A miséria não recebeu o discurso

por Sérgio Trindade foi publicado em 27.set.26

Sem pedir licença, sem conferir a conta e falando alto, algumas frases entram para a política. Aquela segundo a qual a miséria teria sido quase abolida do Brasil é uma dessas, pois ela tem a solenidade de uma proclamação e a delicadeza de um chute na porta, conforme dizem os números do IBGE.

O IBGE tem o defeito de, apesar de seu chefe de plantão, de não participar de comício. Não bate palma e não se emociona com palanque. Fica ali, paciente e diligentemente, contando pessoas, rendimentos, famílias, percentuais, e, de vez em quando, produz números que atrapalham a poesia politiqueira. Fiquemos, primeiro, com o que os números dizem de bom. Em 2024, a extrema pobreza caiu de 4,4% para 3,5% da população. A pobreza caiu de 27,3% para 23,1%. Foram cerca de 1,9 milhão de pessoas a menos na extrema pobreza e 8,6 milhões a menos na pobreza. São reduções importantes.

Mas aí aparece a palavra: eliminou. Ah, meus três ou quatro leitores, a palavra! A palavra é bem maior que o fato. O fato cabe numa tabela do IBGE. A palavra ocupa o palanque inteiro. E palanque em ano de eleição é o que há de mais mentiroso.

Vejam bem: 3,5% e 32,1% não são zero. A miséria e pobreza podem ter diminuído, mas continuam presentes, substancialmente presentes, na vida brasileira. E quem diz isso é o IBGE, com sua brutal falta de imaginação eleitoral.

Há ainda uma pequena tragédia semântica nessa história: o Brasil gosta da média. A média é uma criatura elegante, que veste terno e frequenta estatísticas. E o que diz? O rendimento médio real domiciliar per capita chegou a R$ 2.264 em 2025. É um número real, oficial, legítimo. E média, porém, é perversa. A estatística sorri e esconde o indivíduo. Não mostra que o sujeito que conta moedas continua contando moedas.

Há um número ainda mais eloquente que a média: na distribuição de renda de 2025, os 40% a 50% mais pobres tinham rendimento médio domiciliar per capita real de R$ 1.311. Para os 30% a 40% mais pobres, eram R$ 1.027. Para os 20% a 30%, R$ 791. Para os 10% mais pobres, R$ 268.

Não é necessário transformar esses números em melodrama, porque eles já são melodrama. A pobreza caiu. A extrema pobreza caiu. O rendimento cresceu e a desigualdade também recuou em 2024. Mas melhorar não é eliminar e diminuir não é extinguir. Existe diferença entre dizer “reduzimos a miséria” e dizer “eliminamos a miséria”. A primeira frase conversa com os números, enquanto a segunda precisa passar por cima deles, porque os números estão no caminho. E quem isso é o próprio IBGE: a pobreza atingia quase um em cada quatro brasileiros. É muita gente para ser confundida com ninguém.

Imagem feita com auxílio de IA

O pecado original de certas narrativas políticas é transformar uma melhora real numa vitória absoluta. Como se o sujeito que saiu da pobreza tivesse desaparecido junto com a pobreza. Como se o cidadão que ainda está lá não tivesse direito sequer à estatística.

A miséria brasileira não morreu. Só recuou. Ela continua nas casas onde o rendimento per capita é pequeno e na família que divide pouco dinheiro entre muitas bocas. Continua onde R$ 1.311 por mês precisa pagar comida, transporte, roupa, remédio, luz, gás e alguma esperança.

A miséria, meus três ou quatro leitores, não lê discurso, não assiste a propaganda e não sabe quem ganhou a eleição. Ela simplesmente permanece, calma e aguardando quem realmente a enterre.

Anotem: antes de enterrarmos a miséria, seria conveniente perguntar onde está o cadáver. Porque o IBGE ainda não o encontrou.

***

Se Lula e o PT, useiros e vezeiros na arte de acabar com que o nunca acabaram, tivessem feito o que dizem, donde surgiram os milhões de pobres, muito pobres e miseráveis do país?

Em 2018, o culpado era Michel Temer; entre 2018 e 2022, era Jair Bolsonaro. Para Lula e o PT, somente eles – Lula e o PT – podem resolver o problema. Em matéria de promessa é o que temos para o momento. Voltamos ao mesmo discurso de 2002-2003. A questão é que de 2003, quando Lula assumiu o governo federal pela primeira vez, a 2026, quando Lula tenta emplacar o seu quarto mandato, tivemos doze anos de Lula e seis de Dilma, ou seja dezoito anos em vinte e quatro. E continuamos ouvindo a mesma conversa fiada.

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