A virtude de uma nação

por Sérgio Trindade foi publicado em 04.out.26

Escrevo o texto quando a eleição presidencial está definida, embora os votos ainda não estejam totalmente apurados: segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula.

O Brasil parece, há bastante tempo, uma casa onde duas pessoas discutem na sala, enquanto a comida queima na cozinha e ninguém se lembra de desligar o fogo. Uma joga a culpa nos costados da outra, que responde que sempre foi assim, a comida estraga e fica o dito pelo não dito. É certamente uma imagem muito simples para um problema muito grande, mas é o que este pobre professor de província consegue alcançar; não devemos esquecer que os problemas grandes, às vezes, começam por coisas simples.

A eleição deste ano exprime uma época em que uma parcela do país olha para a outra com desconfiança. Há – como escrevi ontem – os que veem em Lula o último abrigo contra aquilo que consideram a ameaça bolsonarista e há os que veem em Bolsonaro, ou em seu campo político, a barreira contra aquilo que consideram a ameaça petista. E entre uma ameaça e outra vai ficando o Brasil sem escolas, hospitais, estradas, segurança, ciência, trabalho, equilíbrio fiscal e uma ideia qualquer de futuro.

Falta um candidato novo com uma conversa nova, porque uma nação não se constrói apenas com a vitória de um grupo sobre outro, tampouco com metade do país festejando a derrota da outra metade e menos ainda transformando adversários políticos em inimigos morais, como se cada eleição fosse a última batalha antes do fim do mundo.

Aristóteles – o grego, que nada tem a ver com aquele citado frequentemente por Flávio Dino – dizia que a virtude está no equilíbrio, no justo meio entre os excessos. Não se trata de escolher sempre o caminho do meio, como quem, por medo de tomar posição, fica parado no meio da estrada. A virtude aristotélica é outra coisa, a saber, é a capacidade de encontrar, pela razão e pela experiência, a medida adequada para cada situação. Assim, meus três ou quatro leitores, coragem não é nem covardia nem temeridade; justiça não é vingança; generosidade não é desperdício; prudência não é medo. A virtude nasce justamente quando o homem consegue escapar dos extremos que o deformam.

Uma nação deveria ser pensada assim, porque precisa de crescimento e não deve confundir crescimento com qualquer crescimento. Precisa de responsabilidade fiscal, mas não pode transformar o equilíbrio das contas em religião que aceite a pobreza como sacrifício inevitável. Precisa de políticas sociais, mas não pode imaginar que distribuir renda seja suficiente para construir uma sociedade próspera. O mercado, o verdadeiro criador da riqueza, não pode decidir sozinho o destino da sociedade; cabe ao Estado função importante, a de evitar os excessos do mercado.

O projeto de nação de que precisamos deveria nascer, parece evidente, da procura racional por aquilo que funciona. Uma escola pública eficiente não deveria ser de esquerda ou de direita. Um hospital que atende bem não deveria precisar de ideologia. Uma estrada construída com responsabilidade não deveria perguntar ao motorista em quem ele votou. E, no entanto, talvez seja o evidente que tenhamos perdido.

Uma nação forte não é aquela em que todos pensam da mesma maneira, mas aquela capaz de transformar pensamentos diferentes em alguma coisa comum. A divergência não é o problema. O problema é quando a divergência deixa de produzir debate e passa a produzir ódio. Por isso, precisamos transformar a ideia de equilíbrio em alguma coisa mais concreta que uma palavra bonita. Um projeto de nação precisa dizer onde queremos chegar e o que estamos dispostos a fazer para chegar lá daqui a duas ou três décadas. Um país que eduque suas crianças, que forme trabalhadores capazes de produzir tecnologia e riqueza, que tenha infraestrutura para integrar seu território, que cuide dos mais pobres sem condená-los à pobreza permanente, que ofereça segurança sem abrir mão da lei, que gaste com responsabilidade e que invista onde o futuro exige investimento. Isso não deveria ser propriedade de nenhum partido.

Se os brasileiros continuarem discutindo na sala enquanto na cozinha a comida pega fogo, pouco importa quem venceu a discussão, pois a casa continuará ameaçada.

Imagem feita com auxílio de IA

Não é necessário que todos concordem, porém é necessário que concordemos sobre aquilo que não podemos mais adiar, a construção de um projeto de nação que sobreviva aos governos. É aí que a virtude aristotélica ganha seu verdadeiro sentido político. O equilíbrio significa escolher com discernimento, recusando tanto o excesso quanto a omissão, compreender que o Estado pode ser necessário sem ser absoluto e que o mercado pode produzir riqueza sem resolver todos os problemas, que a política social pode proteger o cidadão sem transformá-lo em dependente permanente e que responsabilidade fiscal não é crueldade, assim como gasto social não é irresponsabilidade por definição, sem qualquer fórmula mágica. É aí que está a maturidade de uma nação.

O Brasil não precisa de um salvador da pátria e sim de instituições que funcionem, metas que possam ser cobradas e uma sociedade capaz de exigir resultados de qualquer governo. Precisa de um pacto em torno daquilo que não pode mais ser interrompido, à feição daquilo que expôs Aristóteles – a ideia de que a virtude não nasce de um gesto extraordinário e sim da repetição de boas escolhas; uma nação não se torna forte em uma eleição e nem em um mandato, mas quando consegue, geração após geração, fazer certas coisas essenciais cada vez melhor.

Depois de tantos e tantos anos procurando salvadores da pátria, o brasileiro precisa procurar uma ideia que sobreviva aos homens, uma ideia fundada no equilíbrio, guiada pela razão e transformada em hábito para que, finalmente, consigamos construir juntos aquilo que nenhum dos lados conseguirá construir sozinho: uma nação forte.

 

posts relacionados
Logo do blog 'a história em detalhes'
por Sérgio Trindade
logo da agencia web escolar