Lupanaria // I – O homem
Filho de uma lavadeira exausta e de um grumete de passagem, Odorico Gomes Dias foi lançado ao mundo como quem descarta um fardo. Diz a lenda — essa verdade que a mentira não ousa desmentir — que sobreviveu ao abandono bebendo o leite de uma loba guará nas entranhas de Eçaraiapólis. Talvez venha daí sua natureza predadora e o faro apurado para o que é alheio.
Nascido no sertão de Canguçu e forjado no asfalto do subúrbio carioca, Odorico percorreu a escala evolutiva da delinquência com uma disciplina invejável. Foi batedor de carteira raso, punguista de rodoviária e ladrão de malas em aeroportos, até que o destino — ou a falta de polícia — o levou a Malassombro, capital de seu estado natal. Lá, trocou a agilidade das mãos pelo verniz da academia, transformando-se em um ladrão de casaca sem jamais perder o instinto do bicho.
Sua voz era um prodígio da feiura acústica: um chiado de estática, como se um apito rachado estivesse permanentemente entalado em sua traqueia. Diziam os comparsas de infância que Odorico não falava, assoviava — um tique de segurança, um código de aviso para que a malta soubesse quando a lei espreitava.
A história, no entanto, transborda o indivíduo e se torna crônica de um país. Odorico e sua matilha de crápulas tomaram de assalto uma antiga instituição de ensino técnico e a converteram em um seminário de pústulas. Ali, indivíduos doentes vestiam a toga docente. Eram marajás da mesquinharia, sabujos travestidos de republicanos, afanadores de bolsas e benesses que distribuíam o dinheiro público como merenda silenciadora para os cúmplices de gabinete.
Durante duas décadas, no famigerado Seminário Tratantada, Odorico foi o ladrão que ninguém ousava suspeitar. Sua presença era discreta, diletante; sua fala, embora chiada, era maviosa e servil, a máscara perfeita de quem está sempre pronto a ajudar enquanto desvia o recurso. Protegido pela casta que se adonou das engrenagens do poder, Odorico tornou-se intocável. Enquanto os jornais, amordaçados por autoridades que sonegavam dados, silenciavam, ele operava nas sombras.
Odorico não tem o charme do enigmático nem o brilho da imaginação. É um biltre rasteiro que vende ilusões e publicidade do nada. Um artífice da traição, capaz de negociar amigos e pais por meros caraminguás. Seu círculo íntimo é uma galeria de horrores: agiotas, contrabandistas, empresários do entretenimento sujo e gestores públicos que perseguem vulneráveis com a mesma eficiência com que limpam os cofres.
Entre seus pares de sangue e lama, destacam-se dois: Audálio Cuenca e João de Barros Cacatua.
Cuenca, herdeiro de caraquenhos e criado na Vila Macondo, foi o fiel escudeiro de Josefino Machado, o diretor atrabiliário que transformou uma repartição veneranda em um covil pessoal. Já Cacatua é o reflexo especular de Odorico. Antigo parceiro de furtos nas calçadas, João foi presenteado com uma sinecura — um cargo de descanso e luxo — na instituição de Josefino. Pelo árduo serviço de ser o “bobo da corte” da patota, Cacatua ascendeu.
Odorico e Cacatua não são apenas amigos; são gêmeos de alma, paridos pela mesma miséria moral e amamentados pela mesma impunidade que rege os dias em Malassombro.
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