O apito também joga?
Por onde ando ouço gente dizendo que a Argentina chegou aonde chegou, na Copa, graças à arbitragem amiga. Não sei se chega a tanto, mas há um gostinho de camaradagem, dos homens de preto, com os nossos vizinhos continentais.
No meu tempo de peladeiro ou de torcedor engajado, quando um sujeito perdia o jogo, primeiro olhava para o próprio time. Se o centroavante chutou para fora sem goleiro, azar. Se o zagueiro entregou a rapadura, paciência. Mas sempre existiu uma figura que carregava pecados alheios nas costas: o juiz. Hoje ele ganhou um sócio engravatado, escondido numa cabine cheia de telas a quem chamam de VAR. Parece nome de remédio, daqueles que provoca mais dor de cabeça que enxaqueca.
De uns tempos para cá, a conversa sobre jogos de futebol deixou de ser apenas futebol. Nesta Copa não tem sido diferente. Em mesa de bar, programa de televisão, rádio, internet e fila de supermercado, o assunto é outro. Tem gente jurando que a arbitragem resolveu vestir azul e branco. Há quem diga que é conversa de perdedor procurando desculpa. No meio desse tiroteio de opiniões, a bola continua sendo o objeto menos discutido.
As reclamações ganharam força depois de decisões que incendiaram o torneio da FIFA. A expulsão do suíço Embolo virou assunto em tudo quanto é canto. Houve também quem reclamasse de gols anulados dos adversários da Argentina e de lances em que possíveis pênaltis a favor dos rivais nem passaram por revisões que convencessem o público. E ainda teve aquele lance de Messi pisando o argelino, na primeira partida da Argentina. Era ou não era lance para expulsão? Por que o VAR não se manifestou? Pronto. Tudo isso é mais do que suficiente para parir uma teoria atrás da outra, cada qual mais barulhenta.
Não estou aqui para dar sentença. Juiz de futebol já basta o que anda correndo pelo gramado. No entanto, não dá para exigir que o torcedor desligue a desconfiança quando vê decisões difíceis acontecerem sempre no mesmo roteiro. Futebol vive de paixão, e paixão não conhece tribunal. Ela enxerga um carrinho e já decide se foi bola ou crime contra a humanidade.

Imagem feita com auxílio de IA
O curioso disso tudo é que inventaram o VAR para acabar com a polêmica. Venderam a ideia como quem anuncia máquina de lavar roupa: aperta um botão e sai tudo limpinho, quase sequinho. O resultado não tem sido dos melhores. Por vezes, tem ido exatamente na direção contrária. Hoje a discussão dura mais. Antigamente o bandeirinha errava em dois segundos. Agora o erro, ou o acerto, leva minutos, meia dúzia de câmeras, linhas coloridas, conversa no fone e uma coreografia de braços apontando para um monitor. A tecnologia conseguiu o milagre de fabricar dúvidas em alta definição, enquanto o torcedor faz o que sempre fez – desconfia.
Os argentinos acham que estão perseguindo sua seleção. Os europeus juram que ela está sendo carregada no colo. O brasileiro olha atravessado porque ainda carrega velhas cicatrizes de Copas passadas. Cada um leva para casa a verdade que cabe no próprio coração. Eu, por meu turno, continuo preferindo falar de futebol. Da tabela bem-feita, do drible inesperado, do volante que joga de cabeça erguida e do atacante que resolve sem precisar de auxílio eletrônico, porque para mim, torcedor da antiga, o espetáculo sempre pertenceu aos jogadores. Quando o protagonista vira o árbitro, alguma coisa saiu dos trilhos.
Pode ser que todas essas decisões tenham explicações perfeitas. Pode ser que não tenham. O problema é que a arbitragem precisa apenas ser correta, mas também precisa parecer correta, como diriam os romanos, os quais, uma vez mais, ficaram de fora do Mundial. E quando metade do planeta termina um jogo discutindo o homem do apito em vez do camisa dez ou do camisa nove, alguém fracassou na missão de transmitir confiança.
O futebol continua sendo um enorme tribunal popular. Não existe recurso definitivo. Cada torcedor sai do estádio com sua própria sentença escrita na memória. Talvez a melhor coisa que a FIFA possa fazer, para o bem do futebol, esconder os donos do apito e os sacerdotes do VAR. Porque, quando a árbitros se tornam a principal atração da Copa, é sinal de que a bola perdeu o emprego. E futebol sem a bola mandando na conversa é como churrasco sem fumaça. Alimenta, mas ninguém acredita que ficou pronto.