A História cobra, mas Lula não paga e a apaga

por Sérgio Trindade foi publicado em 03.nov.26

Escrevi há uns cinco ou mais anos um texto sobre as como as dificuldades enfrentadas por alguns governos os obrigam a tomar medidas amargas para consertar os rumos da economia, pagam caro (perda de popularidade) por isso e dificilmente colhem os frutos das medidas implantadas. O assunto me chamou a atenção, pela primeira vez, em 2003, quando Lula assumiu a Presidência da República, após oito anos de governo de Fernando Henrique Cardoso, o qual fez uma transição exemplar, e alguns meses depois passou a gritar que recebera uma herança maldita.

Ali pensei, pela primeira vez o quão injusto pode ser, a curto e médio prazo, fazer o certo e entregar de bandeja, para o adversário, a casa para ser dilapidada. Somente a longo prazo, grandes estadistas assim serão reconhecidos.

O meu pensamento inicial, o qual mantenho até hoje, é que Fernando Henrique Cardoso está para Lula como Castello Branco está para Médici.

Imagem feita com auxílio de IA

Karl Marx, ao examinar o golpe de Luís Napoleão, deixou uma sentença que atravessou os tempos: a história se repete, primeiro como tragédia; depois como farsa. Não me atrevo a garantir que o filósofo alemão tivesse sempre razão, mas há uma coisa que ninguém poderá negar: a história brasileira tem uma predileção quase obscena por reprisar seus espetáculos, mudando apenas o as casacas e os paletós dos personagens e a decoração do palco.

As duas grandes festas de crescimento econômico a que assistimos nos últimos sessenta anos apresentam semelhanças que chegam a constranger. O chamado milagre do general Médici, nos anos 1970, e o milagre do operário Lula, na primeira década deste século, foram erguidos sobre altares muito parecidos, embora cada um tenha seu santo de devoção e nenhum dos dois pareça disposto a repartir o andor com o outro.

Durante quase todo o segundo reinado de Lula, fui obrigado a ouvir os turíbulos da imprensa, incansáveis na tarefa de incensar o carisma do antigo torneiro mecânico. Era um homem que, na falta de diploma universitário, dispunha de uma língua bem treinada e de uma extraordinária habilidade para farejar as oportunidades políticas. Antes de prosseguir, pontuo: penso que Lula é um dos maiores animais políticos que este país já teve, um homem de uma capacidade política intuitiva extraordinário.

Com os instrumentos acima citados (língua afiada e bem treinada e a extraordinária habilidade para farejar as oportunidades políticas), Lula chegou ao Palácio Planalto. Enquanto assistia àquela cerimônia de adoração, lembrei-me de duas figuras que a nossa crônica política conhece muito bem: o general Emílio Garrastazu Médici e o velho caudilho Getúlio Dornelles Vargas. Houve quem tentasse apresentar Lula como um Vargas redivivo. Não era. A comparação não resistia a um exame menos apressado. O figurino econômico que vestiu o petista – e lhe assegurou imensa popularidade – não saiu dos alfaiates do getulismo. Foi cortado, na verdade, nos gabinetes do governo Médici. Basta colocar os dois períodos lado a lado para perceber que as coincidências não são poucas nem discretas.

Médici e Lula chegaram à cadeira presidencial depois de um período doloroso, mas necessário, de arrumação das contas públicas. O general recebeu o terreno preparado por Humberto de Alencar Castello Branco, o primeiro general-presidente, passando pela administração Costa e Silva e pela junta militar que afastou o vice Pedro Aleixo. Lula encontrou a casa em ordem depois dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, que, por sua vez, dera continuidade ao eficiente trabalho de Itamar Franco, vice que assumiu a titularidade após o impeachment de Fernando Collor.

Costa e Silva acendeu o pavio da euforia econômica no final dos anos 1960, mas foi Médici quem desfrutou das flores durante seus cinco anos de governo. Lula chegou a Brasília para administrar um país que, livre da febre inflacionária há quase uma década, começava a caminhar sobre trilhos. O general de Bagé e o sindicalista de Garanhuns tinham, portanto, uma dívida considerável com os antecessores. Lula devia a FHC; Médici a Castello. Sem a faxina financeira e o aperto de cinto promovidos pelo governo Castello Branco, o milagre econômico de Médici teria sido pouco mais que uma miragem no cerrado. A lógica econômica também vale para Lula. Sem a vigilância e os ajustes da administração FHC, a prosperidade petista dificilmente teria ultrapassado os limites de um voo de galinha. O ambiente político de hoje, tomado por paixões pouco afeitas à inteligência e por bofetadas verbais distribuídas entre as facções da praça, não deixa muito espaço para a racionalidade. De um lado e de outro, emocionados e vigaristas intelectuais tratam de levantar cortinas de fumaça diante do público. O propósito é simples: esconder o ponto em que termina o mérito de Lula e começa a herança recebida de Fernando Henrique.

É claro e evidente que governo algum é uma reprodução exata do anterior. Há governos, porém, que conservam as fundações construídas pelos antecessores e há outros que devem quase tudo àqueles que os precederam. Alguns têm a decência de reconhecer a dívida. Outros, mais afeitos às conveniências da política, preferem cuspir no prato em que comeram. Não consta que Médici tenha procurado negar os dividendos deixados por Castello Branco, embora os dois pertencessem a correntes adversárias dentro da caserna. Médici era da linha-dura; Castello integrava a turma dos moderados. Nem por isso o general gaúcho precisou fazer de conta que a herança recebida não existia, até porque, mesmo que desejasse, Médici não teria como apagar a obra de Castello. Teve de recebê-la, utilizá-la e, de algum modo, reconhecê-la. Convém registrar que Castello foi um dos poucos governantes brasileiros que não tomaram a popularidade como bússola para suas decisões. Também não precisava. Não chegara à cadeira presidencial pelo voto popular, mas pela coronhada de uma intervenção militar que havia rasgado a Constituição.

Uma vez instalado no poder e com as rédeas do governo firmemente nas mãos, Castello resolveu olhar para o estado de calamidade das finanças da República. Seria preciso muita má vontade, ou uma dose extraordinária de desonestidade histórica, para negar que a economia brasileira, em 1964, estava na UTI. O país caminhava para a falência, não conseguia crédito externo, enfrentava uma inflação superior a 80% ao ano e tinha seu empresariado paralisado diante da desordem econômica. Para conter essa hemorragia, Castello convocou dois homens experimentados nas artes da economia: Octavio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos. Para a esquerda, eram entreguistas de carteirinha. Para o governo, eram os homens encarregados de abrir a caixa-preta das finanças e cumprir uma ordem bastante prosaica: arrumem a casa.

A dupla Campos-Bulhões, recebida com deferência pelos banqueiros e conhecedora dos meandros da máquina pública, produziu um calhamaço de mais de duzentas páginas. Chamava-se Programa de Ação Econômica do Governo. Para os íntimos, e para os adversários (PAEG). O diagnóstico não exigia grandes habilidades de interpretação. A inflação devorava o país porque a demanda havia se transformado num animal desgovernado, alimentado pelos déficits do Estado e pela facilidade excessiva de crédito concedido ao setor privado. Para cobrir os rombos, a máquina de fabricar dinheiro trabalhava dia e noite. O resultado era conhecido: salários corroídos, mercado em desordem e investidores sérios procurando outros lugares para colocar seu dinheiro, greves, etc.

Chamados de entreguistas, vende-pátrias e serviçais do Fundo Monetário Internacional (FMI), Campos e Bulhões receitaram um tratamento amargo, mas bem menos brutal do que aquele que Washington gostaria de impor. Em lugar de uma cirurgia de emergência, optaram por administrar o remédio aos poucos. Era o gradualismo, uma palavra que costumava provocar urticária nos impacientes e ranger de dentes nos que desejavam resultados para ontem. A mezinha monetarista, detestada pelas viúvas do governo Jango, acabou mostrando serviço. O gradualismo de Campos e Bulhões amortizou o impacto, preparou o terreno e deixou a estrada aberta para o espetáculo de crescimento que viria com Costa e Silva e alcançaria seu ponto mais alto durante o governo Médici.

Lula perdeu duas eleições para Fernando Henrique Cardoso (e uma para Fernando Collor de Mello), ambas com derrotas no primeiro turno, sem que isso abalasse o mito de seu carisma invencível. Venceu em 2002 e 2006, mas precisou, nas duas ocasiões, disputar o segundo turno. A crônica oficial, entretanto, preferiu atribuir sua popularidade ao chamado charme pessoal, como se a simpatia de um presidente fosse capaz de sobreviver muito tempo sem uma moeda estável no bolso do contribuinte e comida a preços razoáveis na mesa do trabalhador. Foi o trabalho persistente de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso que finalmente cortou a cabeça do dragão inflacionário. Durante vinte anos, aquele bicho havia devorado o salário dos trabalhadores, corroído a economia e transformado qualquer tentativa de planejamento do futuro numa espécie de exercício de adivinhação.

O Plano Real nasceu durante o governo Itamar Franco, depois da tempestade política que derrubou Collor, mas ganhou consistência quando Fernando Henrique deixou o Ministério das Relações Exteriores, assumiu a Fazenda e colocou seu prestígio político a serviço da nova moeda. Foi ali, no balcão do Ministério da Fazenda, que FHC encontrou o passaporte para o Palácio do Planalto. Com o Real debaixo do braço, derrotou Lula, que liderava as pesquisas, e venceu a eleição no primeiro turno. Quatro anos depois, repetiu a proeza diante do mesmo adversário, novamente sem precisar de uma segunda rodada.

A garotada que hoje ronda os trinta e poucos anos não tem a menor ideia do inferno que foi a inflação brasileira entre os anos 1970 e a metade da década de 1990. Os mal-intencionados, os desinformados, os desonestos e os velhacos preferem dar de ombros ao trabalho de Fernando Henrique. Fazem de conta que não enxergam que boa parte das fundações do Brasil moderno foi assentada naquele período. Até mesmo os companheiros de partido de FHC, no PSDB, comportaram-se com a gratidão de um credor diante de um cheque sem fundos e trataram de esconder o defunto. A História, porém, não costuma aceitar esse tipo de expediente. Os créditos do Plano Real têm endereço certo: Fernando Henrique Cardoso.

O próprio FHC contou em suas memórias que seu plano era deixar o Ministério da Fazenda e disputar uma cadeira de deputado federal. Considerava perdida a possibilidade de voltar ao Senado. Foi o Real que o ressuscitou politicamente. O intelectual vindo das fileiras da esquerda orgânica, que parecia estar de malas prontas para a aposentadoria, acabou transformado no candidato natural das forças da centro-esquerda a centro-direita à Presidência da República.

Durante seus anos de governo, especialmente no primeiro mandato, Lula não alterou uma vírgula dos fundamentos do Plano Real. Isso apesar de seu partido ter feito o diabo para impedir a aprovação do plano quando ele ainda estava no berço. Foi montado sobre a estabilidade herdada e o saneamento anterior das contas públicas que o ex-sindicalista surfou na onda da bonança. Cuidou de apagar o nome do antecessor e apresentar como obra exclusivamente sua os louros daquele pequeno milagre econômico dos anos 2000.

Ao voltar ao poder para o mandato de 2023 a 2026, Lula recuperou seu antigo gosto pela gastança. Passou a esticar a corda das contas públicas até o limite das exceções fiscais, testando a paciência dos mercados a cada orçamento aprovado. Agora, recém-reeleito para o período de 2026 a 2030, resta saber qual dos dois Lulas ocupará a cadeira presidencial: o governante pragmático do primeiro mandato, disposto a respeitar as metas fiscais e os limites de gastos que sustentaram o Plano Real, ou teremos o gastador contumaz, aquele que prefere deixar a conta para o sucessor e sair de cena antes que o garçom apareça?

A resposta a esta pergunta foi o que defendi desde 2016, quando a oposição fustigou incansavelmente Dilma e levou-a ao impeachment. Para mim, Dilma, culpada ou inocente do crime de responsabilidade, deveria terminar o mandato.

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