O recuo samurai

por Sérgio Trindade foi publicado em 29.jun.26

Houve um instante na tarde de hoje em que até os passarinhos pareceram diminuir o canto. A rua seguia igual, um cachorro caminhava pela rua, um mototaxista fazia uma entrega, uma janela bateu com o vento, mas dentro das casas o mundo cabia numa tela onde o Brasil enfrentava o Japão. Futebol tem dessas coisas: faz um país inteiro esquecer por noventa minutos as contas, o calor, a chuva e as notícias.

O Brasil venceu o Japão por 2 a 1.

Escrevo a frase agora, depois de tudo acabado, e ela parece simples demais para carregar o susto que carregou. Porque Brasil X Japão foi uma dessas partidas que castigam os torcedores emocionais – como só os brasileiros cordiais sabem ser (alô Sérgio Buarque de Hollanda!) –  e fazem os mais racionais buscar abrigo em mapas de calor, índices de posse de bola e estatísticas capazes de explicar o que o coração insiste em complicar.

Os japoneses entraram em campo como quem conhece o próprio destino. Montaram um exército de samurais disciplinados, três linhas compactas, um 4-5-1 quase inexpugnável. Não desperdiçavam um passo. Cada homem parecia saber exatamente onde pisaria no segundo seguinte. Jogavam por uma espada – digo, por uma bola – e bastou uma oportunidade para cravarem a lâmina afiada no peito brasileiro quando apenas um terço da peleja havia sido disputado. Foi um golpe limpo e seco. Por alguns minutos houve aquele silêncio que só o futebol produz. Ninguém desliga a televisão. Apenas muda de posição na cadeira, como se isso pudesse alterar o rumo da história.

O erro japonês apareceu justamente onde parecia morar sua virtude. Os samurais recuaram demais e fecharam cercas, muralhas e portões. Mas quem conhece o sertão sabe que cerca fechada demais termina abrindo passagem para quem insiste em procurar uma brecha. No futebol também acontece assim.

A expedição cabocla começou a empurrar o adversário, e os espaços foram surgindo entre as estreitas linhas de defesa samurai como pequenas clareiras abertas numa mata muito antiga. Até que surgiu um guerreiro improvável, envergando a camisola número cinco. Era um desses homens fortes que lembram um lutador de sumô. E lutadores de sumô, todos sabem, não voam; caminham pesadamente, quase arrastando o mundo nos ombros. Aquele, porém, voou alto. Saltou numa órbita que desmentia o próprio corpo e, de cabeça, disparou um petardo contra a cidadela do povo do Sol Nascente. Durante um segundo, o tempo pareceu suspenso entre a bola e a rede. Depois veio o grito. Um grito desses que atravessa apartamentos, escapa pelas janelas e faz alguém na calçada perguntar se saiu gol.

Imagem feita com auxílio de IA

Saiu.

O empate devolveu ao jogo uma velha esperança brasileira, essa criatura teimosa que nunca aceita o fim enquanto ainda resta um minuto no relógio. O sacrifício continuou. E veio a galope por uma linha de passe desenhada diante dos portões que os valentes samurais ainda guardavam com coragem. A muralha resistia, mas já não parecia inquebrável. Então apareceu Martinelli, o herói improvável.

Heróis improváveis têm o estranho costume de chegar sem pedir licença.

Pois bem, Martinelli recebeu a bola com a serenidade de quem já conhecia o desfecho e desferiu o tiro mortal com a leveza de um atirador de escol. Não houve gesto exagerado, apenas a precisão suficiente para desfazer um exército que durante boa parte da batalha acreditou ser invencível.

Quando a bola entrou, parecia que alguma coisa voltava ao seu devido lugar.

Final: Brasil 2, Japão 1.

Agora é esperar o domingo. No horizonte já se desenha outra campanha. Pode vir uma brigada africana. Pode surgir uma força naval viking. Não importa. Porque há tardes em que o futebol deixa de ser apenas um jogo e passa a ser uma dessas histórias que a gente conta muitos anos depois, sem lembrar exatamente do relógio, mas recordando perfeitamente do instante em que uma bola decidiu voar e se aninhar gostosamente numa rede.

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