O Nordeste, o Brasil e o futuro da esquerda sem Lula

por Sérgio Trindade foi publicado em 11.out.26

O assunto deste texto tem me chamado a atenção desde que ouvi, em 1982, que a ditadura civil-militar perdeu as eleições nos grandes centros e manteve-se ainda altaneira nos grotões. Passei, mais de duas décadas depois, que o lulismo é mais forte nos grotões, especialmente os nordestinos.

Comecei a buscar os dados para escrever um artigo acadêmico e, pelo meio do caminho, resolvi escrevinhar aqui parte do que escreverei lá.

O Nordeste, do ponto de vista eleitoral, foi fisiológico e clientelista. Foi assim na República Oligárquica; foi assim pós-queda de Vargas e até 1965, quando as máquinas partidárias do PSD e da UDN davam as cartas; foi assim nos anos da ditadura civil-militar, quando ARENA e PDS mandavam na região; foi assim durante uma década e meia de Nova República, com a estrutura do PMDB e do PFL controlando os grotões; e assim permaneceu com a ascensão de Lula, em 2002.

Os nove estados, milhões de eleitores e uma história social de séculos couberam num curral eleitoral e há pouco mais de duas décadas o eleitor nordestino reza, em todas as campanhas presidenciais, pela cartilha lulista, a ponto de se dizer, sem qualquer contestação: “O Nordeste vota na esquerda”. E quando os números começam a contrariar a frase feita, procura-se imediatamente uma explicação moral: o eleitor mudou, foi enganado, ficou conservador, foi seduzido pelo discurso adversário. Como se o eleitor nordestino tivesse obrigação de permanecer eternamente agradecido ao coronel de plantão, esteja ele no município, na capital do estado ou na capital do país.

A coisa é um pouco assim, mas não é exatamente assim e, também, não é assim tão simples,

Lula venceu nos nove estados nordestinos em 2022 e voltou a vencer em 2026. Em termos absolutos, porém, alguma coisa se moveu. Foram 21,75 milhões de votos para Lula em 2022, contra 21,49 milhões em 2026. Flávio Bolsonaro, por sua vez, ampliou a votação de 8,78 milhões para 10,39 milhões. A vantagem lulista, que havia sido de aproximadamente 12,96 milhões de votos, caiu para 11,09 milhões. A diferença ainda é enorme, mas já não é a mesma. E a política, como ensina a boa ciência, se faz com resultados e, também, com tendências. Por isso, algumas vitórias parecem derrotas e algumas derrotas anunciam alguma(s) coisa(s) boa(s).

O primeiro sinal, não por acaso, talvez esteja no campo.

O Nordeste de hoje já não é exatamente aquele Nordeste que povoou os romances sociais do século passado, embora as desigualdades persistam e a pobreza continue sendo uma realidade brutal em largas áreas da região. O agronegócio avançou, a fronteira agrícola do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) alterou paisagens, investimentos, relações econômicas e expectativas. Soja, milho, algodão, pecuária, fruticultura irrigada, camarão tomaram o Nordeste. O sertão, que durante séculos foi descrito pela falta d’água, passou também a ser descrito pelo investimento. E quando a economia muda, a política raramente permanece imóvel. Isso é consenso entre economistas e cientistas políticas, dos marxistas aos liberais, é tese que nada tem de inédita. Sim, meus três ou quatro leitores, desde que Adam Smith escreveu a Riqueza das Nações, sabemos que as transformações na divisão do trabalho e nos sistemas de produção redefinem, quase por gravidade, o arranjo das instituições, dos costumes e das ambições humanas. Karl Marx, do seu lado da trincheira, deu a isso o nome clássico de infraestrutura: a economia como a base material sobre a qual se ergue a superestrutura política e ideológica de uma época. Se mudam as relações de produção, desabam as velhas fidelidades. Economistas e cientistas políticos contemporâneos – do liberalismo neo-institucionalista de Douglass North aos analistas do marxismo cultural – concordam, por caminhos distintos, em um ponto central: novas dinâmicas produtivas geram novos atores sociais e novos atores, meus três ou quatro leitores, recusam-se a operar sob velhas cartilhas. Quando o campo e o comércio do interior se dinamizam, a dependência direta da tutela estatal perde a exclusividade, cedendo espaço a novas urgências que a política tradicional insiste em não enxergar. Quando leio e ouço professores, alguns doutos doutores, lutando contra fatos e teorias consolidadas ou vomitando opiniões sem lastro factual ou teórico, entendo a crise pela qual passam as universidades e institutos brasileiros, incapazes de entender o dilema diante do qual nós estamos.

Uma transformação econômica não produz automaticamente uma transformação eleitoral, mas modifica os interesses que entram na disputa, cria grupos com novas demandas e altera a maneira como parte da população olha para o próprio futuro. O homem que ontem precisava exclusivamente de uma política de sobrevivência pode hoje querer estrada, crédito, segurança, internet, transporte, escola para os filhos e condições para ampliar um empreendimento. Pode até permanecer pobre, no entanto deixou de se enxergar apenas como pobre. Isso é uma diferença aparentemente pequena, porém pode ser politicamente enorme. E é precisamente nesse ponto que a velha política de classes começa a encontrar dificuldades. Antonio Gramsci percebeu que a disputa política não se trava apenas no terreno da economia, mas também no da cultura, dos valores e daquilo que uma sociedade passa a considerar desejável. Ora, meus três ou quatro leitores, o Nordeste vem experimentando uma transformação cultural talvez mais silenciosa que a expansão da soja ou da fruticultura, mas não menos importante, o crescimento das igrejas evangélicas e, com elas, a mudança de valores (segundo alguns, a consolidação ou a volta aos valores tradicionais).

Os números exprimem o que o cotidiano escancara. O Matopiba viu sua produção de grãos saltar mais de 80% na última década, convertendo o interior nordestino em um polo agroindustrial dinâmico que hoje movimenta dezenas de bilhões de reais por ano. Paralelamente, o mapa do empreendedorismo mudou de cor: a região já soma milhões de Microempreendedores Individuais (MEIs), refletindo uma massa de trabalhadores informais ou autônomos que passaram a gerir os próprios negócios. Na esfera cultural e religiosa, o movimento é ainda mais expressivo. Dados intercensitários do IBGE e mapeamentos do IPEA mostram que a proporção de evangélicos no Nordeste praticamente dobrou neste século, aproximando-se da marca de 30% da população regional e 22% do eleitorado, o que tornou a região, historicamente um bastião mais homogêneo do catolicismo nacional, viver uma recomposição silenciosa e acelerada. A expansão não ocorreu apenas pelas grandes capitais ou pelos templos suntuosos das vertentes neopentecostais. Deu-se também no capilarizado tecido urbano-periférico e nos médios municípios do interior, impulsionada por pequenas congregações autônomas que funcionam como centros de acolhimento social, rede de apoio mútuo e fomento ao empreendedorismo local. É uma presença cotidiana que oferece pertencimento onde o Estado falha e que molda, domingo a domingo, a gramática moral, os costumes e as expectativas de milhões de famílias nordestinas. Redes de pequenos negócios, acesso à conectividade móvel e novas sociabilidades comunitárias moldaram um ecossistema socioeconômico no qual o mérito individual e a autonomia financeira ganham relevância, criando e moldando um eleitorado cujas aspirações diárias superaram os limites assistenciais do passado (https://www.youtube.com/watch?v=pn_G9dvX0i0)

Essas duas mudanças – econômica e cultural – podem se reforçar. Sim, porque a pessoa que passou a trabalhar por conta própria, que abriu um pequeno empreendimento, que ascendeu economicamente ou que simplesmente passou a acreditar que pode melhorar de vida não olha necessariamente para o Estado com os mesmos olhos de antes. Ele continua querendo políticas públicas, mas não as mesmas, não as de sempre. Ele pode começar a desejar menos burocracia, mais segurança, impostos mais simples, infraestrutura e liberdade para empreender. Ao mesmo tempo, sua visão de mundo pode estar sendo moldada por comunidades religiosas nas quais família, disciplina, responsabilidade individual e costumes ocupam lugar central. E aqui não se trata de dizer que todo evangélico é conservador ou que todo conservador vota na direita. A política não é uma tabela periódica ou uma conta matemática. Entretanto, é impossível ignorar que valores relacionados à família, aos costumes, à segurança e à disciplina passaram a ocupar espaço maior na conversa cotidiana de parcelas importantes do eleitorado – e a esquerda percebeu isso tarde demais, provavelmente porque continuou conversando com um Nordeste que existiu, mas que deixou de ser o único Nordeste possível.

Há ainda uma consequência mais delicada dessas transformações. Qualquer pessoa que melhora de vida, mesmo modestamente, tem expectativa maiores que sua renda. E neste ponto, meus três ou quatro leitores, a política social, tão importante para reduzir a pobreza, encontra seu limite eleitoral, porque aquilo que antes era percebido como conquista passa, com o tempo, a ser percebido como piso.

Lembrem-se: em 2022, Lula prometeu picanha, cervejinha e viagem de avião. Eram promessas de prosperidade, e tais promessas carregam consigo um problema terrível: criam expectativa. E quando o sujeito pobre ou remediado ouve que vai comer melhor, viajar, comprar, melhorar de vida, ele não guarda a promessa na gaveta da memória e a leva ao supermercado, ao aeroporto e à mesa de jantar. Se a vida não corresponde à propaganda, a frustração aparece.

Não é uma questão de pobreza e sim de expectativa.

Tocqueville, em O Antigo Regime e a Revolução, observou que a revolução não eclodiu na parte da Europa onde a miséria era absoluta e a opressão era pior e sim na França, onde as condições econômicas estavam melhorando e os camponeses haviam conquistado certa liberdade e propriedade. É o Paradoxo de Tocqueville, que assim pode ser sintetizado: o descontentamento nasce da miséria absoluta e, também, da distância entre aquilo que as pessoas imaginam que podem alcançar e aquilo que efetivamente conseguem alcançar. A ascensão produz cobrança e não necessariamente gratidão política.  É provável que esteja ocorrendo isso em parte do Nordeste.

O Bolsa Família, os programas de transferência de renda e as políticas sociais continuam importantes, notadamente para os mais vulneráveis. Mas existe um limite político para qualquer governo que pretenda falar exclusivamente com o cidadão que precisa do Estado para sobreviver. Uma parcela crescente quer o Estado, sim, mas quer também que ele deixe de atrapalhar. É uma mudança de posição diante do Estado e, portanto, uma mudança de posição diante da política.

Imagem feita com auxílio de IA,

O Nordeste que votou em Lula e nos seus candidatos a presidente durante décadas não desapareceu. O que desapareceu, em certa medida, foi a sua homogeneidade eleitoral. A mesma região que continua reconhecendo no PT uma força capaz de representar os mais pobres também abriga trabalhadores, pequenos empresários, agricultores, evangélicos, produtores rurais e jovens urbanos cujas aspirações já não cabem inteiramente na antiga narrativa da esquerda. Isso explica parte do movimento, embora não explique tudo, porque há uma questão que os números da eleição recolocam sobre a mesa e que diz respeito menos ao eleitor nordestino do que ao próprio partido que durante anos tratou esse eleitor como seu aliado natural: Lula.

A esquerda brasileira construiu em torno dele uma extraordinária máquina eleitoral, mas pagou um preço por isso, porque por décadas Lula ocupou quase todo o espaço disponível para o surgimento de outras lideranças nacionais. Tornou-se, para usar uma imagem talvez exagerada, um buraco negro político. Sua força gravitacional é tão grande que atrai partidos, aliados, adversários e simpatizantes, mas também pode destruir, na aproximação, aquilo que poderia substituí-lo. Há exemplos para apontar. Ciro Gomes foi sendo afastado; Fernando Haddad jamais conseguiu transformar a proximidade com Lula em autonomia política; Eduardo Suplicy permaneceu uma figura respeitável, mas sem capacidade de disputar a liderança nacional; José Dirceu, o capitão do time em 2002-2003, pertence a outra dimensão da história petista. Outros nomes surgiram e desapareceram à sombra do líder.

O fenômeno expõe o clássico paradoxo da institucionalização sufocada pelo personalismo. Vários estudiosos se debruçaram sobre isso.

Max Weber dizia que a dominação fundamentada na atração extraordinária de um indivíduo encontra imensa dificuldade para se converter em rotina institucional impessoal. Aqui Weber se encontra com o John Kenneth Galbraith de A anatomia do poder, obra com a qual entrei em contato no início dos anos 1990. Para Galbraith, o poder condigno e o poder persuasivo, quando concentrados em uma única figura carismática, subjugam as estruturas ao redor. Ao subordinar o programa partidário à mística de seu fundador, o PT converteu Lula no eixo gravitacional absoluto de toda a esquerda brasileira, sufocando-a. As lições da teoria das elites de Gaetano Mosca e a implacável Lei de Ferro das Oligarquias, de Robert Michels, ajudam a decifrar o nó burocrático: mesmo nas organizações que nascem com bandeiras democráticas e populares, como pretensamente foi o caso do PT, uma pequena cúpula dirigente tende a se encastelar no comando, bloqueando a oxigenação interna e neutralizando qualquer projeto autônomo que ameace o status quo do grupo dominante. Qualquer dissidência passa a ser vista como traição orquestrada, cuja consequência imediata é a construção de um deserto de sucessão. Ao não permitir que a gramática da esquerda se desvinculasse de sua própria biografia, Lula garantiu vitórias conjunturais memoráveis, mas deixou o seu campo político sem herdeiros de estatura e sem alternativa estrutural para o momento em que a força da gravidade do líder deixar de operar.

O que ainda garante um alívio momentâneo, neste 2026, para Lula é que ele ainda venceu no Nordeste. Venceu, é fato, mas perdeu alguma coisa. Perdeu uma parcela da diferença, perdeu parte da antiga previsibilidade e, principalmente, recebeu um aviso.

Em 2030, pela primeira vez desde 1989, haverá uma eleição presidencial sem Lula na linha de frente ou na retaguarda imediata, emprestando seu nome, sua memória e sua força eleitoral ao candidato petista. Aí descobriremos se existia uma esquerda além de Lula. Também será o momento de descobrir se existe uma oposição além do bolsonarismo, porque esse é o outro lado da equação.

O crescimento de Flávio Bolsonaro no Nordeste pode significar mais do que a simples transferência de votos de Jair Bolsonaro para seu filho. Pode indicar a existência de um eleitorado que deseja alguma coisa diferente daquilo que a esquerda oferece, mas ainda não encontrou uma liderança capaz de transformar esse desejo em projeto nacional.

O Nordeste não virou de esquerda. como nunca foi de direita. Dizê-lo de esquerda ou de direita é uma simplificação. O Nordeste pode estar começando a deixar de ser previsível. Esta é, penso, a notícia mais importante desta eleição. O eleitor que durante anos foi tratado como território político pode estar descobrindo que é eleitor antes de ser território. E eleitor, quando percebe que pode escolher, costuma criar problemas para quem imaginava já ter escolhido por ele.

O voto nordestino, como todo voto, não tem dono.

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