O ocaso da cátedra
Começo o texto com um citação extraída de um dos grandes pensadores do mundo ocidental: “A política não tem lugar na sala de aula ou no recinto universitário. A tomada de posição política é uma coisa, a análise científica das estruturas e dos problemas políticos é outra.”
O triste espetáculo ocorrido, ontem, no campus central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde a realização de um ato de proselitismo político-partidário denominado UFRN Anti-Lula, descambou para empurrões e agressões físicas, manifesta de forma inequívoca e com singular nitidez, a moléstia que consome o espírito universitário no Brasil. Trata-se de um evento sintomático que expõe a completa adulteração do papel da universidade pública e a perda do rigor analítico em nome do engajamento político rasteiro.

Imagem feita com auxílio de IA
A conduta dos estudantes e militantes da direita que ocuparam o espaço acadêmico equipados com carros de som, bonecos infláveis e slogans de palanque revela um erro de diagnóstico. Imaginando combater a hegemonia ideológica que vigora nesses recintos, incorreram exatamente no mesmo erro e vício que pretendiam denunciar, a saber, a transformação do espaço universitário, a rigor um espaço de saber, em arena de agitação político-partidária e eleitoral. Ao levarem a esterilidade do comício partidário para locais nos quais ocorrem aulas, o grupo demonstrou incapacidade de conceber a universidade além da lógica de torcida e de domínio territorial, uma inversão de valores que encontra sua refutação definitiva na clássica conferência do sociólogo alemão Max Weber, A ciência como vocação, com a qual iniciei este mísero e miserável texto.
Weber foi categórico ao fixar a fronteira inegociável entre a reflexão acadêmica e a militância política. Dito de forma literal: “A política não é lugar para a sala de aula. (…) Quando se fala em um comício público sobre problemas políticos, a tomada de posição pessoal é um dever. As palavras que aí se utilizam não são instrumentos de análise científica, mas meios para conquistar os outros. São armas para abrir caminho. Mas no auditório de uma universidade, o uso da palavra é de outra espécie.” Para ele, a política de partido exige a adesão apaixonada, a simplificação doutrinária e o uso do slogan como instrumento de mobilização das massas, enquanto a ciência e o ensino universitário exigem a “ascese intelectual”, a neutralidade axiológica e o dever moral de apresentar ao estudante os fatos em sua incômoda complexidade. Há nítido contraste entre a praça pública (comício) e o espaço acadêmico. A linguagem da política partidária é instrumental/armada, enquanto a da universidade deve ser estritamente analítica. O lugar do proselitismo e da propaganda partidária, ensinou Weber, é a praça pública ou a tribuna política, jamais a cátedra ou o campus, pois quando a paixão militante invade a universidade, o pensamento crítico é sufocado pela arrogância de quem já se julga de posse de verdades absolutas.
Se o erro da militância de direita é evidente, a responsabilidade das instituições universitárias brasileiras é ainda mais grave. Há décadas, as reitorias e os órgãos colegiados demonstram conivência pusilânime com a partidarização de seus espaços. A complacência crônica com que sindicatos docentes, diretórios acadêmicos e grupos de militância transformaram dependências públicas em sedes informais de partidos, comitês eleitorais e palanques para panfletagem ideológica criou um ambiente de assimetria e intimidação. A leniência institucional em coibir o uso de prédios públicos para atos estritamente político-partidários abriu as portas para que a universidade perdesse sua imunidade funcional e se convertesse em mera extensão das disputas partidárias das ruas. Uma vez mis Weber: “O verdadeiro professor se guardará de impor do alto da cátedra qualquer tomada de posição ao seu ouvinte, seja abertamente, seja por insinuação. (…) É uma atitude muito pouco corajosa aproveitar-se de uma situação em que os ouvintes estão condenados ao silêncio para lhes impingir as próprias opiniões pessoais.”
A universidade pública não pode nem deve ser palco de militância político-partidária de qualquer coloração ideológica. Permitir que a paixão eleitoral substitua o rigor conceitual e o debate de ideias rebaixa o templo da ciência ao nível do tribalismo e da truculência. Por isso, o episódio ocorrido ontem na UFRN deveria servir de alerta (mas não vai, creio) como pontapé inicial para a restauração da dignidade acadêmica, para resgatar intransigentemente a vocação científica teorizada por Weber e para reafirmar que o único compromisso legítimo da universidade é com a busca honesta da verdade, o livre exame dos fatos e a clareza intelectual.