A sala de aula, a linha de montagem e o balcão de satisfação

por Sérgio Trindade foi publicado em 08.set.26

Estou em sala de aula há bem mais de três décadas e percebo, nos últimos dez ou quinze anos, um aviltamento da docência sem paralelo. Algumas palavras entraram na escola com a delicadeza de um elefante numa cristaleira: cliente, aprendente e por aí vai. Antes, o estudante era estudante. E o professor era professor.  Agora não, a coisa mudou de figura e, provavelmente, com as melhores intenções. Aquelas das quais o inferno está cheio.

Não restam dúvidas de é preciso ouvir o aluno, afinal ele não é um móvel da sala de aula, nem uma carteira com pernas, nem um número de matrícula esperando pacientemente que alguém lhe despeje conhecimento sobre a cabeça. Ele participa, pergunta, contesta, aprende. Deve ser ouvido. Até aí, tudo certo. Mas, quando, como e por que ele deve ser ouvido?

A escola moderna, depois de tantas décadas denunciando o velho modelo fabril e militar, aquele em que se fabricavam alunos em série, todos devidamente alinhados, uniformizados e calibrados para produzir resultados semelhantes, descobriu uma maneira mais elegante de controlar: pedindo satisfação. Uma mudança extraordinária, porque antes o aluno tinha de se adaptar à escola. Agora, a escola precisa adaptar-se ao aluno. E, se possível, adaptar também o professor.

O professor que ensina com rigor é um sujeito perigoso. Pode contrariar, reprovar, exigir leitura, fazer uma pergunta difícil, dizer que determinada resposta está errada e, horror dos horrores, dar nota baixa. Tudo isso já foi considerado parte natural do ofício, hoje, porém, pode ser entendido como mau atendimento.

O professor será avaliado menos por sua competência, pelo domínio do conteúdo, pela capacidade de ensinar, pela qualidade da pesquisa ou pela seriedade do trabalho, mas também e principalmente pela capacidade de não desagradar. O aluno gostou? Excelente. A família gostou? Melhor ainda. Ninguém reclamou? Maravilha. A aula foi boa.

A pergunta é: boa para quem?

O professor começa a compreender, nos dias de hoje, certas coisas que não aparecem nos manuais pedagógicos. Aprende que uma nota pode provocar reunião, que exigência gera reclamação, que cobrança mais firme será quase sempre interpretada como falta de empatia e que o conflito não é mais uma consequência possível do ensino, mas um risco administrativo. Faz as contas e decide: não ensinará aquilo que sabe que precisa ensinar e, sim, aquilo que sabe que será aceito. A diferença parece pequena, mas é enorme, porque conhecimento não é sobremesa de restaurante, não é aquilo que agrada ao paladar. No entanto, meus três ou quatro leitores, professor precisa sobreviver e, no seu interior, começa uma negociação silenciosa: diminui a exigência, facilita a prova, flexibiliza-se a nota, desidrata o conteúdo emagrece, marginaliza (perdoem-me o trocadilho) a disciplina e, assim, a autoridade pedagógica vai sendo embrulhada em papel de presente, para não ferir ninguém, para satisfazer a hipocrisia reinante.

O aluno recebe uma experiência mais confortável e a instituição conserva seus índices de retenção, a família não se aborrece e o professor evita problemas, enquanto a educação, que deveria formar espíritos livres, vai saindo pela porta dos fundos, sem fazer barulho. E, ironia das ironias, tudo isso ocorre paralelamente à explosão de menções à saúde mental, riscos psicossociais e ambientes de trabalho saudáveis. Sim, a escola que diz se preocupar com ensino, protege equivocadamente o aluno, exige cada vez mais do professor, obrigando-o a sorrir enquanto administra diariamente o medo.

É difícil imaginar ambiente saudável onde o trabalhador precisa escolher, todos os dias, entre aquilo que sua consciência profissional manda fazer e aquilo que sua instituição prefere que ele faça.

Imagem feita com auxílio de IA

Ouvir e respeitar o o aluno é necessário e indispensável. Transformá-lo em soberano absoluto da sala de aula é outra coisa. Submeter o professor à ditadura de sua aprovação é apenas trocar uma forma de autoritarismo por outra. A escola não pode ser quartel tampouco ser transformada em shopping center, no qual o aluno é consumidor e o professor vendedor de facilidades. Aprender, quem lida com educação deveria saber, é doído. Exige esforço e, quase sempre, obriga o sujeito a descobrir que estava errado.

Uma das funções mais nobres da educação é ensinar que o mundo não existe para confirmar aquilo que pensamos. Uma escola que precisa agradar o tempo inteiro acaba não ensinando quase nada que possa desagradar. Uma sociedade que tem medo de desagradar seus estudantes talvez esteja preparando uma geração perfeitamente satisfeita com a própria ignorância.  No presente todos poderão festejar a vitória – de Pirro, enquanto erguem um monumento à estupidez.

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