O Sarriá nunca acabou
Brasil e Itália, em 1982, foi um jogo que ultrapassou os noventa minutos da peleja. A semifinal de hoje entre França e Espanha também não durou noventa minutos. Ambos correrão por quarenta ou mais anos no tempo. Tenho uma tese e a partida de hoje, creio, confirma-a: há partidas que são reencarnações.
Confesso que, enquanto via a França trocar passes com a delicadeza de quem toca um violino Stradivarius, eu não enxergava apenas Mbappé, Olise, Dembelé ou os jovens artistas vestidos de azul. Via Falcão, vestido de rei, caminhando pelas ruas de Roma. Via Zico desenhando parábolas impossíveis. Via Leandro transformando um pedaço de couro numa declaração de amor. Via Éder preparando o canhão da esquerda. O tempo, naquele instante, perdeu completamente a vergonha e resolveu misturar 1982 com 2026. Porque a França de hoje joga exatamente como aquele Brasil jogava. O futebol, para ela, não é um expediente. É uma obra de arte. Seus jogadores não parecem funcionários cumprindo expediente e, sim, pintores discutindo onde deve cair a próxima pincelada. Há uma alegria infantil em cada triangulação, uma insolência quase ofensiva em cada drible. A bola não pesa. Flutua.
Do outro lado estava a Espanha. Não a Espanha covarde, porque não é. Não a Espanha retrancada, porque seria uma injustiça monstruosa. Mas a Espanha adulta, senhora de si e do campo.
Toda Copa do Mundo produz uma seleção que entende uma verdade cruel: beleza não garante sobrevivência. A Espanha compreendeu isso como poucas. Ela não renuncia ao talento; apenas o coloca a serviço da eficiência. Seus passes não procuram aplausos. Procuram o gol. Seu toque de bola não quer emocionar o poeta; quer assassinar o adversário. E e exatamente aí que mora o parentesco espiritual com a Itália de Enzo Bearzot, aquela Itália de 1982.
Os idiotas dirão que comparar a Espanha de Yamal com a Itália de Paolo Rossi é um delírio. Ora, justamente por isso a comparação faz sentido. O futebol não é uma ciência exata, é, isso sim, um romance escrito por bêbados apaixonados. Depravadamente apaixonados.
A Itália de 1982 jamais foi apenas uma retranca, como gostam de repetir os simplificadores profissionais. Era uma seleção estrategicamente perfeita. Defendia quando precisava, atacava quando devia e quase nunca desperdiçava uma oportunidade. Tinha Scirea, Gentile, Conti, Tardelli, Cabrini e um Paolo Rossi que resolveu ressuscitar justamente diante da melhor seleção do planeta, o Brasil.
A Espanha de hoje pertence à mesma linhagem dos pragmáticos iluminados. Não mata a beleza. Apenas a disciplina. Seu coletivo é uma engrenagem suíça montada por relojoeiros catalães, castelhanos, aragoneses, galegos… Cada jogador sabe exatamente onde deve estar antes mesmo que a bola pense em chegar. E aí reside a diferença essencial entre as duas escolas.
A França é primorosa individualmente e excelente como equipe. A Espanha é primorosa como equipe e excelente individualmente. É uma inversão quase filosófica.
Também, meus três ou quatro leitores, havia isso em 1982. Sim, porque o Brasil possuía talvez o maior conjunto de talentos individuais que uma Copa já contemplou. Era um desfile de gênios. Entretanto, entre um gênio e outro existiam algumas fissuras coletivas que a paixão patriótica preferia ignorar. Havia momentos em que a seleção jogava como uma orquestra sem maestro, esperando que cada virtuose resolvesse sozinho, enquanto a Itália fazia exatamente o contrário. Seu coletivo era uma muralha e seus talentos individuais surgiam apoiados por uma estrutura quase militar.
Foi naquele julho abrasador de Sarriá que o futebol mudou de religião. A vitória italiana não eliminou apenas o Brasil. Eliminou uma ideia. E durante décadas, treinadores passaram a acreditar que organização derrotava inspiração, que ocupação de espaço valia mais do que improvisação, que correr corretamente era superior a imaginar brilhantemente. Resultado: o futebol ficou mais científico, mais cartesiano, mais previsível. Os técnicos ganharam importância e os camisas 10 perderam liberdade. As pranchetas começaram a falar mais alto que os craques.
A maior tragédia daquela tarde catalã provavelmente tenha sido justamente essa: o planeta resolveu acreditar que Paolo Rossi derrotara Zico para sempre. Mas o futebol, esse velho farsante, adora reapresentar seus dramas e quarenta e quatro anos depois, eis novamente o espetáculo: uma seleção artística diante de outra estrategicamente perfeita. Outra vez dois gigantes e outra vez dois caminhos possíveis para o futuro.
A França entrou em campo oferecendo espaço, velocidade, invenção e liberdade. Queria transformar o gramado num ateliê de pintura. A Espanha aceitou exatamente aquilo que desejava aceitar. Fechou os corredores certos, acelerou nos momentos exatos e transformou cada recuperação de bola numa sentença de morte. Os estilos casavam como duas peças fabricadas para se enfrentar. Os franceses queriam campo para tocar; os espanhóis, campo para estocar. Um duelo de civilizações futebolísticas. De um lado, um país cuja história alternou revoluções, impérios e iluminismo, produzindo jogadores capazes de transformar qualquer jogada numa manifestação artística. Do outro, uma Espanha que conheceu guerras civis, reconstruiu sua identidade e fez da disciplina coletiva uma das maiores virtudes de sua geração dourada, iniciada com o tiki-taka de Xavi, Iniesta e Busquets e agora refinada numa versão muito mais vertical e cirúrgica, liderada pelo onipresente (em campo) Rodri.
Nem mesmo os confrontos recentes entre franceses e espanhóis desmentem essa impressão. Nas últimas temporadas, cada encontro entre as duas seleções pareceu menos uma partida e mais uma discussão filosófica sobre como o futebol deve ser jogado. A França insistindo que o talento individual continua sendo o maior patrimônio do esporte. A Espanha respondendo que talento sem arquitetura é apenas uma coleção de boas intenções.
Quem venceu hoje conquistou uma vaga na final e, também, o direito de influenciar o futebol dos próximos quinze (ou mais) anos. Porque as Copas fazem isso. A de 1958 apresentou Pelé ao mundo. A de 1974 consagrou o futebol total dos holandeses, mesmo derrotados. A de 1982 transformou a eficiência italiana em manual de instruções. A de 2026 talvez seja lembrada como o momento em que o futebol escolheu novamente entre o pincel e o esquadro.

Imagem feita com auxílio de IA
É, meus caros, o Sarriá – como a Bastilha – nunca acabou. Ele apenas mudou de endereço. Continuará existindo sempre que a arte enfrenta o método ou quando um poeta encontra um engenheiro ou quando um time acredita que pode encantar o mundo enquanto o outro responde que prefere vencer.
O extraordinário aí é que ambos continuam certos, muito embora a taça, como sempre, insiste em escolher apenas um. Hoje foi para a Espanha; em 1982, a Itália.
Duzentos e trinta e sete anos depois do início da Revolução Francesa, o Sarriá entrou em campo no dia da queda da Bastilha e, para não nos fazer esquecer de 1982, abateu a arte com dois gols.