Meio cavalo, meio jegue e 100% “pobrema”
Estive ontem e hoje num salão de filosofia política e de mitologia. Meio grega, meio sertaneja. E conheci, vejam só!, o Centauro dos Sertões. E adianto, não é o único da fauna mitológica. Sim, meus três sou quatro leitores, é uma figura de linhagem vasta, resultado de um cruzamento tão singular quanto improvável entre o cavalo e o bardoto, disse um estudioso da fauna e da mitologia.
O Centauro dos Sertões é o tipo de criatura que não consta nos manuais de zoologia do Ministério da Agricultura, muito embora preencha, com louvor, as calçadas, as esquinas, as mesas de bar do nosso vasto interior e outros espaços.
O brasileiro, como se sabe, é um especialista em mitologias aplicadas. Os gregos tinham o centauro clássico: metade homem, metade cavalo. Uma coisa imponente, poética, pronta para estampas de jarras e batalhas épicas. Já o Sertão (e quando escrevo sertão não estou me referindo, os nossos estudiosos devem saber, só ao sertão nordestino), com seu dom inato para a síntese pragmática, resolveu simplificar. Eliminou a parte humana do arranjo e ficou com o essencial: a montaria e a embalagem.

Imagem feita com auxílio de IA
Conversar com o Centauro dos Sertões, meus três ou quatro leitores, não duvidem, é uma experiência filosófica e mitológica difícil de dimensionar. O bicho, digo, o Ser traz no olhar aquela sabedoria secular de quem já viu de tudo e não se impressionou com nada. Quando você começa a expor uma teoria articulada sobre a conjuntura política, o fim da escala 6X1, o preço dos combustíveis, as pesquisas de opinião ou os caminhos da política internacional, ele arruma o corpo, emposta a voz, dá uma tragada lenta no cachimbo tomado à Caipora ou pita o cigarro de palha, e solta um relincho metafísico ou ontológico que resume um século e meio de sociologia nacional com pouquíssimas letras:
– Pois é.
E não há nada mais a ser dito. O “Pois é” do Centauro dos Sertões contém a Crítica da Razão Pura e a Teoria da Relatividade, sem contar as doses cavalares (perdoem-me o trocadilho) sobre a previsão do tempo para os trinta dias vindouros.
O Centauro dos Sertões é metade cavalo pela nobreza da postura, pela resistência ao sol e pela capacidade ancestral de carregar o fardo cotidiano sem pedir aumento. E é metade bardoto – uma refinada mistura de cavalo com jumenta – pela teimosia elegante. Se ele cisma que não vai, meus caros e queridos três ou quatro leitores, não há tratado de paz, decreto-lei, medida provisória ou PEC que o faça dar um passo à frente. Ele empaca com uma dignidade quase aristocrática, afinal ele é o verdadeiro fiador da nossa sobrevivência. Enquanto o resto do mundo corre em busca do algoritmo perfeito ou do próximo investimento na bolsa ou da nave que nos garantirá a colonização da Lua ou de Marte, o Centauro dos Sertões continua ali, parado na sombra, assistindo à história passar, e nos lembrando que o segredo da vida é só um: saber a hora certa de soltar um “Pois é” e deixar o mundo girar.