A estrada de Lula e as pedras de Flávio

por Sérgio Trindade foi publicado em 11.jun.26

“Anotem aí, Lula ganhará no primeiro turno e Cadu será eleito governador do Rio Grande do Norte”, dizem os profetas do turno. É torcida, não análise. Na melhor das hipóteses, opinião – e só. Deveríamos saber todos, mas há muita gente que confunde alhos com bugalhos.

Para saber como andam, em cada momento de uma campanha (ou, por ora, pré-campanha como exige a hipocrisia nacional), o único instrumento válido é uma pesquisa eleitoral feita com base nos melhores métodos estatística. Ainda assim, já disse em outros textos, pesquisa eleitoral é registro de um instante. Uma fotografia. Que desperta especulações sobre o futuro. Nem sempre o retrato revela o destino dos ali presentes. Contudo, entretanto, todavia, imagens que falam por si e a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada ontem, 10 de junho de 2026, parece uma dessas fotografias eloquentes, com os números mostrando o presidente Lula caminhando em marcha batida rumo ao segundo turno.

Não é ainda a consagração definitiva, tampouco a coroação antecipada que alguns desejam enxergar, mas é uma vantagem consistente, construída em terreno onde a política brasileira costuma ser traiçoeira e imprevisível.

No principal cenário testado pela pesquisa, com treze candidatos, Lula aparece com 39% das intenções de voto. O senador Flávio Bolsonaro, herdeiro político mais visível do bolsonarismo, surge com 29%. Dez pontos de distância; margem suficiente para produzir inquietação nos adversários e tranquilidade moderada nos aliados. Atrás dos dois, o cenário é de dispersão. Renan Santos e Ronaldo Caiado têm 3%, Aécio Neves 2% e Romeu Zema têm 2%. Augusto Cury, Joaquim Barbosa e Samara Martins aparecem com 1% cada. Brancos, nulos e os que afirmam não votar somam 9%; os indecisos chegam a 10%. Cabo Daciolo, Edmílson Costa, Heró Bezerra e Hertz Dias não pontuaram.

Imagem feita com auxílio de IA

A fotografia ganha contornos ainda mais eloquentes quando observada pelo ângulo do segundo turno. É ali que as eleições presidenciais brasileiras costumam revelar sua verdadeira natureza (o único candidato presidencial a resolver a peleja no primeiro turno foi Fernando Henrique). Por duas vezes, em 1994 e 1998. Em ambas batendo Lula.

Na eleição presidencial deste ano Lula aparece, no segundo turno, em situação confortável. Contra Flávio Bolsonaro, alcança 44%, contra 38%. A diferença de seis pontos chama atenção pelo tamanho e, principalmente, pela evolução, visto que na pesquisa anterior a distância era de apenas um ponto. A disputa apertada transformou-se em vantagem perceptível. Nos demais cenários, Lula também vence. Contra Romeu Zema, marca 45% contra 35%; contra Ronaldo Caiado, repete os mesmos 45% a 35%; diante de Renan Santos, alcança 45%, deixando o adversário com 31%.

A leitura política desses números parece relativamente simples. Lula chega à metade de 2026 ocupando uma posição que todo candidato deseja: lidera o primeiro turno e vence em todos os cenários de segundo turno testados. Há um detalhe importante, porém, que a pesquisa revela e que merece atenção dos observadores menos apressados.

Embora o desempenho eleitoral do presidente seja favorável, a avaliação de seu governo ainda não alcançou o ponto que transformaria vantagem em quase certeza. A aprovação e a desaprovação aparecem em empate técnico, enquanto a avaliação negativa segue ligeiramente superior à positiva (48% contra 47%). Na política brasileira recente, presidentes que buscaram renovar seu mandato ou eleger seus sucessores sempre encontraram terreno mais seguro quando a avaliação positiva superava claramente a negativa. É uma espécie de colchão eleitoral. Quando a população acredita que o governo vai bem, a tendência natural é premiar quem está no comando. Por isso, o dado mais relevante para Lula talvez não esteja exatamente nas intenções de voto, mas na possibilidade de inverter essa relação nos próximos meses. Se a avaliação positiva ultrapassar a negativa de forma consistente, a liderança eleitoral ganhará musculatura adicional. A campanha deixará de depender apenas das fragilidades dos adversários para apoiar-se também na força do governo.

É justamente no campo adversário que surge outro elemento importante da pesquisa: Flávio Bolsonaro continua sendo o nome mais forte da direita nacional. Nenhum outro candidato conservador se aproxima de seus números. As últimos semanas, entretanto, não foram gentis com sua trajetória. O vazamento das conversas envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro produziu um desgaste evidente. Episódios assim não precisam destruir uma candidatura para produzir efeitos relevantes. Basta que retirem parte da fluidez, da espontaneidade, da segurança e da confiança com que o candidato se movimenta. E foi exatamente essa impressão que ficou. O episódio atingiu a desenvoltura política de Flávio, criando ruídos num momento em que sua principal tarefa era ampliar pontes para além do eleitorado bolsonarista tradicional. Ainda assim, seria precipitado decretar seu enfraquecimento definitivo. Os mesmos números que registram a vantagem de Lula mostram que Flávio continua sendo o principal representante da direita brasileira. Seu eleitorado permanece robusto, sua presença no segundo turno continua provável e sua posição dentro do campo conservador segue praticamente incontestada.

A pesquisa oferece duas notícias simultâneas, para Lula e para Flávio:

  • A candidatura de Lula navega em águas relativamente tranquilas. Ele lidera no primeiro turno, vence no segundo e observa a oposição enfrentando dificuldades.
  • A de Flávio, apesar das turbulências recentes, continua sendo a única capaz de concentrar as esperanças eleitorais da direita.

A pesquisa Quaest não encerra a eleição. Está longe disso. Eleição presidencial é romance longo, não conto curto. Possui capítulos inesperados, personagens que entram sem convite, reviravoltas que desafiam os prognósticos dos especialistas e grandes doses de suspense. Mas se a fotografia tirada entre os dias 5 e 8 de junho serve para alguma coisa, ela mostra um Lula caminhando à frente da procissão e um Flávio tentando recuperar o passo depois de tropeçar em algumas pedras do caminho.

Até outubro, muita água ainda passará sob a ponte. Por ora, é Lula quem, de posse da lanterna, ilumina a estrada.

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar