O empate e o defunto
Toda esperança brasileira antes de uma Copa do Mundo costuma ser uma espécie de viúva alegre. Chora de um olho e sonha com o outro.
Assisti, desanimado, o empate da seleção brasileira contra Marrocos (1 X 1) e tive a impressão de estar diante de um velório sem defunto. Havia caixão, flores, velas, discursos, parentes inconsoláveis, mas faltava o morto. Depois percebi que o morto estava ali, sim: era o futebol brasileiro. E não me venham com estatísticas, posse de bola ou mapas de calor. O mapa de calor serve para churrascaria. Futebol é outra coisa. Futebol é alma, é personalidade, é arrogância saudável, identidade, é o sujeito entrar em campo convencido de que Deus nasceu em Madureira ou no Pina e torce pelo Brasil.
Mas o que vimos?
Um meio-campo que parecia uma repartição pública numa sexta-feira à tarde. Ninguém criava nada. Ninguém resolvia nada. A bola circulava como um memorando mal escrito: passava de um para outro sem produzir qualquer efeito prático. A defesa tinha a solidez moral de um vigarista profissional. Bastava o adversário acelerar um pouco para surgirem espaços que pareciam avenidas recém-inauguradas, sem aquelas nossas magníficas invenções, o quebra-molas. Em certos momentos, o ataque marroquino transitava com a tranquilidade de um turista alemão passeando no Leblon.
O mais trágico, porém, é que o Brasil virou uma espécie de condomínio fechado de talentos individuais. Quando o coletivo desaparece, todos olham para Vinícius Júnior como antigos camponeses olhavam para os santos durante uma seca devastadora, e gritam: “Faça um milagre!”.
E o pobre rapaz tenta, dribla um, dribla dois, corre, luta. Em vão. Porque o futebol não é espiritismo. Um jogador sozinho não incorpora onze.
O selecionado nacional parece acreditar que a genialidade individual resolverá tudo. É uma tese encantadora. Também seria encantador acreditar que um único bombeiro apagará o incêndio da Amazônia usando um copo d’água. Ou que é possível impedir o vazamento de uma barragem com um rolo de esparadrapo.
Então, o que faltou ao Brasil ontem?
Pouca coisa: intensidade, pressão, criatividade, identidade, liderança em campo, personalidade.
Palavras importantes estas: identidade e personalidade.
Durante décadas, o Brasil podia perder uma partida, mas jamais perdia a personalidade e a identidade. Hoje ocorre o contrário. Às vezes nem perde o jogo. Perde algo muito mais grave: perde a própria cara.
Assistimos a uma equipe que corre sem convicção, ataca sem criatividade, defende sem segurança e joga sem saber exatamente o que deseja ser quando crescer. É como encontrar um adulto de quarenta anos perguntando qual profissão pretende seguir.
Os especialistas repetem que ainda há tempo para arrumar o time durante a Copa. Claro que há tempo. Sempre existe tempo. Havia tempo para o Titanic desviar do iceberg. Também havia tempo para vários casamentos evitarem o divórcio. E para inúmeros políticos cumprirem promessas de campanha. Tempo, por si só, nunca resolveu nada. O que não existe é garantia.

Imagem feita com auxílio de IA
O Brasil precisa corrigir posicionamentos defensivos, aumentar intensidade, ser mais criativo no meio-campo e melhorar finalizações. Também e principalmente, recuperar a própria autoestima futebolística. E lembrar que uma seleção como a nossa não é um catálogo de jogadores caros vendidos para a Europa. É uma ideia coletiva.
Argentina, França, Espanha e Inglaterra entram em campo sabendo quem são. O Brasil entra em campo procurando descobrir. E essa é a parte mais assustadora, pois uma Seleção sem identidade é como um ator que esqueceu o roteiro, um padre que perdeu a fé, um intelectual sem ideias ou um marido que não reconhece a própria esposa na sala de jantar. Pode até continuar em pé, mas já começou a desmoronar por dentro.
O talento continua existindo. Graças aos céus, continua. O problema é que talento sem organização é apenas um luxo decorativo. Uma espécie de lustre caríssimo pendurado num barraco.
Por isso o empate contra Marrocos não deve ser visto como um acidente de percurso. É um bilhete deixado pela realidade debaixo da porta. E a realidade, meus três ou quatro leitores, tem o péssimo hábito de não mentir.
O alarme está tocando. Será que alguém, lá dentro, ainda consegue ouvi-lo?