A sucessão de Cortez Pereira – parte 1
Entre os três governadores biônicos que comandaram o Rio Grande do Norte durante o regime militar — Cortez Pereira, Tarcísio Maia e Lavoisier Maia — nenhum chegou ao Palácio Potengi por caminho tão tortuoso, traumático e politicamente revolucionário quanto Tarcísio Maia. Se Cortez representou a conciliação técnica e Lavoisier a continuidade familiar, Tarcísio foi a ruptura. Sua escolha não apenas dividiu a ARENA: remexeu as entranhas do velho oligarquismo potiguar e expôs, talvez como nenhuma outra, a brutalidade silenciosa do processo sucessório sob a ditadura (http://blogdobarreto.com.br/category/reportagem-especial/).

Personagens da escolha do governador do Rio Grande do Norte, em 1974.
Essa história, pela densidade de personagens, interesses cruzados e reviravoltas improváveis, não cabe em um único fôlego. Por isso, precisa ser contada em partes. Nesta primeira, trata-se apenas do surgimento do nome de Tarcísio Maia, que, a rigor, não estava nos planos iniciais de quase ninguém, mas acabou se impondo quando todas as outras alternativas ruíram.
Os primeiros movimentos começaram ainda em 1973, nos bastidores da política potiguar, quando se tornava evidente que o mandato de Cortez Pereira se aproximava do fim. A sucessão, contudo, só ganhou corpo em 1974, ano em que o regime, já sob a presidência do general Ernesto Geisel, buscava administrar suas próprias fissuras internas. Se em 1970 o emissário fora Rondon Pacheco, agora caberia ao senador piauiense Petrônio Portela conduzir a delicada missão de ouvir, filtrar, negociar e, sobretudo, evitar que a ARENA se estraçalhasse em público.
Como seu antecessor, Petrônio Portela instalou-se no SESC, no centro de Natal, onde montou um gabinete informal. Ali ouviu de tudo: ambições explícitas, recusas estratégicas, denúncias anônimas e promessas de fidelidade que valiam até a próxima esquina. Saiu do Rio Grande do Norte levando uma lista com seis nomes: Antônio Florêncio, novamente Dix-Huit Rosado Maia, Geraldo Bezerra, Moacir Duarte, Osmundo Faria e Reginaldo Teófilo. Dali sairia, em tese, o futuro governador.
Cada grande liderança empurrava seus próprios candidatos. O senador Dinarte Mariz, ainda o homem mais poderoso da política potiguar, tentava emplacar dois nomes: o genro Moacir Duarte e o sempre presente Dix-Huit Rosado. O senador Jessé Pinto Freire, presidente da Confederação Nacional do Comércio, indicava Reginaldo Teófilo, então presidente da ARENA estadual. Cortez Pereira, por sua vez, carregava no bolso do paletó três opções: o deputado Antônio Florêncio, o secretário de Agricultura Geraldo Bezerra e, discretamente, Osmundo Faria, presidente do BDRN.
A disputa rapidamente descambou para um clima de guerra interna. O consenso tornou-se impossível, e o jogo passou a ser jogado no submundo do denuncismo. Dossiês começaram a chegar ao Palácio do Planalto, minando candidaturas e expondo a incapacidade da ARENA potiguar de se entender. O resultado foi uma reação dura do presidente Geisel, que convocou Cortez Pereira a Brasília para uma conversa tensa e pouco protocolar.
Segundo João Batista Machado, Geisel, visivelmente irritado, mandou “zerar a lista” e buscar outras opções. A sucessão havia se transformado, nas palavras do presidente, num “denuncismo antropofágico”. O puxão de orelhas foi direto: “Na escolha do senhor, o Rio Grande do Norte deu uma lição de unidade ao país. Agora, fez justamente o contrário.” Cortez saiu do Planalto com uma missão clara: pacificar o partido no estado. Nenhum nome, contudo, lhe foi indicado.
No aeroporto de Brasília, prestes a embarcar para o Rio de Janeiro, Cortez encontrou-se casualmente com Esdras Alves, que o cumprimentou com uma informação bombástica: o nome do futuro governador já estaria decidido: Osmundo Faria. Surpreso, Cortez disse desconhecer completamente a indicação, pois acabara de sair da audiência com Geisel sem qualquer sinalização nesse sentido. Esdras insistiu: a informação lhe fora repassada pelo deputado federal Grimaldi Ribeiro, e nela estariam as digitais do próprio Grimaldi e do ex-governador Aluízio Alves.
No Rio, o telefone não demorou a tocar. Do outro lado da linha, o senador Dinarte Mariz quis saber se procedia a conversa do aeroporto. Ao ouvir a confirmação, agradeceu secamente e desligou. Minutos depois, novo telefonema: agora era o ministro da Justiça, Armando Falcão. Disse ter falado com Dinarte, que confirmara a escolha de um candidato apoiado por Grimaldi Ribeiro e Aluízio Alves. A reação foi imediata e indignada: Aluízio, “proscrito pela Revolução”, não poderia participar de uma escolha que competia ao “Governo Revolucionário”. Antes de desligar, Armando Falcão sentenciou: “Dinarte merece respeito.”
Osmundo Faria sabia que, sem o aval de Dinarte Mariz, sua candidatura era frágil. Contava apenas com a simpatia tímida de Cortez Pereira. Precisava, portanto, de um padrinho forte. Encontrou-o por meio do empresário Gustavo Faria, sobrinho do general Dale Coutinho, então ministro do Exército. Paralelamente, tentou ampliar seu arco de apoios políticos, aproximando-se, via Grimaldi Ribeiro, do ex-governador Aluízio Alves, que, apesar de cassado, mantinha trânsito com figuras-chave do regime, como Golbery do Couto e Silva, Petrônio Portela e o senador João Agripino.
Dias depois, Petrônio Portela cruzou com Osmundo nos corredores do Senado e comentou, com ironia quase profética, que ele era um homem de muita sorte, pois contava com o apoio do ministro do Exército. A indicação foi confirmada no gabinete de Petrônio, na presença de Grimaldi Ribeiro, Ronaldo Ferreira Dias e do próprio Osmundo. O anúncio oficial seria feito em breve.
Dinarte Mariz, incrédulo, ouviu de Petrônio que a escolha estava feita. Revoltou-se. Não aceitaria um governador associado a Aluízio Alves. Orientado por Petrônio, decidiu apelar diretamente ao presidente Geisel. Enviou carta por intermédio do senador Vitorino Freire, que tinha acesso fácil ao Planalto. A mensagem foi bem recebida, mas não surtiu efeito: o padrinho militar de Osmundo ainda falava alto.
O anúncio estava marcado para 27 de maio de 1974. Tudo parecia resolvido quando o imponderável – esse personagem central da política brasileira – entrou em cena. No dia 25, o general Dale Coutinho morreu subitamente, vítima de infarto fulminante, zerando o placar (http://www.natalpress.com.br/site/colunistas/56-dalton-melo-de-andrade/3451-a-mesma-coisa-por-dalton-melo-de-andrade).
Sem o padrinho, Osmundo caiu. Surgiu então uma nova lista: Fernando Abott Galvão, Genário Fonseca e Tertius Rebelo. Foi nesse momento que Dinarte Mariz, rápido como poucos, incluiu um quarto nome: Tarcísio Maia. Para viabilizá-lo, buscou quem realmente decidia: Golbery do Couto e Silva. Informado da intenção, Golbery recebeu Dinarte, acertou os detalhes e abriu o caminho para o apoio de Cortez Pereira, que se mostrou receptivo ao nome do então presidente do IPASE.
Mas essa já é outra história, e merece ser contada à parte.