Vozinha fechou a porta do Atlântico

por Sérgio Trindade foi publicado em 15.jun.26

O sujeito pode passar quarenta anos anônimo, defendendo bolas em campos perdidos entre ilhas, portos, ventos e mares. Pode atravessar Angola, Moldávia, Chipre, Eslováquia e Portugal sem que o mundo lhe preste atenção alguma. Pode envelhecer discretamente, enquanto os craques surgem, brilham, enriquecem e desaparecem como fogos de artifício. Chega um dia, porém, em que Deus resolve apontar um dedo. Esse dedo pousou, hoje, sobre Vozinha.

Seu nome verdadeiro é Josimar. Mas ninguém o conhece por esse nome. Em Cabo Verde, ele virou Vozinha porque foi criado pelos avós e passava a infância correndo para os braços deles depois das pancadas que levava nos jogos de rua. O apelido, que parecia destinado à zombaria, acabou virando quase um título de nobreza.

Pois bem, na tarde em que a Espanha apareceu pela frente, a lógica sentou-se na arquibancada e começou a chorar.

De um lado estava a Espanha, campeã europeia, dona da bola, do passe curto, dos comentaristas, dos algoritmos e do franco favoritismo. Do outro, Cabo Verde, um arquipélago perdido no Atlântico, estreante em Copas do Mundo e com uma população menor do que a de Natal-RN e que cabe, certamente, em alguns bairros de Madri. Um duelo que parecia escrito por um contador. No entanto, o futebol, ilógico como só ele sabe ser, tem horror à contabilidade.

A Espanha chutava. Vozinha defendia. A Espanha cruzava. Vozinha saía e catava. A Espanha cabeceava. Vozinha voava e espalmava. Até que a certa altura, os espanhóis começaram a experimentar um sentimento raro: o desespero. Afinal, o goleiro cabo-verdiano não era apenas um jogador. Era um fenômeno sobrenatural. Um santo de luvas. Um funcionário do improvável, quiçá do impossível, que a cada defesa produzia uma pequena rachadura na alma espanhola. O cronômetro avançava e os atacantes começavam a olhar para ele como os antigos marinheiros olhavam para os monstros do oceano.

Imagem feita com auxílio de IA

Vozinha tem quarenta anos. Quarenta. No futebol moderno, quarenta anos é uma idade em que muitos atletas já estão comentando partidas, abrindo escolinhas, reclamando da coluna ou dirigindo, do banco de reservar, algum time de futebol. Ele resolveu estrear numa Copa do Mundo. E não apenas estrear. Ele se tornou um dos jogadores mais velhos a debutar no torneio.

Imagino o diálogo dos espanhóis:

– Chuta.

Chutavam.

–  E agora?

–  Chuta de novo.

Chutavam.

E lá estava ele.

Aos quarenta anos, Vozinha transformou-se na muralha atlântica de Cabo Verde, um arquipélago que já foi, um dia, a fronteira oeste do oceano Mar Oceano, como assim se referiam os portugueses ao oceano Atlântico. Vozinha não fazia defesas espalhafatosas. Havia algo mais cruel. Ele defendia com naturalidade. Como quem fecha uma janela porque entrou vento. Isso é que mata. O goleiro que se debate inspira esperança. O goleiro tranquilo provoca terror.

Placar final: 0 a 0. Um desses empates que valem uma revolução. Um desses resultados que não entram para a estatística e, sim, para a memória. A Espanha teve a posse da bola, os chutes, os escanteios e os números. Cabo Verde teve Vozinha. E isso bastou.

Quando o árbitro encerrou a partida, não terminou apenas um jogo. Terminou uma longa viagem iniciada décadas antes numa rua de Mindelo, quando o menino pequeno que corria para a casa dos avós depois das pancadas teve, finalmente, seu encontro com a eternidade.

O futebol adora fabricar heróis improváveis, mas raramente produz um tão bonito. Porque Vozinha não venceu a Espanha. Fez algo mais difícil. Convenceu o mundo inteiro de que ainda existem histórias capazes de derrotar os favoritismos. E hoje, enquanto alguns milhões assistiam pela televisão, um arquipélago inteiro teve a sensação de que o Atlântico possuía um goleiro e que esse goleiro atendia pelo nome de Vozinha e ergueu-se como uma muralha, tornando o arquipélago inexpugnável.

Nós, os que nos tornamos seus netos durante os noventa minutos da peleja, passamos a segui-lo no mundo real – e no mundo virtual.

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