Seleção Brasileira de 1970: Saldanha e o rei Pelé não cabiam no mesmo banco
Já li e ouvi um monte de vezes que Nelson Rodrigues dizia ser toda unanimidade burra. Pelé, monstro genial, não é mais unanimidade – e isso confirma a frase do jornalista e teatrólogo, hoje uma quase unanimidade.
Assisti, entre quinta e sexta últimas, à minissérie Brasil 70: A Saga do Tri, recém-lançada pela Netflix, e saí dela com uma impressão dupla. De um lado, um deslumbramento quase infantil. De outro, uma irritação que me acompanhou até o último capítulo. É uma série que acerta muito quando recria o cheiro da época, o suor dos vestiários, os radinhos de pilha, os medos de uma geração e a atmosfera pesada dos anos de chumbo. Mas tropeça quando resolve transformar a História em uma espécie de campeonato de ficção.
Antes de tudo, justiça seja feita, Rodrigo Santoro, o nosso melhor ator, e Bruno Mazzeo têm atuações perfeitas.
Santoro oferece uma interpretação magnífica de João Saldanha. Não imita. Encarnou. Em diversos momentos parece que o velho jornalista saiu de uma fotografia amarelada para caminhar diante da câmera. Reproduz o jeito de falar, o sarcasmo, a arrogância intelectual e até aquele olhar permanente de quem estava pronto para comprar uma briga antes mesmo de saber qual era o motivo. Mazzeo também realiza um feito raro. Seu Zagallo não é caricatura. É Zagallo. Há momentos em que a semelhança impressiona. O espectador quase espera ouvir o treinador apontar o dedo para a lente e lembrar que tinha razão. Já Lucas Agrícola sustenta com dignidade o peso impossível de interpretar Pelé. E Marcelo Adnet funciona relativamente bem como narrador daquele universo futebolístico.
O problema começa quando a dramaturgia resolve mexer naquilo que já era suficientemente dramático na vida real.
Há uma lenda confortável segundo a qual João Saldanha teria caído exclusivamente porque era comunista e porque enfrentou o general-presidente Médici. A série parece seduzida por essa explicação simplificada. A História, porém, é mais complexa.
Saldanha era brilhante. Entretanto a Seleção por ele comandada não atravessava exatamente um mar de rosas, acumulando atuações que provocavam desconfiança. Havia conflitos internos, desgaste político, tensão crescente com jogadores importantes e, principalmente, havia o caso Pelé, o qual se inicia quando o técnico começa a insinuar que o maior jogador do planeta está ficando cego. Aí, a coisa inevitavelmente explode, afinal Pelé era o Pelé – e não somente um craque. Sim, meus três ou quatro leitores, estamos falando do homem que já tinha conquistado duas Copas do Mundo, que havia sido eleito o melhor do planeta e que carregava nas costas a esperança de um país inteiro. A ideia de que ele estava cego, ultrapassado ou incapaz de liderar a equipe parecia absurda até para quem assistia aos jogos sentado em arquibancadas de concreto.
Saldanha chegou a colocá-lo no banco em determinadas circunstâncias e a relação entre ambos se deteriorou rapidamente. Não era apenas um conflito de personalidades. Era um choque entre duas forças gigantescas que ocupavam o mesmo espaço. Quando isso acontece, alguém acaba cedendo.
A série, no entanto, parece interessada em transformar Saldanha num mártir absoluto e Pelé numa espécie de personagem secundário da própria biografia. Aí a ficção entra em campo e começa a driblar a realidade, até que em dado momento surge uma construção dramática que beira o inacreditável: Pelé sendo confrontado de igual para igual pelo jovem Paulo César. Ora, convenhamos. Paulo César era muito talentoso. Viria a construir carreira respeitável e merecedora de aplausos. Em 1970, porém, tinha dezenove anos. Dezenove. E Pelé um monumento nacional. Era como se um jovem tenente resolvesse ensinar estratégia militar a Napoleão Bonaparte. Como se um seminarista explicasse teologia ao Papa Bento XVI. Como se um aluno recém-chegado ao conservatório decidisse corrigir Beethoven.
A juventude tem coragem. Às vezes até insolência. Entretanto existe uma diferença entre ousadia e licença poética e a série parece esquecer que o vestiário da Seleção de 1970 orbitava em torno de Pelé. Não porque ele exigisse isso, mas porque a força da sua presença tornava isso inevitável.
Quando Pelé entrava em campo, os adversários mudavam seu sistema defensivo. Quando Pelé tocava na bola, estádios inteiros prendiam a respiração. Se sorria, o futebol sorria junto. Por isso algumas cenas produzem estranhamento. Não por serem impossíveis e, sim, porque parecem desconhecer a dimensão mítica daquele personagem histórico. Ressaltemos: o Pelé de 1970 não era uma promessa. Era uma instituição, uma espécie de patrimônio tombado da República.
Provavelmente o maior mérito da série seja justamente mostrar, ainda que involuntariamente, a dificuldade de representar um mito. O problema dos mitos é que eles desafiam a lógica dramática convencional. O roteirista precisa criar obstáculos para o herói. Precisa criar conflitos e tentar equilibrar forças. Mas como equilibrar forças diante de Pelé? Não há equilíbrio possível, simplesmente porque o sujeito era melhor do que a ficção. Tostão, o fenomenal craque da camisa nove daquela seleção prodigiosa, enalteceu a série, mas fez algumas ponderações, esclarecendo o que é verdade e o que é liberdade, em especial sobre Pelé: “A pressão feita por Pelé e outros jogadores para Zagallo me escalar não foi explícita como mostra a série “Brasil 70 — A Saga do Tri”, exibido pela Netflix. Se houve pressão, foi silenciosa, pelo olhar, nas entrelinhas e nas conversas ao pé do ouvido. Gerson, que jogava no Botafogo sob o comando de Zagallo, conversava muito com o técnico. Eu não fui até Zagallo para dizer que eu tinha de ser o titular, como mostra a série. (…) Diferentemente do que é mostrado, Pelé era um atleta consciente, equilibrado, bem-humorado e muito forte emocionalmente. Por isso e pelas condições físicas e técnicas era o Pelé, o maior da história. (…) A série é bem feita, prazerosa de se ver, emocionante, possui ótimos atores, com ótima reprodução dos principais lances e gols, mas há muitas cenas inventadas e sensacionalistas para dramatizar uma grande conquista esportiva.” (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/2026/06/novos-e-velhos-tempos.shtml).

Imagem feita com auxílio de IA
A produção possui qualidades que merecem aplauso.
A reconstrução de época é muito bem-feita. Os uniformes, os carros, os jornais, as transmissões esportivas e a atmosfera política foram recriados com enorme cuidado. A minissérie consegue transmitir algo essencial: a Copa de 1970 não foi apenas um torneio de futebol. Foi um acontecimento nacional, porque o Brasil vivia sob uma ditadura bastante dura, a repressão avançava e censura crescia e o governo compreendia perfeitamente o potencial simbólico daquela seleção. A relação entre futebol e política aparece como pano de fundo importante da narrativa. E aí reside outra ironia: a seleção de 1970 era boa demais para servir apenas como propaganda.
Governos passam. Gols ficam. Os generais desapareceram da memória popular muito mais rapidamente do que os dribles de Jairzinho, os lançamentos de Gérson, as arrancadas de Tostão, os passes de Rivellino e a genialidade assombrosa de Pelé.
O que sobreviveu não foi o regime. Foi o futebol, foi aquele gol de Carlos Alberto, foi aquela camisa amarela, foi aquele time que parecia ter sido desenhado por um poeta, foram os quase gols de Pelé, o deus de todos os estádios, como narrou maravilhosamente Jorge Curi.
Brasil 70: A Saga do Tri merece ser vista. Não porque seja perfeita, mas porque nos obriga a revisitar uma das maiores epopeias esportivas já produzidas por este país. E porque oferece atuações memoráveis de Rodrigo Santoro e Bruno Mazzeo, capazes de sustentar boa parte da narrativa mesmo quando o roteiro exagera nas licenças poéticas.
Ao término do último episódio, fiquei imaginando o que Nelson Rodrigues escreveria sobre tudo aquilo. Talvez dissesse que a série comete o pecado moderno de tentar humanizar excessivamente os heróis. Talvez lembrasse que certas figuras não pertencem mais à biografia, mas à mitologia. E talvez encerrasse com uma frase simples: “O problema de Pelé é que ele aconteceu de verdade.”
E a verdade, às vezes, parece menos verossímil do que a ficção.