Ainda estou aqui
O título do filme brasileiro cabe à perfeição para o evento. Sim, porque se existe um momento na vida em que a pessoa percebe que foi convidada para uma festa apenas para não ficar chato deixá-la de fora e quando disputa o terceiro lugar da Copa do Mundo. Chega e descobre que a mesa dos salgados já foi recolhida, o refrigerante está quente e o aniversariante nem lembra seu nome.
Ninguém quer estar ali. Os jogadores queriam estar na final, os técnicos queriam estar na final, os torcedores queriam ver a final e o gandula parece ter um compromisso mais importante. Mas, já que inventaram esse castigo esportivo, o mínimo que se espera é que os condenados cumpram a pena com alguma compostura.
A França resolveu inovar.
Entrou em campo como quem vai ao supermercado comprar pão às dez da noite, de chinelo, sem pressa e torcendo para não encontrar ninguém conhecido.
O primeiro tempo foi um monumento à falta de interesse. Não era exatamente uma seleção de futebol. Era um grupo de pessoas vestindo a mesma camisa e compartilhando uma vaga lembrança de que existia uma bola.
A Inglaterra, que não tinha culpa de nada, fez sua parte. Um gol. Depois outro. Depois mais um. Quando veio o quarto, já havia um certo constrangimento no estádio. Goleada costuma ser divertida quando existe resistência do outro lado. Sem resistência, fica parecendo cobrança de aluguel.
Quatro a zero.
No intervalo, alguém deve ter lembrado aos franceses um detalhe técnico: o jogo ainda estava acontecendo. O treinador, então, fez quatro substituições de uma vez. Quatro. É um número que sugere desespero ou iluminação divina. Ou as duas coisas.
E eis que surgiu outra França, pois em vinte minutos fez três gols.
A seleção que passara quarenta e cinco minutos escondida resolveu aparecer justamente quando o prejuízo já era praticamente irreversível. Foi como aquele aluno que passa o semestre inteiro sem abrir o livro e, na última noite antes da prova, descobre uma vocação irresistível para o estudo.
De repente havia velocidade, criatividade, vontade e até uma certa alegria. Mas era tarde.
A Inglaterra venceu por 6 a 4, levando para casa um terceiro lugar que ninguém sonha conquistar quando criança.

Imagem feita com auxílio de IA
A partida acabou lembrando uma pelada entre amigos. Daquelas peladas honestas, em que um time chega completo e o outro só começa a jogar quando finalmente aparece o goleiro que estava preso no trânsito. Talvez seja esse o destino inevitável da disputa pelo bronze. Ela não tem a tensão da final nem o drama da semifinal perdida. É um jogo órfão, disputado por seleções emocionalmente desalojadas. Uma formalidade com gramado.
Mesmo assim, existe uma pequena obrigação moral, afinal quando um time veste a camisa de seu país, ele representa mais do que sua própria frustração. Representa milhões de pessoas que acordaram cedo, dormiram tarde, brigaram com o juiz pela televisão, discutiram impedimentos imaginários e juraram nunca mais assistir futebol. Até o jogo seguinte.
Essas pessoas merecem um pouco mais do que um primeiro tempo protocolar.
Curiosamente, a França provou isso ao reagir. Bastaram vinte minutos para mostrar que podia jogar futebol desde o início. A derrota, portanto, não nasceu da incapacidade e, sim, da preguiça. E poucas coisas são mais irritantes no esporte do que descobrir que o talento resolveu chegar atrasado.
O terceiro lugar continua sendo uma estranha invenção. Mas, enquanto insistirem em mantê-lo, convém avisar aos participantes que ele não é um ensaio, nem um treino aberto, tampouco uma confraternização internacional. Convém, portanto, não exagerar na amizade.