Quando o Rio Grande ainda era apenas um rumor de vento

por Sérgio Trindade foi publicado em 03.jul.26

Houve um tempo em que o atual Rio Grande do Norte não tinha cidade, nem fortaleza, nem estradas e nem estádio de futebol, que o pessoal do ludopédio gourmet chama hoje de arena. Não era estado, ainda era capitania e nem fora verdadeiramente conquistada. Era apenas um pedaço de costa onde o vento parecia conversar com o mar desde antes da memória dos homens. As dunas mudavam de lugar como quem muda de opinião, os rios corriam sem pedir licença, os mangues e lagoas tomavam conta do chão e as matas escondiam um país inteiro que os mapas europeus mal conseguiam imaginar. Os portugueses chamavam aquilo de posse; os franceses, de oportunidade. Os potiguares, índios que hoje devemos chamar de indígenas ou de povos originários simplesmente chamavam de casa.

A História, quase sempre, começa quando alguém resolve desenhar uma linha num mapa. A vida, entretanto, já acontecia muito antes disso e, na primeira metade do século XVI, Portugal descobriu que possuir uma terra era muito diferente de ocupá-la. O sistema de capitanias hereditárias, concebido para reduzir despesas da Coroa e acelerar o povoamento da América portuguesa, produziu resultados desiguais. Pouquíssimas prosperaram. Outras mal conseguiram sair do papel.

Ao norte de Pernambuco estendia-se uma imensa faixa de litoral onde a presença portuguesa era somente uma intenção, muito distante de ser realidade. Esse vazio tinha dono. Ou melhor, tinha muitos. Ali viviam os potiguares, conhecedores dos rios, das marés, dos ventos e dos caminhos invisíveis da mata. Sabiam onde a caça se escondia, onde a pesca era mais abundante e em qual época o pau-brasil oferecia a melhor madeira. Não precisavam de escrituras para reconhecer a terra como sua. Eles viviam naquilo que Lisboa imaginava como um império. Foi justamente esse vazio português que despertou o interesse francês.

Ao contrário dos lusitanos, os navegadores vindos da Normandia e da Bretanha não pretendiam, naquele primeiro momento, fundar cidades, erguer igrejas, instalar administrações permanentes ou montar grandes estruturas produtivas. Vinham atrás da madeira vermelha que, transformada em tinta, fazia fortuna na Europa. O pau-brasil tingia tecidos e, também, ambições.

Muito antes da fundação de Natal e muito antes da construção da Fortaleza dos Santos Reis, embarcações francesas já conheciam bem aqueles ancoradouros naturais. Algumas praias conservaram essa memória na própria geografia. Como lembram Eduardo Bueno e outros autores, ficaram registrados nomes como Porto Velho dos Franceses, Porto Novo dos Franceses, Rio dos Franceses, Baía dos Franceses e Praia do Francês, marcas discretas de uma presença que durante décadas pareceu natural na costa brasileira. Nelas os gauleses faziam um comércio sem cartórios, mas cheio de cumplicidades. Ofereciam facas, machados, espelhos, miçangas, tecidos, ferramentas metálicas e armas. Em troca recebiam toneladas de pau-brasil cuidadosamente cortadas pelos indígenas. A professora Fátima Martins Lopes resume essa relação com precisão ao afirmar que o escambo permitia aos franceses “explorar o pau-brasil com total apoio e trabalho dos Potiguara, e estes conseguiam utensílios, armas e prestígio social por estarem aliados aos estrangeiros”.

Era uma aliança construída sobre interesses comuns. Os portugueses enxergavam pecado onde os franceses viam apenas comércio. Os franceses não exigiam conversão religiosa, não construíam fortalezas e nem impunham autoridades permanentes, tampouco pretendiam transformar os indígenas em súditos. Essa diferença impressionou profundamente Câmara Cascudo, Frei Vicente do Salvador e outros cronistas da colonização. Capistrano de Abreu, com perspicácia, registrou: “Muitos franceses mestiçaram com as mulheres indígenas no Rio Grande do Norte, muitos filhos de cunhãs se encontravam já de cabelo louro…”. É uma imagem curiosa, pois muito antes de existir qualquer cidade portuguesa na foz do Potengi, já havia crianças de cabelos claros correndo entre cajueiros, lagoas, mangues e praias, sem imaginar que seus próprios corpos se tornariam testemunhas silenciosas de uma disputa internacional.

Os franceses sabiam conviver. Sérgio Buarque de Holanda observou que aqueles aventureiros andavam “em íntima promiscuidade com os grupos indígenas”, aprendiam sua língua, casavam-se com mulheres nativas e exploravam, em benefício próprio, a animosidade existente contra os portugueses. Não era altruísmo. Era estratégia e funcionava admiravelmente, pois enquanto Lisboa discutia tratados, burocracias e privilégios comerciais, os franceses faziam aquilo que qualquer comerciante inteligente faria: conquistavam primeiro a confiança das pessoas.

Portugal demorou a compreender o tamanho do problema e havia razões para isso. O pequeno reino português sustentava um império espalhado do Marrocos à Índia, passando pela África e pelo Oriente. Faltavam homens, dinheiro, armamentos, caravelas e naus para ocupar cada palmo da costa americana. Por isso, o Brasil, durante muito tempo, foi apenas uma das muitas preocupações da Coroa. Mas o vento muda e, quando mudou, percebeu-se que o Rio Grande deixara de ser apenas um ponto distante nos mapas e tornara-se a chave para a conquista do Norte do Brasil. E então a paisagem começou lentamente a perder a inocência, com o vento ainda soprando sobre as dunas, só que agora cheirando a pólvora.

O Rio Grande, meus três ou quatro leitores, nasceu importante sem saber.

Durante muitos anos, aquela estreita faixa de litoral pareceu aos olhos europeus apenas um intervalo entre Pernambuco e as terras desconhecidas do Norte. Quem a observasse do convés de um navio veria apenas dunas claras, rios desembocando no Atlântico e uma floresta que, de tão verde, parecia esconder todos os mistérios do mundo. Era difícil imaginar que aquele silêncio decidiria o futuro de boa parte da América portuguesa. A História, entretanto, gosta de esconder seus grandes acontecimentos em paisagens aparentemente tranquilas.

À medida que os engenhos de açúcar enriqueciam Pernambuco e Bahia, crescia também a preocupação da Coroa portuguesa. Não bastava produzir riqueza; era preciso protegê-la. Os ataques indígenas às povoações, quase sempre incentivados pela presença francesa, colocavam em risco uma economia que começava a sustentar o império ultramarino. Foi então que Lisboa percebeu que a conquista do Rio Grande era uma necessidade política. Gabriel Soares de Sousa já compreendera isso com rara clareza ao defender que a conquista da Paraíba – e, por consequência, do Rio Grande – serviria como um posto avançado destinado a proteger a lavoura açucareira de Itamaracá e Pernambuco, frequentemente atacada pelos potiguares aliados dos franceses.

Vista do mapa, a ideia fazia todo sentido. Vista da praia, porém, parecia quase impossível, porquanto os portugueses não enfrentarem apenas uma costa desconhecida e, sim, por encontrarem um território onde franceses e indígenas já haviam construído uma convivência de décadas. Enquanto os primeiros traziam mercadorias, armas e ferramentas, os segundos ofereciam aquilo que nenhum navegador europeu possuía: conhecimento da terra. Uma parceria de conveniência, ressalte-se, extremamente eficiente, conforme afiança o historiador Tarcísio de Medeiros ao observar que Jacques Riffault, comerciante oriundo de Dieppe, costumava fundear suas embarcações pouco ao sul da curva do rio Potengi, em local protegido contra ventos e ataques. A presença foi tão constante que a memória popular conservou o nome do lugar: Nau dos Refoles, mais tarde simplesmente Refoles, topônimo que atravessou os séculos.

É curioso como a geografia guarda aquilo que os documentos esquecem. Às vezes um nome de bairro sobrevive mais do que um tratado internacional. Naquele lugar chegavam tecidos, machados, espelhos, facas e mosquetes. Dali partiam toneladas de pau-brasil, peles, aves exóticas e tantas outras mercadorias capazes de despertar o apetite dos mercados europeus. Olavo de Medeiros Filho enumera esse comércio quase como quem faz o inventário de uma feira atlântica: fios, redes, cereais, pimenta, plantas medicinais, peles de onça, papagaios, macacos e saguis seguiam para além do oceano. Para um mar que parecia não conhecer fronteiras.

Lisboa insistia em acreditar que um tratado assinado décadas antes bastava para garantir a posse daquelas terras, enquanto os franceses nunca aceitaram essa lógica, contestando abertamente o Tratado de Tordesilhas e navegando pela costa brasileira como se a divisão do mundo decretada entre portugueses e espanhóis jamais tivesse existido. E para eles, frisemos, nunca existiu mesmo. Pandiá Calógeras registrou que a pressão francesa era tamanha que havia quem duvidasse se o Brasil permaneceria português ou acabaria incorporado ao domínio francês. Não era exagero, dado que em muitos trechos do litoral, os franceses eram mais conhecidos pelos indígenas do que os próprios portugueses. Era quase uma guerra entre duas coroas europeias pela confiança dos povos indígenas.

Os potiguares tinham razões para desconfiar dos portugueses. As notícias viajavam depressa pelas aldeias, muito antes de existirem estradas. Sabia-se que, mais ao sul, em Pernambuco, muitos indígenas haviam sido escravizados ou mortos durante a expansão da colonização. Uma estudiosa do assunto diz que a resistência existia porque os índios conheciam “as quebras das relações de troca” ocorridas nas regiões vizinhas e sabiam que mortes e escravidão se tornavam frequentes onde os portugueses se estabeleciam. Era uma memória construída pela experiência e pela propaganda. Quando surgiam velas brancas no horizonte, cada povo fazia sua própria leitura. Para alguns, significavam comércio; para outros, guerra.

A aliança franco-potiguar tornou-se suficientemente sólida para preocupar seriamente as autoridades portuguesas.

Imagem feita com auxílio de IA

Segundo o mapa elaborado por Jacques de Vaulx de Claye, em 1579, havia milhares de guerreiros potiguares distribuídos ao longo da costa e dos grandes rios. Nas margens do rio Potengi, nas proximidades da lagoa de Guaraíras, na região do Açu e entre o rio Paraíba e o rio Acaraú, prontos para enfrentar os portugueses. Os números talvez impressionassem qualquer estrategista europeu. E impressionavam ainda mais aqueles que precisariam desembarcar. Os potiguares estavam prontos para a guerra porque acreditavam que os portugueses vinham “assaltar” suas terras, capturar pessoas e impor o cativeiro, percepção que bastava para transformar cada enseada, cada rio e cada trecho de mata num campo potencial de batalha. Era uma guerra antes mesmo da guerra.

Enquanto o vento continuava passando pelas praias com absoluta indiferença, as tartarugas subiam para desovar, os cajueiros floresciam e os rios seguiam encontrando o mar, dois impérios europeus disputavam aquele pedaço de costa. Os portugueses daqui e d’além mar já não podiam mais ignorar que a conquista do Rio Grande deixava de ser apenas uma possibilidade e se transformava numa urgência. E, quando a História chega a esse ponto, o som das ondas costuma ser interrompido pelo estampido dos canhões.

Um dia o vento mudou de lado. Não de repente, afinal conquista alguma ocorre de repente. Ela vai sendo preparada muito antes do primeiro tiro, muito antes do primeiro forte, muito antes de a primeira pedra encontrar seu lugar definitivo. Primeiro muda o humor dos homens, em seguida mudam as decisões dos reis e só então mudam as paisagens. Foi exatamente esse o roteiro na capitania do Rio Grande, com a Coroa portuguesa reconhecendo, ao longo da segunda metade do século XVI, que já não bastava expulsar navios franceses de tempos em tempos. Era preciso ocupar definitivamente aquela costa, caso contrário o extremo norte da América portuguesa permaneceria como uma porta aberta para novos inimigos e invasores.

A situação tornava-se ainda mais delicada porque a conquista da Paraíba, alcançada em 1585 após anos de combates, não resolvera o problema, apenas deslocara o centro da resistência para o norte. Para Sérgio Buarque de Holanda, garantida a ocupação da Paraíba, abria-se naturalmente o caminho para a conquista da capitania do Rio Grande. O obstáculo, entretanto, permanecia o mesmo: a sólida aliança entre franceses e potiguares.

Em 1587 a Coroa portuguesa e seus prepostos nas América acreditaram que a Paraíba região finalmente estivesse pacificada. Ilusão. Poucos anos depois, uma armada francesa, composta por treze navios, reapareceu no litoral paraibano, desembarcou tropas e atacou as posições portuguesas, deixando evidente que a ocupação lusitana ainda era frágil e que o Rio Grande continuava servindo de base para os movimentos franceses. Sérgio Buarque de Holanda resume a gravidade da situação ao afirmar que aquela capitania “se convertera aos poucos em trampolim dos seus assaltos”. Do litoral do Rio Grande seria possível alcançar a Paraíba e Pernambuco, proteger as rotas para o Maranhão e abrir caminho rumo à Amazônia. A posição era estratégica para ser relegada a segundo plano e foi esse o momento em que Portugal deixou de enxergar o Rio Grande como um fim e passou a vê-lo como um meio. Conquistá-lo significava garantir o restante.

Enquanto os conselhos régios discutiam estratégias, o cotidiano seguia outro ritmo. Os potiguares percorriam trilhas abertas por inúmeras gerações. O vento varria as dunas como fizera desde sempre, apagando pegadas antes que alguém pudesse transformá-las em memória. Talvez por isso a História seja tão irônica. Por fazer os homens acreditarem que conquistam a terra, quando o correto, por vezes, seria reconhecer que a terra é quem conquista os homens.

Durante décadas, portugueses, franceses e indígenas foram obrigados a aprender as regras impostas pelos rios, pelas marés, pelos ventos e pelas secas. Quem ignorava a natureza dificilmente sobrevivia. Os mapas desenhados em Lisboa pouco valiam diante dos manguezais do Potengi ou das correntes traiçoeiras que protegiam a costa. Os franceses compreenderam cedo essa lição porque aceitaram aprender com os indígenas. Os portugueses demoraram mais porque vieram movidos pela ideia de construir um mundo novo, transplantando instituições, leis, igrejas, fortalezas e costumes. Como escreveu Câmara Cascudo em uma das mais belas sínteses da colonização, os franceses apenas comerciavam; já o português “vinha para ficar, criando ambiente, à sua imagem e semelhança, construindo fortes, plantando cidade, falando em leis, dogmas, ordenações e alvarás”. É nessa diferença de intenções que se encontra boa parte da explicação para a longa disputa pelo Rio Grande. Um buscava o lucro imediato; outro, o domínio permanente. Os potiguares, por sua vez, lutavam simplesmente para continuar vivendo onde sempre haviam vivido.

Durante muito tempo, a balança pareceu pender para o lado franco-indígena. A familiaridade dos franceses com os costumes locais, sua disposição para a mestiçagem e a ausência de pretensões colonizadoras imediatas facilitaram alianças que os portugueses jamais conseguiram estabelecer com a mesma intensidade. Nenhuma aliança, porém, resiste para sempre quando um Estado decide mobilizar seus recursos. E aos poucos, a monarquia portuguesa concentrou homens, embarcações, armamentos e experiência militar suficientes para alterar o equilíbrio de forças no litoral setentrional.

Não seria uma vitória fácil, nem rápida. Muito menos pacífica. Entretanto, o rumo dos acontecimentos já havia mudado e o Rio Grande deixava de ser um território disputado por comerciantes aventureiros para se transformar em prioridade da política imperial portuguesa. Daí em diante, a História deixaria de ser escrita apenas pelas ondas que chegavam à praia e pelo vento que varria as dunas. Passaria a ser gravada também na rocha. Isso só ocorreu quando surgiu, na barra do rio Potengi, uma fortaleza destinada a afirmar, diante dos homens e do mar, que Portugal pretendia permanecer. Pouco depois, nasceria uma pequena povoação que, sem que seus primeiros moradores pudessem imaginar, tornar-se-ia a capital da capitania.

Mas essa é outra história. É a história das muralhas, dos alicerces, das trilhas e das ruas. E essa outra história só veio depois do longo intervalo entre a cobiça europeia e a resistência indígena que nasceu. E quando veio ainda tinha nome definitivo. Provavelmente o velho vento das dunas, testemunha indiferente de toda essa disputa, continue soprando até hoje para lembrar que as maiores conquistas não começam nas batalhas e, sim, quando alguém decide que um pedaço de terra precisa ser conquistado para alargar o horizonte.

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