

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