A feira das vaidades e a falência moral da conveniência
Acompanhei com particular interesse a campanha política do estado de Pernambuco, por alguns motivos: gosto muito de Recife e do sertão pernambucano, minha namorada faz trabalhos de consultoria no estado, eu prestei alguns serviços no estado e conheci, de passagem, em Caruaru, a governadora Raquel Lyra.
Desde 1978 – quando passei, com meu falecido pai, a frequentar comícios em Natal, acompanho política com interesse – poucas vezes vi uma campanha para governador tão bonita e que despertasse tanto entusiasmo quanto a de Raquel Lyra. Aqui no Rio Grande do Norte, a que mais se aproximou disso que vi em Pernambuco, só a de Geraldo Melo, em 1986.
O que vi ao longo da campanha de Raquel e o que começo a perceber agora, consolidada a vitória inquestionável dela, em primeiro turno, é nauseante e reforça a impressão negativa que tenho da máquina montada e pilotada por João Campos.
Ocorre algo no cenário político nacional – mas derivado da mesquinhez regional – um espetáculo estarrecedor de hipocrisia e que não pode passar incólume aos olhos da nação. É mais uma demonstração nefanda e nefasta de como a conveniência eleitoral suplanta os princípios e devora a coerência. O espetáculo que se desenrola em Pernambuco é o retrato pronto e acabado da cupidez e da falta de escrúpulos de um grupo político que transformou o exercício da vida pública em um balcão de negócios vis e desavergonhados.

Imagem feita com auxílio de IA
Durante meses a fio, a máquina de propaganda da esquerda pernambucana, capitaneada por João Campos, Marília Arraes e outros, empenhou-se numa sanha inquisitorial sem precedentes, com um único objetivo: empurrar a governadora Raquel Lyra para a vala comum do bolsonarismo, estigmatizando-a e buscando excluí-la do debate civilizado. Para esses corifeus do oportunismo, a posição soberana e altiva de neutralidade mantida por Raquel não passava de heresia. Não toleravam a independência, exigiam a subserviência ou decretavam a excomunhão da governadora. Um audácia que fez os áulicos do oligarquismo arrastarem, contra a prudência e o bom senso, ao palanque eleitoral regional o próprio presidente da república. Isso mesmo, a tropa jagunça trouxe Lula a pulso para Pernambuco, ignorando os riscos e hostilizando abertamente uma gestora estadual que buscava apenas governar sem se dobrar às amarras do sectarismo. Detalhe: em julho estava razoavelmente estabelecido que Lula não apoiaria João Campos no primeiro turno (https://veja.abril.com.br/politica/dirigente-do-pt-diz-que-lula-nao-deve-ir-a-pernambuco-apoiar-joao-campos-no-1o-turno/). No último terço de setembro, o grupo de João Campos renovou a pressão para que o presidente fosse ao estado para dar uma força à campanha (https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/campanha-de-joao-campos-tenta-convencer-lula-a-visitar-pernambuco/) e Lula cedeu (https://valor.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/25/lula-faz-ato-ao-lado-de-joao-campos-no-recife.ghtml)., amarrando-se ao plano de liquidar a fatura nas urnas e esmagar qualquer pretensão de autonomia da governadora. De quebra, pensava Lula, Pernambuco poderia ajuda-lo a resolver a peleja presidencial sem precisar prestar contas ao povo pernambucano.
Pois bem, veio o domingo das urnas e a soberba foi fragorosamente derrotada. Raquel foi reeleita pela vontade soberana do eleitor, enquanto o projeto hegemonista da frente política oposicionista ruiu diante do julgamento popular. E o que vemos no dia seguinte? Qual é a reação dessa súcia de pragmáticos sem doutrina? Num movimento que chega a ser melancólico, murcho e profundamente inconveniente, os mesmos detratores de ontem acotovelam-se hoje nas portas do palácio governamental, aqueles que passaram meses a carimbar a governadora com labéus ideológicos, agora rastejam em busca do seu apoio para salvar uma candidatura presidencial cambaleante diante da ameaça das urnas (https://www.metropoles.com/colunas/igor-gadelha/aliados-de-lula-entram-em-campo-para-convencer-raquel-lyra-a-apoiar-petista; https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/caio-junqueira/eleicoes/lula-manda-emissarios-mas-raquel-lyra-rejeita-apoio-no-2o-turno/; https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/nao-vou-declarar-apoio-a-presidente-da-republica-diz-raquel-lyra.shtml; https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/raquel-lyra-nega-palanque-lula-pe-segundo-turno-eleicao/).
A pergunta que ecoa nas praças e exige resposta límpida é uma só: se Raquel era o demônio bolsonarista até a véspera da votação, por que razão o seu abraço virou hoje o troféu mais cobiçado da praça? Ela não mudou uma linha de sua postura. Não alterou seu discurso nem renegou suas convicções. O que mudou, com o estalar da necessidade urgente, foi a conveniência do Partido dos Trabalhadores e do presidente Lula, maior eleitor do Nordeste sem dúvida, mas hoje ameaçado pela onda oposicionista nacional, a qual junta ao bolsonarismo descontentes de vários matizes.
É uma falência moral estarrecedora a que revela a alma de uma facção para quem as palavras não têm sentido, os rótulos não têm verdade e as acusações são meros estiletes descartáveis. O PT e seus satélites em Pernambuco (e no resto do Brasil) precisam aprender, à custa de duras derrotas, a lição mais elementar da política: escolhas têm consequências. A história não se encerra no apagar das luzes de um pleito e os descontentes não desaparecerão do mapa após o segundo turno. A sanha de transformar em inimigo mortal aquele que amanhã poderia ser indispensável é o sintoma acabado da falta de alfabetização política. A conta do sectarismo cego, da vilania calculada e do opróbrio gratuito chega sempre mais cedo do que supõem os incautos. O povo assiste a tudo e saberá dar o troco definitivo a essa pequenez política sem caráter, sem honra e sem rumo.