Ave, Messi!
Algumas profissões não são mais reverenciadas. Os alunos já não se levantam quando o professor entra na sala, os fiéis discutem com o padre, os eleitores chamam os políticos por apelidos pouco elogiosos, os médicos são desacreditados. O mundo atual, em suma, democratizou a insolência.
Há um lugar, no entanto, onde a reverência continua viva, robusta e até saudável: a seleção argentina treina com Lionel Messi ou quando entra em campo ao lado dele.
Vi as imagens do jogo contra a Argélia e me lembrei de uma observação do jornalista Alex Medeiros, um dos maiores admiradores do craque argentino. Alex chamou atenção para algo que os números não registram, as estatísticas não medem e os comentaristas raramente destacam. Não é apenas o que Messi faz. É o que acontece ao redor dele. Sim, porque Messi não é somente um jogador, tornou-se um fenômeno gravitacional. Bola, adversários e os próprios companheiros em torno do gênio nascido em Rosário.
Nos treinos, antes das partidas, durante os jogos e depois deles, percebe-se uma espécie de respeito silencioso, quase religioso. Não é subserviência e nem medo. É algo mais raro. É reconhecimento. Os jogadores argentinos olham para Messi como os discípulos olhavam para o mestre que já realizou todos os milagres possíveis e, mesmo assim, continua distribuindo pães, peixes e dribles.
Contra a Argélia, ele deu mais uma demonstração disso. Enquanto alguns atletas envelhecem como automóveis usados, fazendo ruídos estranhos e precisando de manutenção constante, Messi envelhece como vinho. Ou como certos tangos. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica explicar sua permanência no topo.
A cena se repete. O sujeito recebe a bola, o estádio prende a respiração, os companheiros abrem espaço, os adversários apertam a marcação e ele faz alguma coisa que ninguém havia imaginado. É quase um ritual litúrgico.
Messi não lidera pelo grito e nem pelo exemplo. Messi lidera pela existência. Ninguém precisa dizer aos colegas que estão diante de uma lenda. Eles sabem. Aliás, talvez o aspecto mais impressionante seja justamente esse: a naturalidade com que os jogadores argentinos convivem com o extraordinário.

Imagem feita com auxílio de IA
Imagine trabalhar diariamente com alguém que já ganhou praticamente tudo. Imagine dividir o vestiário com um homem que se tornou personagem de livros, documentários, murais e conversas de bar, de sala de professores, de redações em todos os continentes. Imagine ser lateral-direito e ouvir do técnico “Toque para o Messi” e descobrir que essa orientação resolve metade dos problemas táticos da equipe. Qualquer pessoa ficaria intimidada. Mas os jogadores argentinos parecem ter encontrado um equilíbrio curioso. Tratam Messi com carinho, admiração, respeito e veneração, sem transformá-lo numa peça de museu.
Ele continua sendo o capitão e companheiro, o sujeito que participa das rodas de conversa e que treina com todos. Mas basta a bola rolar para a hierarquia reaparecer. E é aí que a observação de Alex Medeiros ganha força. O culto existe. Um culto discreto, elegante e espontâneo, daqueles que não exigem ajoelhamentos ou incenso. É um culto construído pela repetição de prodígios.
A cada passe impossível, a cada arrancada improvável, a cada passe que desafia a geometria e a cada gol que parece ter sido desenhado antes numa folha invisível, os companheiros sabem que estão vivendo algo que seus netos perguntarão um dia: “Era verdade mesmo?”, “Era tudo isso?”. E eles poderão responder: “Era.” Poderão contar que treinaram com Messi, que dividiram vestiário com Messi, que ouviram os estádios mudarem de volume quando Messi tocava na bola, que viram adversários experientes se comportarem como torcedores ocasionais e que as todas as torcidas queriam vê-lo jogar.
Dirão mais, que o mais impressionante não era a habilidade, nem os títulos, nem os recordes e, sim, a sensação permanente de estar diante de alguém que transformava o futebol em algo simples e mágico ao mesmo tempo. Como um violinista que nunca erra a nota ou como um mágico que revela o truque e, ainda assim, continua surpreendendo ou como certos gênios que aparecem de tempos em tempos para lembrar aos mortais que a excelência absoluta existe. E, quando existe, até profissionais acostumados à glória aprendem a contemplá-la em silêncio.