Jornal do Brasil versus O Globo: as duas urnas de 1982
Caminha-se pela política como quem percorre os corredores escuros de um casarão antigo: o assoalho range, as sombras conspiram, o cheiro é estranho e o que parece ser, nem sempre é. A memória, uma velha senhora que recusa o esquecimento, costuma nos pregar peças, é verdade, mas há momentos em que ela cobra o preço da lucidez.
Lembro-me bem das eleições de 1982. Por sinal, lembro com mais precisão, das coisas passadas há muito tempo e menos das passadas ontem. Do que não me lembro de 1982, recorro aos livros, as arquivos, nestes dias de tecnologia digital a uma distância curtinha.
Pois bem, o Brasil ainda tateava, em 1982, na penumbra da abertura política, engatinhando como quem aprende de novo a andar sem o amparo autoritário das baionetas. Naquele ano, os estados iriam escolher os seus governadores, mas o Rio de Janeiro não escolhia apenas um governante. Disputava-se ali o sentido mais profundo do verbo redemocratizar. De um lado, a figura vulcânica e lendária de Leonel de Moura Brizola, trazendo na bagagem o fantasma da legalidade e o traço inconfundível do trabalhismo. Do outro, Moreira Franco, empacotado pelas conveniências do regime que teimava em não passar. A disputa transbordava as calçadas fluminenses e eletrizava a capital do estado.
E eis que, em meio ao furor, surgiu a Proconsult. Lembram dela?
A história é conhecida dos velhos escribas, mas convém repeti-la aos mais jovens. Uma empresa sem passado no misterioso ofício dos números foi encarregada de apurar o pleito. Logo surgiram as estatísticas contorcionistas. Criou-se até um eufemismo técnico – um tal “diferencial delta” –, engenhoca matemática que pretendia convencer a nação de que os eleitores de Brizola, por algum mistério da psicologia das massas, eram incapazes de preencher uma cédula sem anulá-la. A ironia fina dos homens do poder tentava vestir a fraude com o figurino impecável da ciência.
Ocorre que a política, quando julga ter dominado todas as variáveis, esbarra na imprevisibilidade do jornalismo. Enquanto os dados oficiais caminhavam com prudência calculada, o Jornal do Brasil meteu as mãos na massa e decidiu contar os votos por conta própria, à luz do dia, numa auditagem improvisada nas redações, ao som das velhas máquinas de escrever e do tintilar dos cinzeiros cheios. E, aí veio o problema: os números da imprensa e os da Proconsult não conversavam. E quando a matemática oficial desmente a realidade dos fatos, o estofo da versão racha ao meio.

Imagem feita com auxílio de IA
O que se viu em 1982 foi a inauguração de uma disputa que hoje nos parece familiar. Não se travava ali apenas a contagem das cédulas nas urnas de pano e, sim, de uma batalha da narrativa. Brizola venceu na marra, na resistência e no contraponto da imprensa livre, que teve a coragem de desconfiar quando a versão oficial desafiava o bom senso.
Hoje, os incautos acreditam que a guerra pela percepção pública nasceu no algoritmo das redes sociais, nos grupos de mensagens instantâneas e nas sedutoras telas dos celulares. Mais uma ilusão dos novos tempos. Mudaram-se as ferramentas, preservou-se a tentação. O desejo de manipular a realidade para moldar o poder é tão antigo quanto a própria República. Em 1982 não havia inteligência artificial, mas havia a convicção de que quem controla a informação, controla o destino dos homens e aquele episódio no Rio de Janeiro deixou uma lição que ultrapassa as fronteiras daquele tempo e alcança este nosso Rio Grande do Norte, tão afeito aos bastidores e às pelejas eleitorais.
Eleições não são apenas o somatório mecânico dos sufrágios. São, sobretudo, a construção da credibilidade. Existe sempre uma segunda urna em qualquer democracia. Uma urna invisível, fugidia e impalpável, porém decisiva, aquela na qual o cidadão deposita não o papel ou o toca a tela, mas a sua própria confiança. A apuração da primeira urna dura poucas horas; a da segunda nunca se encerra. Porque o poder, meus três ou quatro leitores, pode até se impor pela força dos números ou pelo artifício das planilhas, no entanto a história, juíza severa e antipática à contabilidade criativa, só reconhece a legitimidade quando a verdade dos fatos sobressai às sombras dos corredores.