O dramático caso do homem que pertencia aos dois lados

por Sérgio Trindade foi publicado em 02.ago.26

O meu passatempo em irritar, alternadamente, lulistas e bolsonaristas, não é militância. É turismo. Faço visitas guiadas aos dois hospícios. Começo sempre pelo mesmo ritual. Escrevo uma frase inocente:

— Lula errou…

Em menos de dois minutos aparece um cidadão com foto de Che Guevara, bandeira vermelha, um cachorro chamado Marx e uma convicção inabalável:

— Fascista!

Agradeço a gentileza, tomo um café e sigo viagem.

Trinta minutos depois publico outra frase, igualmente revolucionária:

— Bolsonaro também errou.

Surge então um patriota vestindo a camisa da seleção brasileira, enrolado na bandeira nacional como se estivesse prestes a invadir a Normandia montado num jet ski, e sentencia:

— Petista!

É nesse instante que compreendo uma descoberta extraordinária.

Sou uma partícula subatômica. Existo em dois estados políticos ao mesmo tempo. Como aquele rapaz que fazia cursos que não fazia.

Nem Einstein, nem Bohr, nem Schrödinger imaginaram que a grande demonstração da física quântica seria encontrada na caixa de comentários de uma rede social brasileira. Ali, você é de esquerda e de direita simultaneamente. Depende apenas de quem está gritando mais alto.

Há muito tempo abandonei qualquer tentativa de discutir ideias. As ideias morreram e foram substituídas pelo Cadastro Nacional de Inimigos. Você abre a boca e as pessoas não perguntam o que você pensa. Perguntam para qual torcida você vendeu a alma. É uma espécie de Receita Federal ideológica. Tudo precisa ser declarado.

Imagem feita com auxílio de IA

Se elogiou uma medida econômica, esconda o CPF. Se criticou um ministro, providencie advogado. Se resolveu concordar parcialmente com alguém…

Ah, meu amigo… Concordar parcialmente é crime hediondo.

Outro dia escrevi: “Um governo pode acertar numa coisa e errar em outra.”

Recebi dezenas de respostas indignadas.

Um quase perguntou:

— Mas afinal, de que lado você está?

Respondi:

— Do lado da oração subordinada concessiva.

Ele nunca mais falou comigo. Imagino que tenha ido pesquisar se a concessiva era comunista.

Um amigo disse:

— Tenho medo de falar e de escrever. Dependendo de quem ouça ou leia, serei acusado de integrar uma conspiração internacional financiada por George Soros, Elon Musk, Fidel Castro, Olavo de Carvalho, extraterrestres e pela indústria mundial da cloroquina vegana.

A teoria conspiratória brasileira possui uma característica admirável: ela nunca é simples. Se alguém esquece um guarda-chuva num restaurante, certamente existe um plano geopolítico por trás. Porque nada acontece por acaso. Até o garçom é suspeito.

Outro dia assisti a uma discussão entre um lulista e um bolsonarista. Foi emocionante. Durante trinta minutos trocaram acusações que fariam um estivador corar de vergonha: ladrão, golpista, genocida, comunista, nazista, corrupto, canalha, traidor…

Terminada a batalha, resolvi comentar:

— Acho que os dois exageraram.

Silêncio. Pela primeira vez havia consenso. Os dois voltaram lentamente o rosto para mim. Era como assistir à abertura do Mar Vermelho. Naquele momento compreenderam que possuíam um inimigo comum: eu.

O lulista me chamou de bolsonarista e o bolsonarista me chamou de petista.

Foi um espetáculo de harmonia nacional. Se dependesse de mim, eu me indicaria ao Prêmio Nobel da Paz. Finalmente alguém conseguira unir brasileiros de correntes opostas.

Continuo exercendo meu pequeno esporte radical. Perigoso. Entro na internet e digo que nenhum político merece devoção religiosa.
Atividade de alto risco.

Os bombeiros ainda estudam uma forma segura de resgatar quem ousa defender o bom senso. Enquanto isso não acontece, sigo feliz. Afinal, há um privilégio enorme em ser chamado de petista pelos bolsonaristas e de bolsonarista pelos petistas.

É a prova definitiva de que ainda não entreguei meu cérebro para nenhuma torcida organizada.

E, nos tempos que correm, isso talvez seja o último ato verdadeiramente revolucionário.

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