A burrice que pensa
O texto que segue é a versão original e expandida do que foi publicado no Diário do RN, de forma resumida, terça-feira da semana passada (07/04). Os elementos de filosofia e sociologia presentes nele foram excluídos do texto publicado no jornal porque não houve espaço para tal.
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Há algo de comovente e grotesco no debate público brasileiro. Não é a discordância que espanta, afinal discordar é salutar e civilizatório. O que espanta é a indigência mental travestida de opinião e, por que não dizer, a impressão persistente de que estamos diante de uma multidão que pensa com um cérebro coletivo de segunda mão, alugado e gasto, como se tivesse um defeito de fábrica e, ainda assim, usado com orgulho patriótico.
O brasileiro médio não entra numa discussão, invade. Não leva argumentos, leva reflexos condicionados. Não pensa, reage. Não interpreta, rotula. E o faz com a arrogância de quem jamais experimentou o benefício corrosivo da dúvida, pois duvidar exige leitura, e leitura, convenhamos, é atividade subversiva num país aonde a certeza vem antes da compreensão, como um dia disse Cláudio Moura Castro, em texto fulminante: Da arte brasileira de ler o que não está escrito. Sempre o utilizo em minhas aulas.
Se Ludwig Wittgenstein estivesse entre nós, talvez dissesse que o problema não está apenas no que se diz, mas nos jogos de linguagem que se é incapaz de jogar. O brasileiro médio participa de um único jogo – rudimentar e previsível – no qual todas as palavras já vêm com significados prontos, como peças de um brinquedo barato. E aquele que tentar mudar as regras será imediatamente acusado de trapaça intelectual, quando na verdade só está tentando pensar. É algo quase infantil.
Há, na cabeça nacional, uma tragédia anatômica que nem a medicina ousaria diagnosticar: dois neurônios. Apenas dois. E, para piorar o quadro clínico, foram batizados com nomes que soam profundos, quase filosóficos: burguesia e proletariado. São neurônios fatigados e desnutridos, que sobrevivem de sinapses repetitivas desde os tempos em que a barba espessa ainda funcionava como argumento teórico. Esses neurônios não pensam, duelam. De um lado, o neurônio burguesia, que rosna para tudo com um conservadorismo instintivo. Do outro, o neurônio proletariado, que responde com indignação automática, como um cachorro treinado para latir diante de qualquer movimento.
Entre um e outro, onde deveria haver pensamento, existe apenas um vazio constrangedor, um eco oco de frases ouvidas em podcasts, tweets, vídeos curtos, palestras de ocasião. É o reino da opinião reciclada, da ideia de segunda mão, do pensamento por procuração, do eco infinito. E é nesse deserto intelectual que floresce o fenômeno mais impressionante da vida pública brasileira, a saber, a capacidade infinita de reduzir o mundo a uma disputa de condomínio ideológico.
Tudo, absolutamente tudo, cabe nessa engrenagem miserável. Economia? Burguesia. Cultura? Proletariado. Educação? Burguesia explorando o proletariado. Tecnologia? Proletariado oprimido pela burguesia. Se surgir um tema novo (inteligência artificial, crise climática, biotecnologia, exploração espacial) não importa. Em poucos segundos, os dois neurônios entram em funcionamento e comprimem o universo numa caricatura binária. É a redução do real ao esquema mais primitivo possível: um ringue de ideias onde ninguém pensa, apenas repete golpes ensaiados.
Michel Foucault (perdoem-me a citação, mas ficarei nele para espezinhar a patota) reconheceria nisso um regime de discurso empobrecido, no qual não se busca a verdade, mas a reafirmação de posições previamente autorizadas. O sujeito não fala para compreender o mundo e, sim, para ocupar um lugar nele. E esse lugar já vem com um vocabulário pronto, uma gramática rígida e um conjunto de palavras permitidas e proibidas. O resultado é um teatro de certezas, no qual cada um recita seu papel sem jamais suspeitar que está apenas reproduzindo um script. E então ocorre o milagre às avessas: o desaparecimento da complexidade. O mundo, contraditório e resistente a simplificações, é triturado até caber numa equação mental de duas variáveis. Não há nuance, não há ambiguidade, não há conflito real de ideias, não há dúvidas, apenas e tão-somente a repetição mecânica de categorias mal compreendidas. Como diria Marshall McLuhan, o meio molda a mensagem e, no caso brasileiro, o meio é a pressa, a superficialidade, o vício da opinião instantânea e a vulgaridade. O resultado é uma comunicação que não comunica, apenas ecoa.

Imagem feita com auxílio de IA
O mais grave – e aqui está o busílis – não é a burrice. Burrice é um dado da condição humana, distribuída com generosidade pela natureza. O problema é a burrice orgulhosa, altaneira, militante e convicta de si mesma. É a ignorância que perdeu a vergonha. É o sujeito que não lê – ou, quando lê, lê mal (leiam o texto de Cláudio Moura Castro acima mencionado) – e ainda assim fala como se estivesse corrigindo os erros do universo. É aí que surge a figura mais perniciosa do ecossistema intelectual brasileiro: o semiletrado. Não é o analfabeto, que ao menos conserva a dignidade da ignorância reconhecida. É o leitor precário, o consumidor de fragmentos, o devorador de resumos. Leu a orelha do livro, um prefácio apressado, um fio de rede social, um parágrafo descontextualizado, e saiu por pelo mundo como um oráculo de rodapé.
Esse sujeito não entende o que lê, entretanto isso não o impede de proclamar verdades. Pelo contrário, o mal-entendido lhe confere uma segurança inédita. Ele transforma conceitos complexos em slogans, teorias densas em caricaturas, autores difíceis em mascotes ideológicos, A em B, B em C, C em D… Pierre Bourdieu explicaria: trata-se de uma forma grotesca de capital simbólico. O sujeito acumula citações mal compreendidas como quem coleciona medalhas, não para pensar melhor e, sim, para parecer mais inteligente do que é. Desta forma, seus dois neurônios – burguesia e proletariado – recebem uma alimentação constante de ideias mutiladas. Repetem-nas com entusiasmo bovino, com a alegria triste de quem acredita estar pensando quando, na verdade, apenas reproduz. O debate público, então, degringola de vez, tornando-se um espetáculo de simplificações grotescas, um carnaval de opiniões no qual cada um desfila sua ignorância como se fosse fantasia de luxo.
Jürgen Habermas sonhou com uma esfera pública baseada no diálogo racional, na argumentação, na busca compartilhada da verdade. O Brasil, com seu talento peculiar para o improviso, conseguiu produzir o oposto: uma esfera pública na qual ninguém escuta e ninguém aprende – e todos mantêm o que dizem, sem recuar um milímetro. Cada indivíduo fala sozinho, convencido de que está debatendo, quando apenas monologa em voz alta. Quem ousar apontar que a realidade é mais densa, mais contraditória, mais complexa e mais resistente a rótulos será imediatamente visto como suspeito, talvez até perigoso. Afinal, para quem só dispõe de dois neurônios, qualquer terceiro elemento já parece uma extravagância intolerável, quase uma afronta à ordem mental estabelecida.
O problema, meus três ou quatro leitores, não é só ideológico. É cognitivo. Falta leitura. Falta interpretação. Falta repertório. Falta aquilo que Sócrates considerava o ponto de partida de toda sabedoria: a consciência da própria ignorância. Falta a dúvida cartesiana. Mas essa virtude exige coragem, e coragem intelectual é artigo raro por estas bandas; o brasileiro médio prefere a ilusão da certeza à angústia da dúvida. O conforto da simplificação é melhor do que dor de pensar. Então, finca-se no grito e abandona a argumentação que exige reflexão.
E assim seguimos, produzindo debates que não passam de monólogos simultâneos, um coro de vozes solitárias, embaladas pela falsa erudição de burguesia e proletariado.