A santa, a urna e o absurdo

por Sérgio Trindade foi publicado em 30.set.26

Era eleição para prefeito de São de Paulo, em 1985, e Fernando Henrique Cardoso disputava voto a voto a liderança com o ex-presidente Jânio Quadros. No debate entre os candidatos, o jornalista Boris Casoy fez a pergunta sobre a crença ou não de do senador Fernando Henrique em Deus. A resposta de Fernando Henrique, para quem não se lembra, foi digna de um estadista. Vejam o vídeo abaixo:

 

Quarenta e um anos depois, está o Brasil metido numa esparrela político-religiosa do tamanho de sua história e do seu território.

A campanha eleitoral deste ano é, perdoem-me pelo uso d’um dito d’um santo para qualificá-la, d’uma pobreza franciscana. Dois candidatos disputam, palmo a palmo, a dianteira: Flávio Bolsonaro e Lula. Ambos, um pateta e um petralha (a definição tomei emprestado de um jornalista que hoje é um dos grandes defensores de Lula), cada um de jeito, dão sobejas contribuições para a indigência política.

Questões como inflação, emprego, juros, segurança, saúde, educação, política externa estão em segundo ou até terceiro plano. Aqui, quando se aproxima a hora de apertar o botão da urna, é perfeitamente possível que Nossa Senhora Aparecida seja convocada para o debate eleitoral. Não como objeto de devoção – o que seria compreensível –, mas como personagem de uma controvérsia política. É um daqueles momentos em que o país parece ter perdido o argumento e decidido recorrer ao sobrenatural ou à safadeza pura e simples.

O processo para um santo de tornar padroeiro não começa nos palácios de mármore do Vaticano, tampouco nas salas acarpetadas do Congresso Nacional. Começa no chão de terra e cresce por ali até tomar ruas e bairros, vilas, povoados e cidades. É o milagre da insistência. Um grupo de pescadores cansados puxa uma rede rasgada e traz um pedaço de terracota escura, um índio recolhe rosas num inverno impossível, um monge medieval teima em acender uma fogueira numa colina pagã e o povo, com faro fino para as coisas do invisível, fareja ali um cais, um porto, um sossego e começa a acender velas, a fazer promessas, a pedir chuva para a lavoura e cura para as doenças – e pronto, nasceu a devoção, que vira multidão. Nesse momento, a burocracia terrena se coça, os bispos, que não gostam de mistérios que não possam catalogar, reúnem-se em salas de paredes grossas e redigem um libelo. Mandam a papelada para Roma e, na capital do antigo Império, em alguma gaveta da Congregação, o nome da pessoa ganha um carimbo. Pronto, o santo, que em vida só queria o silêncio de uma cela ou o martírio rápido de uma espada, recebe o crachá de chumbo da diplomacia celeste e passa a ser o responsável por um hino, por uma bandeira e por uma gente que, na primeira seca ou na próxima guerra, vai cobrar dele o preço de estar no altar. O santo vira padroeiro quando o homem resolve terceirizar a sua própria esperança.

Foi assim com Nossa Senhora Aparecida. Ela não apareceu ontem na vida brasileira. A devoção começou no século XVIII e atravessou o Império e a República, revoluções, ditaduras, redemocratizações, anistias e diversas modalidades e tipos de inflação. Em 1930, foi declarada Padroeira do Brasil pelo papa Pio XI. Sobreviveu a tudo isso e é razoável supor que sobreviverá também a mais uma eleição e aos pilantras e picaretas que falam dela, nela e por ela.

Imagem feita com auxílio de IA

O que tem me chamado a atenção não é a presença da religião na sociedade brasileira. Isso seria negar a própria história. O problema começa quando a religião passa a ser tratada como instrumento de uma disputa eleitoral e uma questão de fé é transformada em munição de campanha.

Thomas Hobbes, que não era propriamente um sujeito dado a sentimentalismos, dizia que a política nascia da necessidade de organizar os homens, que, deixados à própria sorte, poderiam transformar a convivência numa guerra de todos contra todos. Ele não imaginou que séculos depois descendentes daqueles homens poderiam transformar uma santa em assunto de guerra eleitoral e fratricida. Religião que deveria ser tratado como escolha individual tornou-se ponto de pauta política, com o pateta e o petralha disputando a tapa a preferência da Padroeira do Brasil. É verdade que o poder não se alimenta apenas de discursos, leis, exércitos e dinheiro. Alimenta-se também de símbolos. É um preceito maquiavélico. O florentino apontou que o governante precisa conhecer os costumes, as crenças, os afetos e os medos de seus governados. Onde existe um símbolo de enorme força popular, haverá sempre alguém disposto a transformá-lo em capital político, e Nossa Senhora Aparecida é um símbolo particularmente poderoso. Não pertence a um partido, a uma coligação ou a uma candidatura e sim, para os que creem, à esfera da fé. E para os que não creem, à história cultural do país. É justamente por isso que sua entrada numa briga eleitoral produz curto-circuito.

No Brasil, patetas e petralhas desenvolveram uma variante curiosa da autoridade política carismática, a de transformar símbolos religiosos em peças de campanha e, depois, discutir a campanha como se estivéssemos discutindo teologia. Há, é fato, imensa força social na religião, Mas ela, ressaltou Tocqueville, precisa ser capaz de coexistir com as instituições democráticas. Dito de outra forma: religião e democracia podem conviver sem que uma precise sequestrar a outra; a fé pode ocupar a sociedade sem ocupar a urna.

No Brasil dos patetas e petralhas, no entanto, chegamos a um ponto em que uma controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida ameaça ocupar o espaço de problemas que, estes sim, deveriam estar no centro de uma eleição. E é precisamente aí que reside uma observação feita pelo cientista político Fernando Schüler, em comentário feito na Band: o episódio seria uma cortina de fumaça para que não se discutissem questões reais às vésperas da decisão eleitoral. A hipótese é política, não teológica. E deve ser tratada como tal. E há uma ironia maior: se a discussão é uma fake news, como foi afirmado, então temos uma eleição em que a própria existência do assunto já se tornou assunto. Se é verdadeira, temos uma eleição em que Nossa Senhora Aparecida virou personagem de uma disputa terrestre. Se é falsa, discute-se a falsidade. Se é verdadeira, discute-se a santa. E enquanto se discute a discussão, o país continua ali, esperando que alguém volte a falar do dele, do país.

É a política em estado quase puro: o assunto secundário transforma-se em assunto principal, o acessório toma o lugar do essencial e, quando percebemos, estamos discutindo o que alguém disse que alguém disse sobre aquilo que alguém talvez tenha feito com a imagem de uma santa.

É necessário voltar aos clássicos para dizer que a eleição brasileira já tem seus candidatos, seus partidos, seus programas, suas promessas e seus problemas e, portanto, não precisava de uma aparição.

Nossa Senhora Aparecida já fez sua parte. Está há séculos está onde deveria estar. Nós é que continuamos procurando santos para resolver aquilo que, numa República, deveria ser resolvido pelos homens. O problema é que os nossos homens públicos, pelo menos os que aí estão, não têm um pingo de tino – e de decência – para estar onde estão.

 

PS.: Link do vídeo sobre fala de Fernando Henrique Cardoso (https://www.youtube.com/watch?v=9xmPmrBtFKw).

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