Natal: cidade-promontório

por Sérgio Trindade foi publicado em 18.ago.22

Por ordem régia, o Governador-Geral Francisco de Sousa (1591-1602) iniciou os preparativos para expulsar os franceses e apaziguar os índios e, desta forma, garantir a colonização da capitania do Rio Grande, estratégica para conquistar todo o litoral norte do Brasil e adentrar pelos sertões nortistas.

A conquista começou a se efetivar com a construção de uma fortaleza na barra rio Potengi, cabendo a Manuel de Mascarenhas Homem (Capitão-mor de Pernambuco) e a Feliciano Coelho (Capitão-mor da Paraíba), auxiliados pelos irmãos João e Jerônimo de Albuquerque, sobrinhos de Duarte Coelho, conduzir ações para tal fim.

A construção foi iniciada em janeiro de 1598, conforme Câmara Cascudo, erguido “a setecentos e cinquenta metros da barra do Potengi, ilhado nas marés altas”, e finalizada em junho do mesmo ano, com Jerônimo de Albuquerque recebendo solenemente a fortaleza, “com o cerimonial da época, jurando defender e só entregar a praça aos delegados del-Rei”, com missa oficiada pelos padres Gaspar de Samperes e Francisco Lemos e pelos freis João de São Miguel e Bernardino das Neves, de acordo com José Melquíades, em História de Santos Reis: a capela e o bairro.

Mapa-Natal-Forte-Cidade [Veroveringe van Rio Grande in Brasil (1633). Estampa completa e recorte ampliado. Seção de Mapoteca e Iconografia do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro, sob a notação: VEROVERINGE VAN RIO GRANDE IN BRASIL]

Os nativos resistiram ao invasor português, ainda mais por verem tomadas suas terras, mas um ano e meio depois foi fundada a cidade de Natal, a 25 de dezembro de 1599, depois que os índios foram pacificados, em junho de 1599, conforme registra Cascudo: “O forte construído ficava isolado no seu arrecife cercado pelo mar assim como a guarnição estava circundada pela indiada furiosa. A conquista pela espada seria consolidada pela catequese dos espíritos. Mosquetes, canhões, lanças, espadas e pelouros nada fariam. Vencido, recuava o indígena como uma onda e voltaria, mais forte, quebrando-se nas muralhas de pedra do Reis Magos. O processo era embainhar a espada e dar a palavra ao padre”.

Olavo de Medeiros Filho, em seu livro Terra Natalense, diz que acertados os detalhes, as principais lideranças indígenas – inclusive a maior entre elas, Camarão Grande – dirigiram-se à Fortaleza dos Reis para combinarem as pazes com os brancos. A presença de Camarão Grande é atribuída aos esforços de Gaspar de Samperes, porque, segundo Vicente do Salvador, “andou pelo sertão, ajustando estes principais para o efeito das pazes”.

Segundo Denise Monteiro, os portugueses, mesmo com a estratégia de envolver os religiosos no projeto de pacificação dos indígenas, não abandonaram os recursos militares. Para Cascudo, em sua História da Cidade do Natal, aquele 11 de junho finaliza “um dos capítulos iniciais e ásperos” da história brasileira, “primeiro tratado político entre duas raças, duas civilizações, duas mentalidades”. Os índios manteriam o contrato, morrendo por ele”, enquanto os portugueses erguiam “mais uma cidade, a marca do norte, extrema da posse, pouso e reforço para a lusitanização do Brasil setentrional”, pois após a pacificação dos índios as autoridades da capitania construíram uma igreja (antiga catedral de Natal) e demarcaram o espaço para a nova cidade. A população, sentindo-se segura pelo recém assinado tratado de paz, começou a ocupar lentamente as imediações do templo religioso. Assim, a inauguração da igreja representa o marco cronológico inicial de Natal, quarta cidade fundada no Brasil [as quatro primeiras cidades fundadas no Brasil foram: Salvador (1549), Rio de Janeiro (1565), Filipéia (1584) e Natal (1599). O status de cidade dado a elas não é resultante de sua importância social ou econômica, mas devido à suas origens administrativa e militar, pois nasceram da necessidade que a Coroa portuguesa tinha de contornar os obstáculos da colonização]. Vários relatos deixados por visitantes, pontua Olavo Medeiros, não fazem menção a existência de igreja na cidade. Somente nos anos de 1627-1628 há menção de que a cidade “possuía uma ‘boa igreja’, a qual fora concluída em 1619”.

Em sua História Geral do Brasil, Varnhagen afirma que por ser “imprópria a porção do arrecife ilhada (em preamar) em que estava o forte, a futura Natal nasceu num chão elevado e firme, que se apresenta à margem direita do rio, obra de meia légua acima de sua perigosa barra” (grifos nossos), com limites entre a atual praça das Mães, na subida da antiga avenida Junqueira Aires (atualmente Câmara Cascudo), à praça da Santa Cruz da Bica, no Baldo, em frente ao prédio da COSERN.

Segundo Cascudo, o local onde a cidade foi construída já havia sido escolhido bem antes da realização das pazes com os potiguares. O padre Francisco Pinto, o amanajara (senhor da chuva), informava que seria “relativamente fácil conservar os indígenas batizados ‘residindo em algumas partes, como será fazendo uma boa residência na nova cidade, que agora se há de fundar, obra de meia légua do forte do Rio Grande’”.

Está bem claro, quando olhamos detidamente o processo de colonização portuguesa no além-mar, que houve busca incessante, na escolha dos sítios onde se localizaram as cidades, de promontórios voltados para o mar ou para rios, pois assim avistava-se e dominava-se a costa, o cais e o comércio. Em outras palavras, havia, entre os lusitanos, um vigilante olhar religioso e militar, daí a construção de igrejas e fortificações, mas também havia um atento olhar mercantil, controlando-se o que trafegava nas águas, fiscalizando-se os negócios e as pessoas que circulavam nos embarcadouros a beira-rio e a beira-mar. Daí a presença de núcleos urbanos em morros próximos ao mar ou a rios e também próximos a baías e foz de rios, ideais para penetrar no interior da região. Logo, as escolhas não eram aleatórias e tampouco tinham olhar apenas religioso e militar.

Mapa-Salvador
(Mapa de Luís Teixeira)

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