Colegas, vamos ser honestos

por Sérgio Trindade foi publicado em 06.abr.26

Há uma piada sobre a sucessão presidencial de Emílio Garrastazu Médici que tem lá sua graça.

Conta-se que o Alto Comando das Forças Armadas se reuniu para escolher um general-candidato para suceder o presidente Médici. Muita bate-boca, muita vaidade, muita pretensão escondida sob um manto de falsa humildade até que um general disse: “Olhe, correm muitas notícias de ladroagem e isso enche de lama as Forças Armadas, última cidadela contra a corrupção. Precisamos de um candidato honesto”. Um outro, com um sorriso de canto de boca, rebateu: “Honesto nós não temos, mas há aí um Ernesto”. Ali, naquele instante, Ernesto Geisel foi alçado a candidato a candidato a presidente. Dali a uns dias, a ARENA, partido que dava sustentação política ao regime de 1964, homologou o nome de Geisel, posteriormente vitorioso no Colégio Eleitoral, batendo o deputado federal e candidato do MDB Ulisses Guimarães.

O nariz de cera acima serve para contar como a desonestidade intelectual baliza o debate público no Brasil.

Há uma semana escrevi texto criticando a postura, num evento de colação de grau, do reitor do IFRN, sem deixar de apontar o erro de um pai que desligou a eletricidade da Unidade do IFRN da Zona Norte de Natal, na mesma solenidade, e colegas e amigos e conhecidos gritaram, para variar, que sou bolsonarista, direitista, neoliberal, etc, etc, e etc, e que o reitor tem mesmo é que dizer que foi Lula quem fez isso e aquilo. Nem contesto e nem explico mais isso, porque me recuso a discutir com gente que põe burguesia e proletariado, os únicos dois neurônios que tem, para brigar.

O texto que segue é para os desonestos que insistem em falar que o IFRN (que já teve outras denominações) se expandiu vigorosamente apenas quando Lula e Dilma estiveram à frente do governo, sem deixar de reconhecer que de fato houve crescimento exponencial no número de unidades de ensino e aumento significativo no número de alunos na gestão dos dois. Tudo isso está registrado em Documentos e discursos reunidos sobre a criação das Escolas de Aprendizes Artífices, em História das ideias pedagógicas no Brasil (Dermeval Saviani), A produtividade da escola improdutiva (Gaudêncio Frigotto), Institutos Federais: uma revolução na educação profissional e tecnológica (Eliezer Pacheco), em dados do INEP, etc. Nem vou falar nas dissertações de mestrado e nas teses de doutorado, incluindo as que tiveram o IFRN como objeto de estudo e expõem, com honestidade, a história da instituição. Não custa ler, se burguesia e proletariado permitirem, claro.

É mentira que o IFRN só se expandiu fortemente com Lula. Há os que sabem e mentem (os desonestos) e há os que nada sabem e repetem a mentira (os ignorantes).

Para entender o Brasil, meus três ou quatro leitores, é preciso olhar para o giz e para a graxa, pois a história da nossa educação profissional é uma saga que oscila entre a redenção do operário e o fetiche burocrático, uma linha do tempo que começa com o, digamos, Decreto Redentor de Nilo Peçanha, em 1909, e desemboca no expansionismo meritório dos anos 2000, para desaguar, enfim, no expansionismo demagógico da segunda década deste século (digo isso desde o início, como colegas e amigos do IFRN devem (ou deveriam) lembrar) e na secura de cofres que hoje guardam mais teias de aranha do que moedas.

O mestiço e oligarca Nilo Peçanha, com um bigode que impunha mais respeito que muito ministério atual, criou as Escolas de Aprendizes Artífices. O objetivo era quase uma caridade cristã travestida de política pública: dar aos “desvalidos da sorte” o consolo de um ofício. Eram apenas 19 escolas, uma em cada capital. O currículo? Coisa rudimentar, talhada para o trabalho braçal que a República Velha exigia para não parecer tão mofada.

O que se seguiu foi uma marcha inexorável. Se o Brasil queria ser moderno, precisava de quem soubesse apertar parafusos sem espanar a dignidade, afinal o país se industrializava e era urgente produzir técnicos para as fábricas. O número de alunos, que na década de 1910 não passava de uns poucos milhares, começou a escalar. Veio a Era Vargas, e com ela as Escolas Industriais e Técnicas. O ensino profissional deixou de ser o “puxadinho” do sistema educacional para se tornar a espinha dorsal do projeto desenvolvimentista e, aí, o gráfico nunca soube o que era descer; era uma subida lenta mas firme – e de uma teimosia tipicamente brasileira. E aqui façamos justiça: a educação profissional sempre cresceu forte e com bom lastro; com o presidente Lula, ela ganhou velocidade de cruzeiro, pois o petista não apenas reformou, ele plantou escolas onde antes só havia poeira. Fez uma espécie de verão dos tijolos. A história, senhora atenta e irônica, gosta, porém, de cobrar juros altos.

Em 1909, com Nilo Peçanha, eram 2 mil alunos na educação profissional; em 1945, eram 50 mil; em 2002, 150 mil alunos. Crescimento vigoroso e concentrado nas capitais dos estados e em alguns poucos municípios do interior.

A criação dos Institutos Federais (IFs) em 2008 fundiu os antigos CEFETs em uma rede capilarizada. Foram criadas mais de 214 novas unidades, e o número de alunos saltou de cerca de 140 mil para mais de 350 mil. O orçamento era farto, e o investimento real batia recordes. Era o tempo das vacas gordas e dos laboratórios com cheiro de novo. Dilma Rousseff, numa inércia de inverno, continuou a expansão física e chegamos a cerca de 600 unidades; foi lançado o PRONATEC, que inflou os números de alunos para quase 1 milhão. Mas aqui, a ironia começa a mostrar os dentes: o Brasil adora inaugurar a placa, mas detesta pagar a conta de luz. A partir de 2014, o orçamento começou a sofrer de uma anemia perniciosa. Em valores nominais, o dinheiro parecia crescer, mas a inflação (o dragão que nunca dorme) começou a devorar o poder de compra. O investimento real estagnou e, depois, despencou e veio a glória da escassez. O sarrafo baixou. O número de escolas estabilizou-se (poucas inaugurações), mas o número de alunos continuou subindo por pura pressão social, superando 1,1 milhão. O orçamento, porém, foi submetido a uma dieta de fome. O teto de gastos tornou-se o carrasco da Rede Federal. Em valores reais (ajustados pelo IPCA), os Institutos Federais passaram a operar com menos dinheiro do que tinham uma década antes. É o laboratório sem reagente, o ônibus sem diesel, a escola com o teto chorando goteiras de desespero (alguém lembra do teto de biblioteca e de auditório aos pedaços?).

O retorno de Lula trouxe a promessa de 100 novos campi, elevando a rede para quase 800 unidades e mirando a marca de 3,1 milhões de matrículas (contando todas as redes), numa retomada, sob neblina, da velocidade Em 2026, o governo celebra a recomposição de verbas cortadas pelo Congresso (cerca de R$ 977 milhões) para evitar que as universidades e institutos fechem as portas. É um esforço hercúleo para tirar a rede da UTI, mas o orçamento real ainda luta contra o peso das dívidas passadas e o custo de manutenção de uma estrutura que dobrou de tamanho, mas não de recursos.

Imagem feita com auxílio de IA

O orçamento da Rede Federal sofre de uma doença crônica: a despesa obrigatória devora quase tudo. Desde o governo Dilma, o orçamento discricionário – aquele que realmente paga a conta de água e o reagente químico – tem sido menor, ano após ano, em termos de poder de compra. É a glória das estatísticas e a miséria dos laboratórios. Temos mais alunos, temos mais prédios bonitos com fachadas de vidro, mas o professor precisa escolher entre imprimir a prova ou comprar o pó de café (nem falemos como a as reitorias adoram sequestrar orçamento para organizar eventos de parceiros, presentear aliados com diárias e passagens, entre outros desvios que impedem o dinheiro chegar na ponta.

A educação profissional brasileira é hoje um gigante de muitos braços e pouca comida. Cresceu com uma fúria necessária, mas o descaso orçamentário transformou a rede em um transatlântico navegando com vapor de chaleira.

O Brasil nunca precisou tanto de técnicos (e olhe que os IFs formam muitos técnicos que nem se dispõem a ser técnicos), mas trata o orçamento dessas escolas como se fosse o troco do pão. É uma comédia de costumes na qual o progresso é convidado para o jantar, mas ninguém se dispõe a pagar a conta. E assim seguimos: com muitos diplomas na mão e pouco orçamento no bolso, assistindo ao futuro ser adiado.

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