Quatro atacantes e nenhum meio-campo
No estaleiro por cinco dias, acordei cedo e esqueci que haveria jogo da seleção brasileira. Liguei a TV e corria o jogo. Eram 16min do primeiro tempo de um jogo ruim, como o restante da partida confirmou.
Há uma superstição no futebol brasileiro segundo a qual, se colocarmos bons jogadores juntos, alguma coisa boa ocorrerá. É uma superstição como outra qualquer, embora mais cara. Contra a Austrália, estavam em campo Vinicius Junior, Raphinha, Estêvão e Endrick. São quatro jogadores capazes, em tese, de produzir alguma coisa parecida com futebol. Produziram o quê? Um empate em 1 a 1, salvo nos minutos finais por Rayan, que entrou para resolver aquilo que os outros não haviam resolvido.
Vejo Vinícius Junior jogar e penso que ele simplesmente aguarda que alguém lhe entregue o jogo pronto, embrulhado para presente. Para mim, que pouco ou nada entendo de futebol, ele não chega aos pés de Robinho, que jogou muita bola e nunca foi unanimidade. Pois bem, Vinícius Junior, hoje apenas namorado de uma influencer, parecia ter recebido notícias desagradáveis pouco antes do jogo: a bola era redonda e os adversários estariam empenhados em jogar contra o Brasil.
A seleção brasileira não pode depender de um Vinicius Junior inspirado, sobretudo quando ele não está inspirado. Inspirado, ele é só bom; não inspirado, esquece…; Hoje passou boa parte do tempo a procura de uma porta numa parede lisa.
Estêvão e Endrick merecem outra consideração. São jovens, têm talento e não precisam que um amistoso ruim seja transformado em sentença. Mas talento não é um sistema tático. Estêvão correu, tentou, procurou a bola, fez um gol (anulado) e perdeu um gol feito, chutando de canela. Endrick apareceu pouco – e no pouco que apareceu, apareceu mal. Os dois acabaram participando de uma experiência curiosa: foram escalados no ataque e, em vários momentos, pareciam estar ali para resolver problemas defensivos do meio-campo. Já se viu muita coisa no futebol brasileiro, mas transformar dois atacantes promissores em auxiliares administrativos da marcação é uma novidade. Ancelotti repetiu com os dois o erro cometido com Rayan durante a copa, que atuou de babá de luxo do veterano e ruim Danilo.
O real problema da seleção brasileira está entre o ataque e a defesa.

Imagem feita com auxílio de IA
O meio-campo brasileiro tinha a presença física de uma ausência. Bruno Guimarães e Danilo (putz, já tivemos Zito e Didi, Gérson e Rivellino, Falcão e Sócrates, entre outros) ficaram encarregados de fazer a ligação entre defesa e ataque, como dois funcionários de uma repartição pública encarregados de transportar sozinhos uns papéis com um plano. A bola chegava lá atrás e, quando finalmente atravessava o meio, já tinha perdido a vontade de viver, de rolar, de correr. Não havia construção ou surpresa. Faltava aquele passe que faz o atacante pensar: agora. Havia circulação, tentativa, alguma correria e a esperança nacional de que alguém, no ataque, fizesse uma coisa extraordinária.
A estratégia de Carlo Ancelotti curiosa: colocar quatro atacantes talentosos e deixar que dois meio-campistas limitados descubram como abastecê-los.
A Austrália percebeu e apenas fechou os espaços, como fez a Noruega meses atrás. Esperou muito e jogou o suficiente. O Brasil, ao contrário do jogo com a Noruega, o Brasil ficou com a bola. Isso é ruim, porque dá a sensação de que posse de bola é uma forma avançada de sofrimento.
O gol de Rayan, no fim, impediu que a estreia desse novo ciclo terminasse com uma derrota.
O empate não foi ruim. O desempenho do time foi. Deixou a impressão de que o Brasil continua procurando uma coisa bastante simples: um meio-campo.