Os heróis da lanterna

por Sérgio Trindade foi publicado em 10.jul.26

Há um fenômeno curioso no Rio Grande do Norte. De quatro em quatro anos (ou de dois em dois), brota uma safra de estadistas. É como a floração do mandacaru, ninguém sabe exatamente donde vem, mas basta aparecer a eleição para o sertão político se cobrir de homens providenciais, todos carregando planos infalíveis, todos descobrindo, na madrugada anterior ao registro da candidatura, que o povo sofre, todos jurando conhecer o caminho da redenção. E há quem acredite. Não poucos, afinal o eleitor brasileiro é um otimista incurável. Se não fosse, já teria fechado as portas e mudado de país. Talvez até seja algo pior, um néscio de carteirinha.

O curioso é que essa gente não chega de Marte. Não desembarca de um foguete nem sai de um romance de Júlio Verne. São os mesmos rostos de sempre. Mudam a fotografia do santinho, a cor da camisa, o slogan da campanha, o partido, uma ou outra companhia. Quando muito. O restante permanece intacto: o sorriso ensaiado, a mão estendida, a promessa reciclada, a cara de pau e a espantosa capacidade de tratar fracasso como currículo.

Imagem feita com auxílio de IA

Se o eleitor – que é cidadão – fosse correto consigo mesmo, correria os olhos em volta e veria que estamos num atoleiro. A educação estadual figura entre as piores do Brasil. Há municípios onde aprender a ler parece um luxo reservado aos persistentes. Em Natal, ainda existe gente demais vivendo sem o passaporte mínimo da cidadania: a alfabetização. O estado patina nos indicadores econômicos como quem acredita que desenvolvimento é um boato espalhado pelos vizinhos. O desemprego castiga, a informalidade virou profissão e a renda per capita continua sendo uma lembrança melancólica daquilo que um dia poderia ter sido. Nada disso constrange nossos candidatos. Ao contrário. Eles desfilam como generais depois de uma vitória militar, embora comandem um exército derrotado pelas estatísticas. Fazem discursos inflamados sobre um estado que só existe nos panfletos. Nas propagandas eleitorais, o Rio Grande do Norte parece a Suíça banhada pelo Atlântico. Basta desligar a televisão para reencontrar a realidade: escolas precárias, hospitais cambaleantes, ruas onde o esgoto continua sendo mais presente que o poder público. Como disse acima, estamos num atoleiro. De merda, literalmente. Sim, porque o esgoto talvez seja o personagem mais sincero da política potiguar. Ele não promete e nem faz marketing, não inaugura placa, apenas corre – ou deixa de correr – diante dos olhos de todos, lembrando diariamente que civilização também se mede por aquilo que desaparece debaixo da terra. Em alguns bairros, desapareceu foi a esperança de que isso aconteça.

A violência diminuiu nos últimos anos, e isso merece registro. Mas até esse mérito parece órfão. Ninguém o reivindica com entusiasmo, talvez porque tenha ocorrido sem a coreografia habitual das campanhas. Melhorou enquanto os profissionais da política estavam ocupados demais planejando a eleição seguinte. É um daqueles acidentes felizes que constrangem quem vive de fabricar feitos.

Seria injusto atribuir essa comédia trágica apenas a um grupo ou a outro. A política potiguar descobriu um milagre administrativo inédito: consegue transformar adversários ferozes em irmãos siameses sempre que o assunto é produzir resultados medíocres. Brigam como gladiadores pelo direito de governar os últimos lugares dos rankings nacionais. É uma disputa apaixonada para decidir quem administrará melhor a escassez, o atraso, a miséria e a resignação. Não discutem educação, discutem quem nomeia o diretor. Não discutem saúde, discutem quem indica o administrador do hospital. Não discutem desenvolvimento, discutem quem controla o orçamento. O estado vira um espólio e o cidadão um detalhe estatístico que reaparece apenas quando chega a temporada das fotografias com crianças no colo e idosos abraçados.

Existe uma diferença enorme entre exercer poder e servir ao público. Nossos políticos parecem acreditar que basta sentar à mesa do governo ou estar em bancadas parlamentares para que o serviço público esteja automaticamente prestado. Confundem mandato com medalha, eleição com absolvição e cargo com herança familiar. Governam como quem administra uma fazenda recebida em inventário, esquecendo que o proprietário legítimo continua sendo o contribuinte que paga a conta dessa festa permanente. Por isso, o Rio Grande do Norte segue colecionando, para dizer pouco, posições desconfortáveis nos rankings nacionais. Não porque lhe faltem riquezas, inteligência ou capacidade e, sim, porque lhe falta uma classe dirigente que trate o estado como projeto coletivo, e não como condomínio privado. E, também, porque lhe faltam eleitores que exercem, com independência, a cidadania.

Daqui a uns começarão novamente os comícios. Virão os jingles, as bandeiras, os abraços coreografados e os discursos sobre um futuro radiante que misteriosamente nunca chega. Os candidatos pedirão mais uma oportunidade para consertar aquilo que muitos deles ajudaram diligentemente a estragar. E talvez consigam, porque, no teatro da política potiguar, a maior obra pública digna do nome continua sendo a construção permanente da memória curta.

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