A República dos anões que medem gigantes

por Sérgio Trindade foi publicado em 17.jul.26

Uma estranha mania de nosso tempo é medir homens pela quantidade de manifestos que assinam, pelas palavras de ordem que repetem, pela adesão a causas escolhidas por uma patota que se apresenta como progressista e virtuosa e pelos comícios imaginários que fazem da própria biografia. O talento, a competência, a eficiência e a eficácia passaram a ser insuficientes. A exigência é que apresente um certificado ideológico ou credenciais ideológicas impecáveis, segundo os ditames da patota de plantão. Não basta pintar bem, escrever bem, ser um cientista ou um acadêmico preciso ou jogar futebol como um deus. É preciso, antes e acima de tudo, caber no altar das virtudes escolhidas pelos sacerdotes do momento.

Foi assim que uma jornalista militante das causas pretensamente nobres resolveu sentenciar, com a solenidade de quem distribui absolvições e condenações, que “Messi é um homem minúsculo fora e um gênio dentro de campo.” É uma frase bonita, daquelas que parecem profundas enquanto atravessam estúdios de rádio e televisão, mas que murcham assim que encontram a realidade, porque a realidade, meus três ou quatro leitores, é que a senhora jornalista insiste em não lembrar que Lionel Messi atravessou mais de vinte anos de vida pública sem escândalos pessoais relevantes, sem agressões, sem vícios transformados em espetáculo, sem filhos abandonados, sem guerras particulares contra o próprio corpo. Casou-se com a namorada da infância, criou uma família discreta, ajuda instituições beneficentes, evita fazer da própria intimidade um reality show permanente. Se isso é ser um homem minúsculo, talvez esteja faltando aumentar o dicionário, não o cidadão.

Para a comentarista, Maradona transcendia o futebol também fora de campo, enquanto Messi, apesar de ser um gênio dentro das quatro linhas, não possui o mesmo peso simbólico e político de Maradona. Ora, a comparação com Maradona beira o curioso, para não dizer o ridículo. Dentro de campo, ambos pertencem ao Olimpo. Cada geração, entretanto, escolhe o santo de sua devoção. Uns preferem o drible insolente do garoto de Villa Fiorito; outros, a precisão quase matemática do rosarino. É matéria para mesas de bar, não para tribunais morais. Fora das quatro linhas, porém, a balança pesa diferente. Maradona foi um personagem gigantesco, sem dúvida, mas também foi um homem tragicamente dominado pelos próprios demônios. Drogas, relações turbulentas, filhos reconhecidos tardiamente, amizades com ditadores de estimação, uma existência permanentemente em combustão. Era um vulcão humano. Transformar esse tormento em superioridade moral exige uma alquimia intelectual que faria corar até os antigos sofistas gregos.

A justificativa é ainda mais engenhosa: Maradona “transcendia” politicamente. E desde quando simpatias políticas transformam alguém em homem maior? Se fosse assim, o tamanho moral de um indivíduo dependeria do palanque onde resolvesse subir. Bastaria posar ao lado do revolucionário correto, repetir os slogans adequados e receber o carimbo da intelligentsia esportiva. A biografia seria lavada em praça pública, como roupa num riacho. É uma lógica confortável e, sejamos sensatos, profundamente seletiva e malandra.

Imagem feita com auxílio de IA

Messi escolheu outro caminho. Nunca pareceu interessado em desempenhar o papel de profeta civilizacional. Preferiu fazer aquilo que milhões de pessoas esperavam dele: jogar futebol de maneira praticamente sobrenatural. Foi quase o mesmo caminho de outro deus: Pelé (mas isso é assunto para outro momento).

Há uma certa arrogância moderna em desprezar a discrição. O sujeito que não grita opiniões sobre todos os assuntos vira automaticamente pequeno. O silêncio tornou-se suspeito; moderação, quase um defeito de caráter. Não ocorre aos novos inquisidores que talvez exista alguma grandeza justamente em quem recusa transformar cada microfone numa tribuna e cada rede social numa missa política. Nem todo gênio precisa discursar para ser gigante. Aliás, os verdadeiros gigantes provavelmente sejam exatamente aqueles que compreendem os limites do próprio talento. Messi jamais prometeu salvar a humanidade. Prometeu apenas tentar vencer partidas de futebol e cumpriu a promessa com uma fidelidade quase obsessiva.

Sobra uma ironia deliciosa nisso tudo. Chamam de pequeno um homem cuja maior ambição pública foi jogar bola e viver discretamente. Chamam de grande quem fez da própria vida um romance tumultuado porque suas posições políticas agradavam aos comentaristas certos. É uma escala curiosa de valores. Talvez o homem minúsculo não seja aquele que evita fazer discursos e, sim, quem enxerga a existência humana apenas pelo estreito buraco da ideologia, sendo, por isso, incapaz de admirar a virtude silenciosa e de só reconhecer a grandeza quando ela vem acompanhada de bandeiras e palavras de ordem. Mais, e quando os aplausos partem da própria patota.

Milly Lacombe e sua turma é daquele grupo que olha para um gigante e diz: “É pequeno.” O problema, quase sempre, não está na altura do gigante. Está na régua do observador.

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