Carta a Luiz Alves de Melo

por Sérgio Trindade foi publicado em 06.out.26

Luiz Alves de Melo,

Espero que esta te encontre bem, ou, pelo menos, suficientemente bem para suportar as notícias que chegam diariamente deste país, onde a realidade perdeu há muito tempo qualquer pudor e já não se dá sequer ao trabalho de disfarçar suas obscenidades, razão pela qual continuo trabalhando naquele puteiro da avenida principal de Macabu, o Cabaré Nióbio, estabelecimento que, apesar do nome mineral e da aparência respeitável que alguns tentam lhe atribuir, continua sendo aquilo que sempre foi: um lugar onde homens entram para esquecer seus princípios e saem convencidos de que os princípios dos outros são muito mais importantes.

Imagem feita com auxílio de IA

O Nióbio recebeu este nome porque o município e arredores foi invadida por empresas interessadas na exploração do nióbio (Nb), elemento químico cinza metálico e brilhante, de número atômico 41. O nióbio é dúctil e maleável e atinge o ponto de fusão a aproximadamente 2.500ºC. Muito utilizado pela siderurgia, porque, misturado ao aço, forja ligas metálicas mais leves e bem mais resistentes e que podem ser fartamente utilizadas nas estruturas de pontes e edifícios, nas indústrias naval, aeronáutica e automobilística e na fabricação de equipamentos de ressonância magnética e componentes eletrônicos. O pessoal que ronda por aqui diz que o Brasil detém cerca de 90% das reservas mundiais de nióbio.

A invasão da região por pessoas de várias partes do país (há também estrangeiros circulando por aqui) bombou o setor de serviços. Pipocaram mercados, lanchonetes, pousadas, barzinhos e, claro, prostíbulos, O meu patrão é um empreendedor do ramo de diversão, com vários estabelecimentos espalhados pelas cinco regiões do Brasil. O Nióbio é, entre todos os cabarés de Macabu, o mais top. As mulheres foram escolhidas a dedo, a partir de um projeto apresentado por um pesquisador ao deputado federal Danilo Caraglio, o qual viabilizou os recursos. Coube à Fundação do Rigor Científico e Obreiro garantir a execução dos recursos oriundos da emenda parlamentar.

A clientela, como te disse em outras ocasiões, permanece praticamente a mesma, constituída por políticos de baixo escalão, acadêmicos de escalão nenhum e artistas cujo escalão depende, com admirável flexibilidade ideológica, do tamanho da bolsa que recebem, e aqui preciso fazer uma ressalva, porque não se trata de qualquer bolsa, mas de bolsas derivadas de emendas parlamentares do glorioso PTT, o Partido das Tarifas e Taxas, e pagas pela Fundação do Rigor Científico e Obreiro, a célebre Furico, instituição cuja denominação já seria suficiente para despertar suspeitas em qualquer pessoa minimamente desconfiada, embora neste país a desconfiança tenha se tornado uma virtude tão rara que, quando aparece, costuma ser imediatamente acusada de radicalismo. Na Furico e nos seus arredores as coisas não cheiram bem.

Acompanho tudo daqui, inclusive a campanha política, que pega fogo. A deste ano me interessou especialmente por causa da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, dois homens que representam, cada um à sua maneira, essa extraordinária capacidade nacional de transformar uma eleição em concurso para saber quem consegue dizer as maiores barbaridade e estultices com a expressão mais séria do mundo.

Lula continua o mesmo cínico de sempre, e digo isso sem qualquer ressentimento, porque entendo que algumas pessoas não envelhecem, não amadurecem, não mudam, simplesmente aperfeiçoam a técnica de permanecer iguais, como aquele relógio quebrado que, duas vezes por dia, acerta a hora e, por isso mesmo, continua sendo exibido na sala como se fosse instrumento de precisão.

Lula não sabe de nada. Nunca sabe. Não sabia dos malfeitos de gente do governo dele, não sabe quem fez, não sabe como fez, não sabe quando fez e se amanhã aparecer uma gravação mostrando um sujeito entregando pessoalmente a chave do cofre ao ladrão, ainda haverá alguém disposto a explicar que aquilo não era uma chave, mas um gesto simbólico de confiança institucional.

E há, naturalmente, o Lulinha. Ah, meu caro, Lulinha, aquele que um dia foi o Ronaldinho dos Negócios. Pois é, o pimpolho do presidente é uma dessas criaturas que parecem ter sido inventadas por um romancista sem imaginação, porque a realidade, quando quer humilhar a ficção, produz um filho metido em assuntos estranhos e ainda lhe dá um pai poderoso, conhecido e permanentemente surpreso com tudo o que acontece ao redor dele.

Soube pelos noticiosos, esses boletins diários da tragédia brasileira, que Flávio Bolsonaro teria se metido numa suruba organizada por Daniel Vorcaro. Confesso que a notícia me produziu uma sensação estranha. Não fiquei escandalizado. Fiquei, isso sim, quase comovido. Tu sabes que sou um homem de princípios, defensor dos mais altos e elevados valores morais, um sujeito que jamais faria concessões à depravação, à pouca-vergonha ou às práticas que possam comprometer a dignidade humana, embora eu reconheça que, nos tempos atuais, tornou-se difícil distinguir a dignidade humana de uma boa assessoria de imprensa. Mas, justamente por isso, se ficar comprovada a participação de Flávio na suruba e aparecer uma única imagem (fotografia  ou vídeo) em que ele esteja efetivamente participando daquilo que os noticiosos descrevem com a solenidade de quem anuncia a queda de um governo, darei meu voto a ele sem pestanejar. Sim, meu amigo, votarei no homem. E não porque considere a suruba uma atividade recomendável, nem porque tenha passado a defender aquilo que durante toda a minha vida combati, mas porque, diante do espetáculo de políticos que cometem seus pecados sempre em nome de alguma causa superior, utilizando gabinete, assessoria, verba pública, empresa amiga, parente, operador financeiro e até fundação científica, um homem que se meta numa estripulia exclusivamente por vontade própria começa a adquirir, aos meus olhos, uma qualidade quase revolucionária: a de assumir pessoalmente a responsabilidade pelos próprios vícios.

Repara bem no absurdo. Os políticos brasileiros conseguem fazer tudo em nome do povo, inclusive aquilo que fariam muito melhor sem a presença do povo, e conseguem transformar até a mais indecente das negociatas em compromisso histórico, projeto nacional, defesa da democracia ou política de inclusão, enquanto o sujeito que eventualmente participa de uma suruba, se é que participou, comete pelo menos o pecado de não chamar uma comissão para redigir uma justificativa.

É por isso que, aqui no Cabaré Nióbio, a coisa anda complicada. A maioria dos clientes vota em Lula e vive me patrulhando, sobretudo os acadêmicos, que são os mais perigosos porque recebem dinheiro para pensar e, não raro, acabam descobrindo que pensar pode ser uma atividade bastante lucrativa quando se pensa exatamente aquilo que quem paga deseja ouvir. Outro dia, um deles veio me dizer que eu precisava assumir uma posição política, porque, segundo ele, ninguém pode permanecer neutro diante dos grandes acontecimentos nacionais. Olhei para o sujeito, olhei para a conta que ele acabara de pagar com dinheiro de uma bolsa da Furico e respondi que concordava inteiramente, razão pela qual já havia tomado minha decisão.

Sem floreios, disse-lhe:

– Escute aqui. Quero ser bem tratado, paparicado, com café de boa qualidade, suco de frutas e bolachas, biscoitos e queijos de boa qualidade. Se vocês continuarem a me incomodar, votarei em Flávio Bolsonaro, aquele que andam chamando de Surubeiro..

Houve um silêncio. Não aquele silêncio comum, de quem ficou sem assunto, mas um silêncio solene, quase religioso, desses que aparecem quando alguém percebe que acabou de ouvir uma coisa que não deveria ter ouvido e, pior ainda, não encontra argumento suficientemente convincente para responder. Não sei, meu amigo, se passarão a me tratar com consideração e respeito. Nem quero saber. Quero mesmo é que se fodam. Ninguém mais me patrulha. Não quero moleque e cafajeste me danço lição sobre democracia e ética. Você sabe, sou um homem de princípios e há uma década descobri que a melhor maneira de preservar a moral, neste país que é um puteiro, é ameaçar o próximo com a própria liberdade de escolher o pior candidato.

Um abraço do amigo de sempre, que continua acreditando nos mais altos valores morais, sobretudo porque, olhando em volta, percebeu que eles estão ficando cada vez mais raros.

Teu amigo de Macabu,

 

 

Astério de Natuba

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